Em entrevista ao Jornal Estado de Direito, secretário-geral da Federação Nacional dos Petroleiros relata restrições judiciais às paralisações, repressão policial, pressões empresariais em assembleias e discriminação sindical. Dirigente também relembra a resistência dos petroleiros à ditadura, critica as privatizações da Petrobras e defende a soberania energética e a representação política dos trabalhadores.
Por Carmela Grüne | Jornal Estado de Direito
Série Especial — 38 anos da Constituição Cidadã
A Constituição Federal de 1988 assegurou a liberdade sindical, a autonomia das organizações representativas e o direito de greve. Entretanto, 38 anos depois, trabalhadores brasileiros ainda enfrentam dificuldades para exercer essas garantias. No setor petroleiro, decisões judiciais que determinam a manutenção de até 85% da força de trabalho durante paralisações, episódios de repressão policial e pressões empresariais sobre a participação sindical são alguns dos problemas relatados por Adaedson Costa, secretário-geral da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP).
Em entrevista concedida à jornalista e advogada Carmela Grüne, neste domingo, 18 de outubro de 2026, para a série especial do Jornal Estado de Direito sobre os 38 anos da Constituição Cidadã, o dirigente apresentou exemplos de como direitos reconhecidos constitucionalmente podem enfrentar obstáculos concretos em sua aplicação.
Ao questionar a efetividade do direito de greve, Adaedson afirmou que decisões judiciais determinando a manutenção de grande parte do efetivo durante paralisações comprometem a capacidade de negociação dos sindicatos. Ele também relatou intervenções policiais em mobilizações dos petroleiros, denúncias de assédio durante negociações coletivas e situações em que trabalhadores evitam se filiar às entidades sindicais por receio de prejudicar suas possibilidades de ascensão profissional.
A conversa recuperou ainda a participação dos trabalhadores na resistência à ditadura militar, as consequências das privatizações no setor energético, o papel estratégico da Petrobras, os desafios impostos pelas novas tecnologias e a necessidade de ampliar a representação da classe trabalhadora no Congresso Nacional.
Da resistência à ditadura às conquistas da Constituição de 1988
Ao abordar o papel histórico dos sindicatos na redemocratização brasileira, Adaedson recordou que as organizações dos trabalhadores foram perseguidas durante a ditadura militar e que o setor petroleiro enfrentou dificuldades particulares por ser considerado estratégico para a segurança nacional.
Segundo o dirigente, a organização sindical durante aquele período frequentemente precisava ocorrer de maneira clandestina. Trabalhadores conversavam dentro das instalações industriais e realizavam reuniões fora das empresas, inclusive em igrejas, procurando desenvolver formas de mobilização sem se expor diretamente à repressão.
Como exemplo, Adaedson mencionou manifestações relacionadas à qualidade da alimentação oferecida aos empregados. Quando a comida era considerada inadequada, os trabalhadores deixavam os alimentos diante da sala da superintendência, utilizando aquela ação coletiva como uma forma de demonstrar insatisfação.
O entrevistado lembrou que, à medida que a ditadura perdia sustentação política, os trabalhadores ampliavam sua organização sindical. Entretanto, muitos dirigentes sofreram perseguições, prisões e outras formas de repressão.
Entre os episódios citados está a utilização do navio Raul Soares, em Santos, como local de prisão de opositores da ditadura. Adaedson destacou os relatos de tortura e as iniciativas desenvolvidas para preservar a memória das pessoas atingidas pela repressão.
O secretário-geral da FNP também afirmou que existem documentos relacionados à atuação de gestores da Petrobras na denúncia e perseguição de dirigentes sindicais durante o regime militar.
Segundo seu relato, entidades representativas dos petroleiros desenvolvem iniciativas para discutir a responsabilização da companhia e a reparação das vítimas. Nesse contexto, mencionou as negociações relacionadas às perseguições praticadas durante a ditadura e estabeleceu um paralelo com o acordo envolvendo a Volkswagen.
Para Adaedson, compreender essa trajetória é essencial para reconhecer a importância da organização dos trabalhadores na conquista de direitos e na construção democrática brasileira.
O direito de greve existe, mas decisões judiciais podem esvaziar as paralisações
Um dos pontos centrais da entrevista foi a distância entre as garantias reconhecidas pela Constituição e as condições efetivas para seu exercício.
Adaedson reconheceu que a Constituição de 1988 assegurou avanços importantes, incluindo a liberdade de associação, a autonomia sindical e a possibilidade de atuação dos sindicatos como substitutos processuais na defesa dos trabalhadores.
