A quem posso contar?

Coluna Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito

 

 

 

A Quem Posso Contar? As narrativas recepcionadas na Ouvidoria da UnB acerca da temática saúde mental na Instituição. Larissa dos Santos Aguiar. Dissertação de Mestrado. Brasília: UnB\Faculdade de Educação, 2019.

 

         Oriento a atenção neste Lido para Você para a Dissertação de Mestrado de Larissa dos Santos Aguiar, defendida no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, com o aval da segura orientação e co-orientação conduzidas pelos professores Rodrigo Matos de Souza (UnB\FE) e Maria Inês Gandolfo Conceição (UnB\IP). Participei da Banca, na qualidade de examinador titular interno (UnB), juntamente com o professor Elizeu Clementino de Souza, examinador titular externo ((UNEB\DEDC).

            A resenha tem o duplo intuito de fazer sugestão aos editores para o estudo que a Dissertação oferece em tudo relevante para o catálogo de publicações do tema indicado pela pesquisa; assim como chamar a atenção do trabalho nas Bases de Dados da Biblioteca da UnB, com a adição no Repositório de Teses e Dissertações desse referência importante para o conhecimento sobre a institucionalidade universitária e dos sistemas de gestão de uma experiência exemplar de modelagem de ouvidorias em tema tão estratégico quanto o da saúde mental de sujeitos que formam uma comunidade tão complexa quanto o é uma universidade.

            Desde logo resumo o objeto do trabalho:A presente dissertação teve como objetivo geral avaliar as políticas públicas educacionais desenvolvidas na UnB no que se refere à prevenção e promoção de saúde mental no âmbito da sua comunidade interna (servidores e discentes), a partir das narrativas recepcionadas pela Ouvidoria da UnB no transcurso de 2011 a 2018.

 

Fonte: Agência Brasil

           

         A pesquisa foi do tipo exploratória e contemplou a abordagem qualitativa e dialógica. O trabalho teve como desafio, no lidar diário, a busca pela compreensão dos relatos falados, silenciados ou silenciosos, provenientes das manifestações acolhidas na Ouvidoria da Universidade de Brasília, as quais tiveram como cerne a saúde mental dos sujeitos atendidos. Ação muito tênue, pois implica apreender uma linguagem muitas vezes contraditória, incoerente e não real ao cotidiano, o que, por vezes, prejudica a sistemática institucional. Foi necessário, dessa forma, estar sensível a essas escutatórias, a partir da experiência peculiar do indivíduo à realidade que a UnB oferece a ele, enquanto instituição promotora de participação e controle social mais ativa e menos retórica. Nesta perspectiva, discutiu-se o papel da educação superior, da Universidade de Brasília, das ouvidorias universitárias, focada na Ouvidoria da UnB, enquanto espaço de fala do cidadão.

         Para além disso, conceitua-se a saúde mental e as probabilidades de implementação de ações nessa área como política pública, centrando-a no âmbito dessa Entidade e tendo como referência os setores imbricados na questão. Marcado como um tema ainda pouco discutido na literatura educacional brasileira, especialmente quando situado no âmbito da educação superior e das ouvidorias, revela-se um assunto complexo, visto que, para a Organização Mundial da Saúde, não há uma definição única e/ou oficial do que seja saúde mental, pois esta não consiste em definir e limitar os transtornos mentais existentes, mas apresentar níveis de qualidade de vida emocional e cognitiva do ser humano a partir de suas próprias vivências. A partir desse explanação, foi analisado o banco de dados desse setor de escutatória, contendo 8.357 manifestações (base empírica primária), e executadas entrevistas semiestruturadas com os seguintes gestores: Magnífica Reitora, Decano de Assuntos Comunitários, Ouvidora, Diretor da DSQVT e Diretora da DASU, acrescida da revisão bibliográfica e de análise documental, que contempla o anuário estatístico, leis, estatutos, regimentos, resoluções, atos, atas e instruções normativas pertinentes ao tema. Em seguida, são apresentadas narrativas que consubstanciam o tema, mediante o olhar do sujeito e a percepção desses gestores. Por sua vez, o desfecho do trabalho explicita, ainda, o aumento considerável no número de manifestações ligadas à temática (1.591%, registrado no ano de 2017). Enfatizam-se, por fim, algumas proposições acerca da questão da saúde mental no contexto da Universidade, no âmbito da Ouvidoria”.

