A nação mais bem acabada em sua estrutura escravagista

Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito

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A nação mais bem acabada em sua estrutura escravagista. Adriano Viaro. Ensaio inédito, enviado pelo Autor que autorizou publicar leitura do texto. 2026.

 Acabo de ler o texto “A nação mais bem acabada em sua estrutura escravagista” ainda inédito, que me foi enviado pelo Autor, professor Adriano Viaro. O texto organiza-se como um ensaio discursivo de intervenção sociopolítica, cuja força principal não está na demonstração acadêmica rigorosamente metodológica, mas na construção de uma denúncia estrutural do racismo brasileiro. Sua argumentação parte da ideia de que a escravidão não constitui apenas um episódio histórico encerrado, mas uma lógica organizadora que permaneceu incorporada às instituições nacionais, especialmente ao sistema educacional. O título, tomado de Mário Maestri (historiador, escritor e professor gaúcho, cuja obra é marcada por uma interpretação marxista da história brasileira, especialmente sobre escravidão colonial; luta de classes; formação social do Brasil), já anuncia essa perspectiva. O Brasil seria a realização histórica mais sofisticada da sociabilidade escravocrata, não porque mantenha formalmente a escravidão, mas porque preserva suas hierarquias sob formas modernas.

Tratando-se de um texto ainda inédito, que deverá integrar coletânea futura de ensaios do Autor, professor Viaro, faço um resumo do texto, no qual desenvolve uma reflexão crítica sobre as formas contemporâneas de reprodução do racismo no Brasil, tomando como ponto de partida a afirmação de Mário Maestri de que o país preserva, de modo particularmente acabado, a herança estrutural da escravidão. O autor sustenta que a compreensão dessa permanência exige enfrentar o problema do que denomina “analfabetismo racial”, isto é, a incapacidade social de reconhecer os mecanismos históricos e institucionais que produzem e reproduzem privilégios raciais. Segundo sua argumentação, a reação defensiva de amplos setores da sociedade diante das pautas antirracistas decorre justamente da ausência de um letramento racial capaz de tornar visíveis tais mecanismos.

O texto concentra sua análise no papel desempenhado pelo sistema educacional brasileiro na manutenção dessas desigualdades. Viaro argumenta que a estrutura escolar opera como um dispositivo de reprodução de privilégios, permitindo que estudantes oriundos das camadas mais favorecidas frequentem escolas privadas com melhores condições materiais e, posteriormente, ocupem vagas em universidades públicas, enquanto os estudantes das camadas populares percorrem trajetórias marcadas por maiores obstáculos e frequentemente são direcionados para instituições privadas ou cursos de menor prestígio social. Essa dinâmica, embora amplamente conhecida, raramente é examinada em suas consequências concretas para a produção das desigualdades raciais e sociais.

Para o autor, as escolas privadas cumprem não apenas uma função pedagógica, mas também um papel de socialização que limita o contato dos estudantes com experiências de desigualdade e exclusão. Nesses ambientes, predominaria uma formação orientada pelo conteudismo e pela preparação para exames seletivos, deixando pouco espaço para debates críticos sobre questões sociais, raciais ou de classe. Os jovens formados nesse contexto chegam às universidades públicas carregando visões de mundo moldadas por relações hierárquicas e por uma convivência cotidiana marcada pela naturalização dos privilégios.

O resultado é a produção de contradições que atravessam o espaço universitário e intelectual. O autor critica particularmente a figura do intelectual que, embora se apresente como especialista em temas ligados ao racismo e às desigualdades, constrói suas análises sem experiência efetiva de convivência com comunidades negras ou com os grupos diretamente afetados pelos processos de exclusão. Segundo Viaro, muitos desses intelectuais alcançam posições de influência pública e passam a formular opiniões e políticas a partir de repertórios predominantemente eurocêntricos, reproduzindo formas sutis de preconceito enquanto negam sua existência.

O ensaio recupera ainda um elemento histórico frequentemente negligenciado: a existência, durante o Império, de mecanismos legais que reservavam explicitamente a educação formal para a população branca, excluindo pessoas negras escravizadas ou libertas do acesso ao ensino. Ao recordar esse passado, o autor sugere que as desigualdades atuais não são acidentes históricos nem simples heranças abstratas, mas desdobramentos de políticas concretas de exclusão racial.

Na conclusão Viaro sustenta que o sistema educacional brasileiro não apenas conserva diferenças de classe, mas também preserva hierarquias raciais associadas à valorização da pele mais clara. O problema central não reside apenas na existência do racismo, mas na incapacidade de reconhecê-lo criticamente. Assim, a ausência de letramento racial, combinada à autopercepção moralmente superior de setores privilegiados da sociedade, impede que o debate antirracista encontre bases efetivas de transformação. O ensaio termina, portanto, afirmando que a estrutura educacional e intelectual do país continua funcionando como um dos principais mecanismos de reprodução da ordem social herdada da escravidão, mantendo vivos privilégios históricos sob formas contemporâneas e aparentemente naturalizadas.

O texto, de Adriano Viaro, também chamado de “Prof. Viaro” (âncora do programa Diário do Centro do Mundo, escritor, poeta, historiador e jornalista) constrói essa hipótese por meio de uma crítica à formação intelectual das classes médias e altas brasileiras. A escola privada aparece como espaço de blindagem social, voltado à reprodução de privilégios e à formação técnica para o mercado, sem incentivo efetivo à consciência crítica. Em oposição, os sujeitos oriundos das camadas populares — especialmente negros — aparecem vinculados à experiência concreta da exclusão e, portanto, mais próximos da compreensão material das desigualdades. A universidade pública surge como lugar de choque entre esses mundos sociais, mas também como espaço em que os privilégios continuam operando, inclusive na produção do discurso progressista.