Entretanto, ao discutir o direito de greve, afirmou que a categoria petroleira enfrenta obstáculos significativos em razão de decisões judiciais que determinam a manutenção de percentuais elevados da força de trabalho durante paralisações.
O dirigente questionou a efetividade de uma greve quando a Justiça exige que 80% dos empregados permaneçam trabalhando.
“Então não existe greve”, afirmou ao criticar essas determinações. Na sua avaliação, embora os trabalhadores tenham o direito formal de paralisar suas atividades, as restrições impostas podem retirar a capacidade de pressionar o empregador durante uma negociação coletiva.
Adaedson destacou que sua crítica decorre da experiência acumulada na organização de grandes mobilizações da categoria petroleira ao longo dos últimos anos.
O dirigente também questionou a amplitude com que atividades são consideradas essenciais, argumentando que essa classificação acaba sendo utilizada para justificar exigências de funcionamento que, em sua avaliação, comprometem a efetividade das paralisações.
Para ele, o problema não é apenas a existência de uma decisão judicial, mas o efeito concreto de determinações que praticamente impedem o sindicato de utilizar a greve como instrumento de negociação.
Greve de 13 dias em Cubatão: decisão judicial exigiu 85% da força de trabalho
Adaedson apresentou um exemplo específico para demonstrar sua crítica.
Segundo seu relato, em 2025, os trabalhadores realizaram uma greve de 13 dias na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão, no litoral paulista.
Durante a mobilização, afirmou que uma decisão liminar determinou a manutenção de 85% da mão de obra.
Na avaliação do dirigente, o percentual estabelecido comprometeu a efetividade do movimento e levantou uma preocupação adicional: a segurança operacional das instalações.
Adaedson explicou que os empregados da refinaria trabalham em regime de turnos ininterruptos de revezamento e que a operação industrial depende de quadros mínimos de profissionais para assegurar o funcionamento dos processos com segurança.
Segundo ele, a definição judicial de um percentual de trabalhadores, sem considerar adequadamente as particularidades operacionais, poderia colocar pessoas em risco.
O dirigente ressaltou que sua preocupação não se limitava à continuidade da produção, mas também à segurança dos próprios operadores.
Para Adaedson, decisões dessa natureza precisam ser discutidas porque, em sua experiência, acabam retirando do sindicato a possibilidade concreta de pressionar por melhores condições de trabalho.
“Quando o juiz decide isso, ele decide que acabou a greve”, afirmou, ao comentar a determinação de manutenção de 85% da força de trabalho.
O episódio foi apresentado pelo entrevistado como demonstração de uma contradição que considera fundamental: a legislação reconhece o direito de greve, mas determinadas condições impostas ao seu exercício podem esvaziar a capacidade de mobilização dos trabalhadores.
Repressão policial durante greves de petroleiros
Além das restrições judiciais, Adaedson denunciou a atuação policial em mobilizações sindicais.
Segundo o dirigente, quando os trabalhadores se organizam diante das fábricas, a presença da polícia frequentemente é percebida pela categoria como uma forma de proteção dos interesses empresariais.
Ele questionou a utilização da força policial diante de manifestações que, segundo seu relato, podem ocorrer de maneira pacífica.
Ao tratar das experiências dos petroleiros, Adaedson mencionou as greves de 2015, 2020 e 2025, afirmando que a categoria já enfrentou prisões e forte repressão policial durante mobilizações. A entrevista não detalhou individualmente as circunstâncias dessas prisões em cada movimento.
Para o dirigente, a intervenção policial é mais um obstáculo à liberdade de organização dos trabalhadores, especialmente quando a mobilização tem como finalidade pressionar o empregador a negociar.
Ele argumentou que a greve surge justamente diante das dificuldades para alcançar entendimentos nas negociações coletivas e que a utilização de mecanismos de repressão enfraquece essa possibilidade de atuação sindical.
Adaedson também criticou o comportamento de empregadores que, em sua avaliação, negligenciam as negociações e resistem ao atendimento das reivindicações apresentadas pelas categorias profissionais.
Pressões empresariais, assembleias e a participação de 131 gerentes nas votações sindicais
Outro conjunto de exemplos apresentado por Adaedson envolveu as negociações coletivas realizadas na Petrobras durante o governo Jair Bolsonaro.
O dirigente recordou que, em 2019, a categoria petroleira enfrentou propostas que, segundo seu relato, representavam uma redução expressiva de direitos previstos no acordo coletivo de trabalho.