         Destaco a minha viva atenção ao trabalho que avalio, por se tratar de um estudo que tem como centro de análise o processo de atuação de uma Ouvidoria, pelas razões que aduzo a seguir. Parte dessas razões inseri em Prefácio que elaborei para livro ainda inédito, que terá edição da Editora UnB (Ouvidoria Brasileira: cenários e desafios). No Prefácio referido registro os meus comentários em sede de balanço de experiências, a respeito exatamente da avaliação das ouvidorias públicas na democracia, tal como aparece em Estado, instituições e democracia, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Brasília: Ipea, 2010. Especialmente Livro 9, volume 2, Ouvidorias Públicas e Democracia, p. 216:As ouvidorias públicas vêm se transformando em instrumento inovador de gestão e, principalmente, em uma ferramenta de controle social e de atendimento aos usuários dos serviços públicos. Gradativamente, os ouvidores têm visto acrescentar à sua função inicial de ombudsman o papel de mediador entre a organização e a sociedade”.

         Não é ocasional que o bem documentado trabalho mandado elaborar pela Secretaria-Geral da Presidência da República, em 2014 – Participação Social no Brasil. Entre conquistas e desafios, logo após os acontecimentos de 2013 e da tentativa de setores do legislativo de bloquear o modelo participativo da administração federal, tenha procurado conferir o que chama de metodologia de gestão, com esteio no modelo constitucional participativo e que tenha conferido a esse processo de gestão o conceito de diálogos entre governo e sociedade civil. De registrar (p. 127), o destaque atribuído à ouvidoria pública federal, entre as instâncias e os mecanismos de participação social, ali definida como “instância de controle e participação social responsável pelo tratamento das reclamações, solicitações, denúncias, sugestões e elogios relativos às políticas e aos serviços públicos, prestados sob qualquer forma ou regime, com vistas ao aprimoramento da gestão pública”.

         Atento ao que considero uma pedagogia da cidadania, me coloquei de acordo com muitos enunciados dos textos que formam aquela Coletânea, entre os quais encontrei, e não considero isso uma coincidência, um artigo da Autora da Dissertação, em co-autoria com a atual Ouvidora da UnB, Maria Ivoneide de Lima Brito (Estado, Políticas de Controle e seus Efeitos na Saúde do Trabalhador da UnB: o olhar da Ouvidoria), cujos pressupostos considero presentes na Dissertação que Leio para Você.

         De fato, lá como aqui, esses pressupostos  confortam a iniciativa programática que imprimi ao meu mandato reitoral na UnB, enfeixando no plano da administração, o conceito de gestão compartilhada, evidente modo e método de radicalizar os instrumentos de participação e de controle social, interno e externo, da gerência universitária.

         Documentei os princípios e os resultados desse programa, efetivado durante o mandato (2008-2012), em livro que organizei para a memória desse processo: SOUSA JUNIOR, José Geraldo de(org). Da Universidade Necessária à Universidade Emancipatória. Brasília: Editora UnB, 2012. Em minha narrativa, na obra, ao abordar o tema Gestão Compartilhada como Princípio de Participação Democrática, anoto sobre a Ouvidoria que criei, a importância que lhe atribui para a prestação de auxílio ao cidadão e à cidadã “em suas relações com a Universidade, funcionando como uma crítica interna da administração pública, sob a ótica do cidadão” (p. 46).

         Quando digo criei, não quero omitir iniciativas anteriores, pontuais (instalação de uma ouvidoria vinculada à Reitoria que funcionou por pouco tempo) ou mais permanentes embora setoriais (ouvidoria do Hospital Universitário). Refiro-me à criação como órgão permanente, estatutário, com ouvidor indicado e nomeado pelo Reitor, com aprovação do Conselho Universitário, detentor de mandato (dois anos renovável por igual período), com acesso livre a qualquer espaço, órgão, conselho, com direito à voz, com competência para requisitar país e audiência de pessoas e de elaborar relatório semestral com prerrogativa de pauta para apresentação perante o Conselho Universitário. É assim que ela está no Estatuto, no Regimento-Geral e nos Atos de Funcionamento e Atribuições, tendo potencializado as atribuições funcionais de sua origem e as de sua vocação democrática no máximo alcance de seus pressupostos democráticos e de afirmação dos direitos humanos.