Entre as alterações mencionadas estavam a redução de remuneração, a implantação de banco de horas e o aumento da participação dos empregados no custeio do plano de saúde.
Adaedson afirmou que trabalhadores eram pressionados por gestores a participar das assembleias e apoiar propostas defendidas pela administração da companhia.
Segundo ele, havia situações de assédio moral destinadas a influenciar o posicionamento dos empregados durante as votações.
Ao recordar as mobilizações daquele período, mencionou uma assembleia realizada na região da Lapa, no Rio de Janeiro, na qual, conforme seu relato, mais de 7 mil trabalhadores participaram de uma votação secreta.
O dirigente explicou que a adoção do voto secreto representou uma forma de permitir que os trabalhadores manifestassem suas posições sem a exposição característica das assembleias em que a escolha é feita pelo levantamento das mãos.
Adaedson apresentou ainda um episódio ocorrido no litoral paulista, quando exercia a coordenação sindical da categoria.
Segundo seu relato, havia uma cláusula que impedia gestores de participar de determinadas votações sindicais em razão de conflitos de interesses. Ele explicou que a regra foi inspirada em restrições existentes na própria Petrobras para a participação do representante eleito pelos trabalhadores no Conselho de Administração em deliberações sobre assuntos como remuneração e previdência.
Adaedson afirmou que a Petrobras recorreu à Justiça para garantir que gerentes também pudessem votar nas assembleias.
Ao relatar uma votação ocorrida em 2020, mencionou uma assembleia com aproximadamente 700 participantes. Segundo ele, para cumprir a decisão liminar, houve identificação dos gestores por meio de pulseiras.
O dirigente afirmou que 131 gerentes participaram da votação e votaram favoravelmente à proposta empresarial que, na sua avaliação, retirava direitos previstos no acordo coletivo da categoria.
Adaedson também relatou que havia pressão sobre ocupantes de cargos gerenciais, com advertências de que poderiam perder suas funções caso não apoiassem a proposta.
Para o secretário-geral da FNP, esses episódios revelam como a estrutura hierárquica de uma empresa pode interferir na liberdade de manifestação dos trabalhadores durante negociações coletivas.
O dirigente afirmou que a categoria possui registros fotográficos daquele episódio e que considera importante preservar a memória dessas disputas, respeitando a identidade dos participantes.
Sua crítica não ficou restrita ao resultado da votação. Adaedson questionou a possibilidade de as decisões coletivas dos trabalhadores ocorrerem sob influência empresarial e destacou a necessidade de proteger a autonomia das organizações sindicais.
O medo de se sindicalizar e o debate sobre registros de greve nas fichas funcionais
Durante a entrevista, Carmela Grüne apresentou o debate sobre a discriminação profissional decorrente da participação dos trabalhadores em greves e atividades sindicais.
A jornalista e advogada exemplificou o Projeto de Lei nº 2.172/2026, apresentado pelo senador Rogério Carvalho a partir de proposta legislativa formulada por ela, voltada a impedir que empresas utilizem registros de participação em greves nas fichas funcionais para prejudicar avaliações, promoções e progressões de carreira.
Adaedson destacou situações em que a participação sindical pode repercutir negativamente sobre a trajetória profissional. Segundo ele, existem trabalhadores na Petrobras que evitam se filiar aos sindicatos por receio de comprometer suas possibilidades de ocupar cargos de gestão. O dirigente afirmou que esse comportamento ocorre em determinados setores da companhia e relacionou o problema ao preconceito contra a atividade sindical.
Para Adaedson, essa percepção também é alimentada pela desvalorização pública dos sindicalistas, frequentemente apresentados de maneira negativa, apesar da dedicação exigida pelo trabalho de organização das categorias profissionais.
Ele observou que muitos dirigentes abrem mão de oportunidades de carreira e de momentos da vida pessoal e familiar para participar das atividades sindicais e defender melhores condições de trabalho.
O secretário-geral da FNP também criticou a ausência de formação sobre direitos trabalhistas durante a preparação profissional de muitos empregados.
Ao recordar sua experiência em cursos realizados no Senai, afirmou que recebeu orientações técnicas relacionadas à produção e ao desempenho profissional, mas não teve formação equivalente sobre direitos dos trabalhadores e organização sindical. Na sua avaliação, essa lacuna contribui para a falta de consciência de classe e dificulta a participação nas entidades representativas.