         Por isso que seus Relatórios passaram a se constituir peças de crítica para a boa gestão e a Ouvidoria se tornou em pouco tempo um espaço educador no âmbito da Instituição, fomentando processos racionais para gestão, parâmetros para o trabalho decente, limites para as práticas de redução de dignidade e repositório conceitual para o compartilhamento de experiências e de modos avançados de gerir os bens públicos, sociais, voltados para a saúde e para a educação, no melhor sentido do que dizia atrás Boaventura de Sousa Santos, aqui repetido para realce: “numa sociedade democrática, o critério fundamental para avaliar a eficiência e a racionalidade da reforma da Administração Pública e do Estado é o seu impacto na cidadania e, especialmente, nos direitos sociais dos cidadãos”.

         Não posso deixar de anotar nessas considerações um registro de especial relevo, para amplificar o alcance e a importância do debate sobre esse tema. Vale dizer, a constatação, à luz desse debate e o que se expõe na Dissertação, de continuidade da disposição assinalada no tenso processo de reconstrução democrática em nosso País, de manter-se essa disposição na cultura política que dá identidade à Administração Pública, ao menos vigente a Constituição de 1988, denominada “cidadã”, valorizando o seu conteúdo participativo, forte no controle social das políticas públicas.

         Em que pese acumular-se no horizonte político sombras de recesso democrático e de registros de assaltos autoritários ao modelo de participação da cidadania na gestão pública, a institucionalidade ainda preserva, com o apoio de movimentos de rua, espaços de defesa desse sistema, devendo lembrar-se o conflito a intervenção recentes do Supremo Tribunal Federal, preservando nichos de atuação participativa social na modelagem dos Conselhos e outros sistemas de participação atacados por ações de governo no início de 2019.

         É bom lembrar que o espaço universitário se constitui na mais importante trincheira para a preservação desses fundamentos, uma vez que o princípio constitucional da autonomia, permite que aí se forme uma cidadela para conferir valor a processos e instrumentos que representam a concretização e permanência desses instrumentos. O livro se reveste, por isso, do caráter de obra de referência, imprescindível para o discernimento dos sinais que demarcam cenários e desafios que se armam na conjuntura.

         Portanto, o meu apreço pelo trabalho desenvolvido por Larissa Aguiar. Sigo o bem estruturado SUMÁRIO proposto pela Autora, contendo uma INTRODUÇÃO e quatro capítulos (1 –CENÁRIOS E DESAFIOS DA EDUCAÇÃO SUPERIOR BRASILEIRA; 2 – A UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA NO PROCESSO DE PARTICIPAÇÃO E CONTROLE SOCIAL; 3 – A QUESTÃO DA SAÚDE MENTAL NA UnB A COMEÇAR DA ESCUTATÓRIA DE SUA OUVIDORIA; 4 – RETRATO DA PESQUISA: ABORDAGEM METODOLÓGICA ANÁLISE, DISCUSSÃO E RESULTADOS)

         O resultado é um consistente e exemplar estudo cujas conclusões se expõem em CONSIDERAÇÕES FINAIS que sintetizam o percurso da dissertação, primeiro o abarcar a educação superior no País em diferentes cenários políticos, seu contexto, seus paradoxos e o seu processo em investimentos educacionais. Depois, situar a UnB como uma “universidade inovadora no Brasil em todos os ramos do saber e de divulgação científica, técnica e cultural, enquanto entidade evocada para estar à vanguarda de seu tempo, não obstante ter passado por inúmeras transformações políticas, o que ocasionou desequilíbrios não só em sua autonomia educacional, mas instabilidades salariais e falta de investimento em seus anos mais difíceis”. E, nesse passo, descortinar o “espaço de autonomia, de controle e de participação social, visão que é legitimada, inclusive, mediante a criação de sua Ouvidoria, enquanto Unidade de escutatória e de voz do cidadão, um instrumento estratégico, ferramenta para o diálogo entre esse cidadão e a Instituição”.

         No terceiro capítulo, a Dissertação destaca a questão da saúde mental e sua intrínseca relação com as narrativas recepcionadas na Ouvidoria, a partir de alguns assuntos associados à investigação: (i) assédio (moral e sexual); (ii) discriminação de gênero/raça e homofobia; (iii) postura inadequada docente, técnico e/ou discente; e (iv) violação de direitos individuais e coletivos, amplamente debatidos e fundamentados no conceito de saúde mental, ou na ausência dele, pois, conforme alerta a Organização Mundial da Saúde, esta não é apresentada mediante uma definição precisa e oficial, até porque ela está diretamente ligada aos níveis de qualidade de vida emocional e cognitiva que o ser humano possui ou busca possuir, a partir de suas próprias vivências. Nessa direção, e conforme constatado por Foucault, é a partir do cuidado de si que o indivíduo começa a se conhecer e a conhecer suas necessidades e seus limites.