A representação sindical também enfrenta desafios nas negociações e no Congresso Nacional
Ao examinar as perspectivas do sindicalismo brasileiro, Adaedson manifestou preocupação com propostas que, segundo sua avaliação, podem enfraquecer as prerrogativas das entidades sindicais.
O dirigente criticou alterações relacionadas ao financiamento dos sindicatos, embora tenha ressaltado que também possuía objeções ao modelo anterior de contribuição sindical.
Na entrevista, citou Rogério Marinho ao comentar propostas políticas que, em sua interpretação, poderiam prejudicar mecanismos de representação sindical, como a substituição processual e a organização territorial das entidades.
Para ilustrar sua preocupação, apresentou uma situação envolvendo trabalhadores de empresas contratadas em Cubatão.
Segundo Adaedson, haveria empregadores interessados em negociar com entidades sindicais de outras localidades, como o Rio de Janeiro, por considerá-las mais alinhadas aos interesses empresariais.
Para o dirigente, a possibilidade de escolher entidades mais favoráveis ao empregador pode comprometer a representação dos trabalhadores nas negociações coletivas.
A discussão foi relacionada à importância das escolhas políticas e à composição do Congresso Nacional.
Adaedson criticou a influência de interesses empresariais sobre o Parlamento e defendeu a eleição de representantes oriundos da classe trabalhadora.
Segundo sua avaliação, a presença reduzida de trabalhadores nas instâncias de decisão política dificulta a aprovação de medidas destinadas à melhoria de suas condições de vida.
O dirigente mencionou a mobilização em torno do fim da escala 6×1 e recordou que ele próprio trabalhou durante parte de sua vida nesse regime de jornada.
Para Adaedson, a redução do tempo dedicado ao trabalho e a ampliação dos períodos de descanso são temas relacionados à dignidade, à qualidade de vida e à necessidade de distribuir os benefícios da riqueza produzida socialmente.
Na sua avaliação, os trabalhadores precisam acompanhar as decisões políticas porque a composição do Congresso e as propostas aprovadas pelo Legislativo afetam diretamente seus direitos.
Privatizações, Petrobras e o papel do Estado nos setores estratégicos
Questionado sobre a importância da Petrobras para a soberania nacional e sobre as consequências das privatizações, Adaedson defendeu a necessidade de manutenção do controle estatal sobre atividades estratégicas, especialmente água, energia elétrica e petróleo.
Como argumento, utilizou exemplos históricos de países que ampliaram a intervenção estatal sobre setores produtivos durante períodos de guerra, sustentando que o controle da produção possui importância decisiva para a autonomia nacional.
O dirigente afirmou que a oferta de serviços essenciais não pode depender exclusivamente da rentabilidade econômica, pois existem regiões em que os investimentos necessários para atender à população podem não ser considerados atrativos por empresas privadas.
Nesse contexto, mencionou a privatização da Sabesp, em São Paulo, e criticou seus efeitos sobre o abastecimento de água, afirmando que a redução da pressão nas redes pode prejudicar consumidores localizados nas extremidades dos sistemas de distribuição.
Ao tratar da Petrobras, Adaedson relacionou a soberania energética à capacidade de controlar os preços dos combustíveis.
O entrevistado criticou os efeitos da política de Preço de Paridade de Importação (PPI), associando a política de preços praticada no período do governo Bolsonaro ao aumento dos valores dos combustíveis e aos impactos sobre a economia brasileira.
Para ele, o Brasil precisa considerar sua própria capacidade de produção e refino de petróleo para formular políticas de abastecimento capazes de reduzir os efeitos das oscilações internacionais.
Adaedson apresentou estimativas de preços do diesel para sustentar o argumento de que a atuação estatal permite maior controle sobre os valores praticados no mercado interno.
Na sua avaliação, essa capacidade influencia diretamente os custos do transporte rodoviário, a competitividade industrial, o escoamento da produção agrícola e a inflação.
A refinaria de Manaus e as consequências das privatizações
A privatização da refinaria de Manaus recebeu atenção especial durante a entrevista.
Adaedson criticou a venda da antiga Refinaria Isaac Sabbá (REMAN) e afirmou que a operação teria contribuído para aumentar os preços dos combustíveis na região Norte.
Segundo sua avaliação, a refinaria teria entrado em situação de hibernação após a privatização, com substituição de parte da produção local por combustíveis importados. O dirigente atribuiu essa dinâmica aos interesses econômicos do grupo comprador. Essas afirmações refletem o relato do entrevistado sobre a unidade, não uma verificação técnica de seu funcionamento.
Adaedson também mencionou privatizações de unidades relacionadas ao refino no Rio Grande do Norte e na Bahia, associando-as, em sua análise, aos preços mais elevados dos combustíveis nas respectivas regiões.
O dirigente criticou ainda a venda da BR Distribuidora, afirmando que a atuação das empresas privadas de distribuição pode influenciar os preços pagos pelos consumidores mesmo quando a Petrobras não reajusta os valores cobrados pelos derivados.
Como exemplo, apresentou uma estimativa atribuída a estudos de entidades ligadas aos petroleiros, segundo a qual a manutenção da BR Distribuidora sob controle da Petrobras poderia representar redução próxima de R$ 0,80 por litro de gasolina.
Outro ponto abordado foi a privatização de estruturas de transporte de gás. Adaedson mencionou a NTS e outros dutos, criticando o fato de a Petrobras passar a pagar pela utilização de estruturas que anteriormente integravam suas atividades.
Para ele, essas operações reduzem a capacidade de atuação integrada da companhia e dificultam a construção de uma política energética voltada ao desenvolvimento nacional.
Fertilizantes, biodiesel e novas tecnologias
A discussão sobre os rumos da Petrobras também envolveu projetos de produção de fertilizantes e combustíveis renováveis.
Adaedson criticou a interrupção de investimentos em unidades industriais, mencionando, entre outros exemplos, o empreendimento de Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul.
Segundo o dirigente, as obras foram paralisadas quando a unidade apresentava aproximadamente 92% de execução.
Ele também mencionou mudanças em projetos relacionados à produção nacional de fertilizantes e criticou a dependência brasileira de produtos importados em um setor considerado estratégico para a agricultura.
Ao abordar a transição energética, recordou a interrupção de iniciativas de produção de biodiesel, incluindo a unidade de Quixadá, no Ceará.
Adaedson apresentou, entretanto, uma perspectiva favorável à retomada de investimentos em biorrefino, citando projetos com utilização de óleos vegetais e gorduras de origem animal para a fabricação de combustíveis renováveis.
O dirigente destacou iniciativas relacionadas à produção de diesel e querosene de aviação a partir de matérias-primas renováveis e mencionou expectativas de desenvolvimento desses projetos até 2030.
Para ele, a transição energética deve estar associada ao fortalecimento da capacidade industrial brasileira e à manutenção da Petrobras como empresa estratégica.
Inteligência artificial, aplicativos e a necessidade de organização das novas gerações
Os desafios das novas tecnologias e das mudanças no mundo do trabalho também foram abordados na entrevista.
Adaedson reconheceu que o movimento sindical precisa ampliar sua capacidade de diálogo com trabalhadores que não estão inseridos nas formas tradicionais de emprego.
Ao mencionar motoristas de aplicativos e entregadores, afirmou que o sindicalismo deve respeitar as escolhas de quem prefere organizar autonomamente sua jornada de trabalho.
O dirigente criticou a postura de desqualificar esses profissionais por não optarem por um vínculo de emprego regido pela CLT.
Para ele, essas modalidades representam formas de trabalho que também produzem riqueza e exigem mecanismos de proteção social.
Adaedson apresentou o exemplo dos entregadores que trabalham durante a madrugada e dependem de sua capacidade diária de exercer a atividade para obter renda.
Na sua avaliação, esses profissionais precisam ter proteção para situações em que não possam continuar trabalhando, inclusive por motivos de saúde ou pelo envelhecimento.
O dirigente também mencionou jovens que desejam atuar como produtores de conteúdo digital, incluindo aqueles que pretendem trabalhar no YouTube.
Para Adaedson, as novas gerações devem ter liberdade para escolher suas atividades profissionais, mas precisam compreender que a renda obtida em determinado momento pode não ser permanente.
Nesse contexto, defendeu a importância da previdência social, da proteção diante da incapacidade para o trabalho e da organização coletiva para garantir direitos.
O entrevistado relacionou essas transformações aos desafios da inteligência artificial e da tecnologia, sustentando que as mudanças nas formas de produção não eliminam a necessidade de proteção à dignidade das pessoas que trabalham.
Petrobras: a lucratividade não é o único argumento contra a privatização
Na parte final da entrevista, Carmela Grüne apresentou uma notícia divulgada em maio de 2026 sobre o desempenho econômico da Petrobras no primeiro trimestre do ano, quando a companhia foi apontada como a petroleira mais lucrativa entre grandes empresas do setor analisadas pelo levantamento mencionado.