         Segundo a Autora, “não se pode ignorar que a sociedade moderna busca incessantemente por diversos objetivos, não conseguindo muitas vezes precisar o que de fato é importante e essencial a ela”. Com isso, diz ela, “esse cuidado de si se torna frágil, desumanizando o humano e tornando esse ser um robô de suas obrigações e de constantes produções, fragilizando sua relação com o próximo e até com ele próprio. A fim de evitar esse não reconhecimento do outro, embasado na falta de alteridade e empatia, faz-se indispensável a construção de redes de proteção de apoio social, uma rede de afeto ou, melhor, de edificação de ambientes motivadores e cada vez mais democráticos, validando a participação e o controle social do indivíduo. A liquidez vivida nos tempos de hoje pelo sujeito multitarefado e veloz, e que precisa voltar a ser solidificada, concentra-se em o ser humano não saber lidar de maneira consciente com as exigências e os compromissos da vida (profissional, acadêmico, espiritual, familiar, pessoal) ponderando as suas emoções (tristeza, frustação, decepção, medo, culpa, raiva, coragem, ódio), o que pode transformar um possível sofrimento em algo patológico. Não obstante o descarte de outros fatores agravantes na vida dele”.

         Daí que vão ser apontados os desafios que se abrem para uma atuação que se faça responsiva aos problemas confrontados, “desde os mais estruturais, como a (des)valorização da educação em nosso País, bem como ao papel social que é dado à educação superior, sobremodo a pública, quanto àqueles mais subjetivos, como a necessidade de edificar um caminhar sólido e saudável nessa sociedade líquida, um caminhar que contemple as mudanças sociais aceleradas, mas, ao mesmo tempo, humanize os espaços em que vivemos, como o familiar, o ambiente de trabalho e o acadêmico, o que se apresenta como um desafio peculiar para as diversas instâncias que compõem a Universidade, especialmente a Ouvidoria, o locus de escutatória, um instrumento de gestão que busca por melhorias dos procedimentos e da própria gestão da Instituição”.

         À pergunta “qual então o papel da universidade nesse processo?” propõe a Dissertação “uma universidade cada vez mais humanizada”, por meio da “criação de ambientes favoráveis ao bem-estar, que contemplem a promoção da saúde e da qualidade de vida de sua comunidade acadêmica enquanto parte constituinte de seu projeto. Isso não é responsabilidade somente dos gestores que a compõem, mas, sobretudo, de todos os atores sociais nela inseridos. Na busca da construção desses ambientes de trabalho, de aprendizagem e de vivências saudáveis para estudantes, professor e técnico-administrativos, cabível mapear os fatores de risco que estão atrelados às condições de vida como um todo e à vida acadêmica, em particular, além da construção de redes nos seus mais diversos âmbitos”.

         Para a Autora da Dissertação, com base nos elementos colhidos em sua pesquisa, sobretudo nas entrevistas semiestruturadas, que trazem à tona algumas dessas constatações por parte dos gestores participantes deste estudo (cf, Apêndice), esses:

         “a) compreendem que a educação superior é um local heterogêneo, amplo e complexo e que a UnB possui papel relevante nesse contexto, uma peça fundamental para esse campo e para o processo democrático no País;

         b) deliberam que o controle e a participação sociais são preponderantes para o exercício da cidadania, o que se consolida em seu contexto a partir dos diversos colegiados que a entidade possui e dos debates que lhe são peculiares;

         c) reconhecem o papel do cidadão como fonte importante de transparência, de controle e de participação social, inclusive mediante a participação do sindicato em sua ação de construção coletiva junto à comunidade como um todo;

         d) destacam, de forma unânime, que há fragilidades no contexto da UnB, entre as quais a carência no que diz respeito à capacitação de toda a comunidade interna acerca da temática saúde mental, ao visualizarem que cada servidor é, sobremodo, um educador e que, a partir desse olhar, precisa de capacitação e formação continuada;

         e) reforçam, de modo emblemático, a falta de recurso que resulta em cortes essenciais, o que pode vir a agravar processos de adoecimento;