A jornalista questionou Adaedson sobre as propostas de privatização da companhia diante de sua lucratividade e importância para a economia nacional.
Em resposta, o dirigente questionou quem efetivamente se beneficiaria da transferência do controle da Petrobras ao setor privado.
Para ele, a companhia possui relevância estratégica por sua capacidade de abastecer o mercado brasileiro, contribuir para a competitividade econômica e permitir que o país exerça maior controle sobre sua política energética.
Adaedson destacou a eficiência tecnológica alcançada pela Petrobras na exploração de petróleo em águas profundas, apontando essa competência como um dos fatores responsáveis por seus resultados econômicos.
O dirigente também mencionou os recursos destinados ao poder público por meio de impostos, royalties e dividendos.
Segundo os valores citados por ele, a contribuição da companhia teria ultrapassado R$ 240 bilhões no ano anterior, considerando recursos destinados à União, aos estados e aos municípios. Para 2026, apresentou expectativa superior a R$ 300 bilhões. Esses valores foram mencionados pelo entrevistado, sem apresentação dos balanços durante a conversa.
Apesar de destacar a rentabilidade, Adaedson afirmou que a manutenção do controle público da Petrobras não deve depender exclusivamente da geração de lucros.
Para o dirigente, mesmo que a companhia não apresentasse resultados financeiros tão expressivos, sua importância para a soberania energética e a competitividade brasileira continuaria sendo um argumento fundamental contra sua privatização.
“Se produz riqueza, tem direito à dignidade”: a mensagem final de Adaedson Costa
Ao encerrar a entrevista, Carmela Grüne apresentou uma fotografia de uma mobilização dos petroleiros que mantém como lembrança de sua experiência acompanhando as lutas da categoria.
A jornalista agradeceu a participação de Adaedson e destacou a importância de ampliar o conhecimento da população sobre a Petrobras, a defesa dos direitos trabalhistas e o papel das organizações sindicais.
Em sua mensagem final, o secretário-geral da FNP retomou a importância de reconhecer a contribuição dos trabalhadores para a produção da riqueza nacional.
Adaedson afirmou que a luta sindical não se limita à remuneração, mas envolve o acesso à saúde, à educação, à alimentação adequada, à moradia e à possibilidade de viver com qualidade e dignidade.
Ao compartilhar uma experiência pessoal, recordou que já morou em palafita e conhece as dificuldades enfrentadas por famílias que não dispõem de condições adequadas de habitação.
O dirigente também questionou a realidade de uma sociedade em que trabalhadores contribuem para a produção de riqueza, mas encontram dificuldades para oferecer alimentação adequada às famílias ou garantir aos filhos oportunidades de formação educacional e profissional.
Para Adaedson, a organização sindical exige um trabalho permanente de conscientização, desenvolvido muitas vezes por meio de pequenas ações que procuram fortalecer a solidariedade e a participação dos trabalhadores.
Sua mensagem final sintetizou a defesa de melhores condições de vida para quem produz a riqueza nacional:
“Se produz riqueza, tem direito à dignidade.”
A reflexão encerrou uma entrevista marcada por relatos de resistência sindical, conflitos nas negociações coletivas, restrições ao exercício do direito de greve e críticas às consequências das privatizações.
Ao relacionar essas experiências às conquistas da Constituição de 1988, Adaedson Costa evidenciou os desafios que, em sua avaliação, ainda precisam ser enfrentados para assegurar a liberdade sindical e a efetividade dos direitos dos trabalhadores.
A entrevista integra a série especial do Jornal Estado de Direito — 38 anos da Constituição Cidadã: avanços e desafios diante da conjuntura do Congresso Nacional.
A iniciativa reúne juristas, representantes políticos, dirigentes sindicais e integrantes da sociedade civil para examinar as conquistas da Constituição de 1988, os desafios de sua implementação e os riscos de retrocessos na proteção dos direitos fundamentais.
Ao aproximar o debate constitucional das experiências concretas de diferentes setores da sociedade, a série busca ampliar o conhecimento da população sobre seus direitos e sobre a importância das instituições democráticas.
Trinta e oito anos depois da promulgação da Constituição Cidadã, a entrevista de Adaedson Costa coloca uma questão fundamental em debate: de que maneira assegurar que o direito de greve, a liberdade sindical e a dignidade dos trabalhadores sejam efetivamente respeitados na prática?