         f) compreendem, todos, que as responsabilidades da UnB e do Governo Federal são distintas, e que não é da alçada da Universidade assumir questões de saúde pública e, sim, do SUS; todavia, indispensável ação conjunta para a construção de políticas públicas que abarquem o tema, na Entidade e para além de seus muros;

         g) reforçam que a UnB se encontra em constante metamorfose ao pensar, repensar e institucionalizar diversos núcleos de acolhimento e de atendimento psicológico, no período em estudo, inclusive com mudanças significativas em seu organograma, como a instituição da DASU;

         h) concordam com a premissa de que é preciso construir redes de ação e de atuação, tanto do ponto de vista administrativo e gerencial quanto, sobremodo, do ponto de vista das relações”.

         Daí designa-se o grande desafio aferido na Dissertação que remete a perspectiva “de que a comunidade da Universidade, a partir dos próprios sujeitos que a constituem, e considerando todos os fatores histórico e político vividos e conquistados por esta Instituição, saia da caverna descrita por Platão, ao ponto de saber distinguir sabedoria e ignorância” Vale dizer, segundo a Autora: “Estar livre e desperto”. Isto é, “experimentar um mundo de realidades desde o entendimento do eu, o que poderá criar um olhar crítico a partir da inserção desse ser em um ambiente acadêmico, cujo leque para novas informações em contextos crítico-reflexivos é aberto e se apresenta como possibilidade que o indivíduo tem para esse autoconhecimento. É preciso sair dessa “caverna”– na qual está condicionado à escuridão e ao aprisionamento que tanto impede de enxergar a luz da verdade –, analisar todo o enquadramento vivido e somente absorver aquilo que traga “luz”, objetivando, a começar dessa nova visão em conjunto, baseado na consciência de si, com alteridade e empatia, experienciar mais o cuidado de si, em uma visão tridimensional: (i) a universidade que cuida de si; (ii) que cuida de sua comunidade e, finalmente, (iii) uma comunidade que cuida de si e da Universidade, em um movimento retilíneo, cíclico e concomitante. Uma universidade que cuida da sua saúde mental”.

         Ao final, uma nota para debate. Retomo para tanto a locução escutatória que para a Autora representa um achado teórico-metodológico. Com efeito, já na Introdução de seu trabalho ela aponta para essa direção, ao pôr em relevo essa intenção e fixar o seu estatuto epistemológico. Diz ela:

         “…Paulo Freire (2018, p. 111), em sua obra intitulada Pedagogia da Autonomia, destaca que é a partir dessa escuta (sensível) que aprendemos a falar com os outros. Afirma ainda que o sujeito ouvinte, a partir da escutatória, aprende a difícil lição de transformar o seu discurso a partir dessa fala com o outro e não somente uma fala ao outro, o que contribui com o processo democrático da arte do diálogo, descartando os simples discursos ou falas autoritárias. Tão necessário e indispensável esse entendimento se pensarmos na relação dos conceitos estudados nesta pesquisa: educação, universidade e saúde mental, a partir de narrativas recepcionadas em um setor administrativo, de avaliação e monitoramento das políticas internas, essencialmente estruturada no espaço da escuta: uma ouvidoria”.

          Logo em seguida, numa modalidade mais expletiva, ela realça essa condição aproximando o modo dialógico de Paulo Freire para lhe atribuir o alcance operativo que ela procura conferir ao termo tal como o emprega em sua formulação teórica: “Aqui, podemos introduzir o termo “escuta sensível” relacionando à crônica Escutatória, de Rubem Alves (2005), em que destaca que há muitos cursos de oratória e nada para a escutatória. A valorização da comunicação consiste, em sua maioria, no domínio de um sobre o outro na técnica do discurso e não na do diálogo. O diálogo é antes de tudo escutar, incluir o silêncio e o tempo de processamento das informações recebidas”.

         Para a Autora, há uma tensão dramática que provoca a necessidade de um processo dialógico quando se estabelece o risco de silenciamento entre a angustiante expectativa de “a quem posso contar?” e da possibilidade sensível-funcional de uma disponibilidade “escutatória”.

         Para ela, “A falta desse processo dialógico e de posicionamento em um instante necessário pode provocar também um progresso de adoecimento mental em uma pessoa. Diversas narrativas são recepcionadas na Ouvidoria da UnB nesse sentido. Algumas pessoas da comunidade interna quanto da externa procuram por esse setor, relatam seus problemas por um período muitas vezes longo e, ao irem embora, optam em não registrar o que foi dito durante o atendimento, afirmando que fez toda diferença esse processo dialógico a partir daquela escuta sensível. Pode-se perceber, desse modo, o que a falta de um (ou um bom) acolhimento pode provocar nas pessoas”.

          A Autora que em seu memorial na Introdução traça o seu percurso acadêmico e dá repercussão aos debates que travou ao participar dos debates no campo da disciplina O Direito Achado na Rua, certamente terá registrado o alcance epistemológico-metodológico centrado na categoria escuta.

         Nessa condição terá participado de seguidos debates sobre a empregabilidade dessa categoria em outras esferas de mediação institucional. Por exemplo, no campo judicial: “Não há dúvida de que o Judiciário tradicional, calcado quase que apenas na operação pretensamente matemática da subsunção do fato à norma estatal, dá conta, se é mesmo que dá, de uma parcela ínfima do que pode se entender por direito e distribuição de justiça. É urgente que se alarguem as possibilidades, que se trabalhe com outras racionalidades e caminhos de formação de decisão. Não se está falando, necessariamente, de direito alternativo ou de ativismo judicial. Sem descartá-los, a apologia a estas inclinações também seria encerrar o fenômeno do direito e da justiça em quadrantes menores do que sua real natureza. O Judiciário precisa se fazer permeável aos fenômenos sociais de uma maneira ampla, aguçando sua escuta e levando em consideração em seus processos decisórios argumentos que não sejam estritamente os do direito positivado”. (Gabriela Jardom, Um “tribunal achado na rua”: seria possível? Seria útil? Ou não passa de uma quimera?. Revista da Defensoria Pública do Distrito Federal, v. 1 n. 2 (2019): Ordenamentos jurídicos, monismos e pluralismos: O Direito Achado na Rua e as possibilidades de práticas jurídicas emancipadoras).

         Esta é uma condição – lembrei isso em abordagem que demarcava a chamada para a humanização não burocratizante do institucional (SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. Por uma concepção alargada de Acesso à Justiça. https://revistajuridica.presidencia.gov.br/index.php/saj/article/view/223/212, v. 10, n. 90, 2008)  – para abrir o sistema de acesso à justiça, como lembra Carolina de Martins Pinheiro (PINHEIRO, Carolina de Martins. Escuta criativa: sobre a possibilidade de uma justiça moderna e democrática. Brasília: Sindjus-DF, [S.D.]. p. 68. 1º lugar no 1º Prêmio Novas Idéias para a Justiça. Objetivos e Resultados), não apenas por uma via de modernização tecnológica que foca o Judiciário num recorte funcional de prestador de serviços quantificáveis, segundo uma lógica maximizadora de esforços produtivos, mas “que se fecha à possibilidade de inclusão de visões de mundo diferenciadas, portanto, imune à riqueza de subjetividades interpelantes. É dessa carência que se ressentem as constantes reformas, organizacionais e processuais, em geral oferecidas para a atualização do sistema de Justiça, todas elas ainda subordinadas à lógica de papelização do direito, com evidente perda de sua dimensão humana”.

         Nesses debates sempre recorria-se a Boaventura de Sousa Santos, autor arrolado por Larissa Aguiar, mas não em obra essencial para a sua análise (O Fim do Império Cognitivo. A afirmação das epistemologias do Sul. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019). Nessa obra, muito bem desenvolvido e em consonância com as referências da Autora, o capítulo A escuta profunda, que bem poderia ser incorporado aos fundamentos de sua Dissertação, principalmente para conferir “algumas dimensões ou tipos de prática da escuta profunda”, muito apropriadas à categorização que a Autora propõe, até porque, do mesmo modo que a inquietou, em Boaventura de Sousa Santos, “apesar do fato de que uma grande maioria da população passa o mesmo tempo da sua vida ouvindo e falando, as escolas ensinam a falar, mas não a ouvir”.

           

José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil,  Professor Titular, da Universidade de Brasília,  Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.55

 

  1. Sirley Aparecida de Souza

    Parabéns Larissa por construir um trabalho que, certamente, já é um referencial para refletirmos sobre a importância da saúde mental no campo acadêmico. O adoecimento da comunidade acadêmica tem tido desdobramentos estarrecedores, assim, não dá para ficar indiferente. Precisamos exercitar a escuta qualificada!
    Ao professor José Geraldo, parabéns pela exposição do tema.

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