Nesse ponto, o texto se aproxima claramente de tradições marxistas de interpretação social, ainda que não utilize terminologia marxista clássica de maneira explícita. A estrutura argumentativa é profundamente marcada pela ideia de reprodução das classes sociais através das instituições. A educação é apresentada não como instrumento neutro de ascensão, mas como aparelho de conservação da ordem social. Essa leitura dialoga diretamente com interpretações inspiradas no marxismo estrutural e na teoria crítica da reprodução social. Há afinidade, por exemplo, com a tradição de Louis Althusser, especialmente na compreensão da escola como aparelho ideológico do Estado, responsável por reproduzir valores, hierarquias e relações de poder.

Confesso que de modo intencional procurei localizar, no texto, alguma conexão com minhas próprias leituras sobre seu núcleo interpretativo. Logo me dei conta que embora o texto não desenvolva a análise estrutural do modo de produção escravista nos termos de Jacob Gorender, em Escravismo Colonial, ele pode ser situado numa zona de herança indireta da tradição marxista brasileira que compreende a escravidão como fundamento constitutivo — e não residual — da formação social nacional. A diferença central é que, enquanto Gorender buscava definir historicamente a especificidade econômica do escravismo colonial como modo de produção, o texto desloca essa herança para o plano cultural, educacional e simbólico, interpretando a permanência da ordem escravocrata menos como estrutura econômica autônoma e mais como lógica social internalizada nas instituições e subjetividades contemporâneas. Nesse sentido, o ensaio aproxima-se mais de uma sociologia crítica da reprodução racializada do poder — influenciada por leituras decoloniais, bourdieusianas e pelo pensamento negro brasileiro — do que propriamente do marxismo histórico-estrutural de Gorender; ainda assim, permanece orbitando a mesma grande tradição interpretativa que vê o Brasil moderno como continuidade transformada da sociedade escravista.

Mas, ao mesmo tempo, o texto possui forte proximidade com a sociologia crítica brasileira, sobretudo com Florestan Fernandes e Clóvis Moura. A ideia de que a abolição não rompeu as estruturas profundas do escravismo é central em ambos. Em especial, Clóvis Moura defendia que a sociedade brasileira preservou uma lógica racial de dominação articulada às formas de exploração econômica, e essa herança aparece claramente na crítica desenvolvida pelo texto.

Entretanto, reduzir o ensaio exclusivamente ao marxismo seria insuficiente. O eixo central da crítica não é apenas a classe, mas a racialização das relações sociais e do próprio conhecimento. Quando o autor afirma que os “especialistas” em racismo frequentemente não possuem convivência concreta com comunidades negras e reproduzem repertórios eurocêntricos, ele desloca a crítica para o campo epistemológico. Nesse momento, o texto entra decisivamente em diálogo com abordagens decoloniais e anticoloniais (Negro Bispo).

A crítica ao eurocentrismo aproxima o texto de autores como Aníbal Quijano, cuja noção de “colonialidade do poder” sustenta que a modernidade capitalista organizou o mundo através de hierarquias raciais persistentes mesmo após o fim do colonialismo formal. Também há ressonâncias de Frantz Fanon, especialmente na ideia de que elites intelectualizadas podem reproduzir estruturas coloniais mesmo quando discursam em favor da emancipação.

Além disso, o texto se aproxima das formulações contemporâneas sobre lugar de fala e experiência social como dimensão constitutiva do conhecimento. Isso o coloca em diálogo com intelectuais brasileiros ligados ao pensamento negro contemporâneo, como Djamila Ribeiro e Silvio Almeida. A noção de “letramento racial” utilizada no texto pertence justamente a esse campo discursivo que entende o racismo não apenas como preconceito individual, mas como estrutura histórica, simbólica e institucional.

Do ponto de vista literário e discursivo, o texto assume deliberadamente um tom ensaístico e combativo. Não há preocupação em manter neutralidade analítica; ao contrário, a subjetividade indignada é parte da própria estratégia argumentativa. O autor utiliza generalizações controladas por expressões como “grosso modo” e “em sua imensa maioria”, mas claramente privilegia a força política da interpretação sobre a precisão sociológica estrita. Isso o aproxima da tradição do ensaio latino-americano de intervenção, em que análise social, denúncia moral e posicionamento político se fundem.

Também é importante notar que o texto possui uma dimensão quase militante (a estilo de manifesto) em alguns momentos, especialmente quando descreve intelectuais progressistas oriundos da elite privada como sujeitos incapazes de compreender concretamente a experiência negra. Essa construção produz forte antagonismo social e opera por polarizações bastante definidas: privilégio versus exclusão, experiência versus teoria, branquitude versus negritude. Essa forma de organização discursiva é típica de textos militantes contemporâneos ligados à crítica estrutural das desigualdades.

Assim, a filiação teórica do texto pode ser entendida como híbrida. Ele não pertence exclusivamente ao marxismo clássico nem exclusivamente às abordagens decoloniais. Sua matriz parece ser uma síntese entre sociologia crítica marxista, pensamento negro brasileiro e crítica decolonial da produção do conhecimento. O resultado é um ensaio de denúncia estrutural que interpreta o Brasil como continuidade histórica da escravidão, vendo na educação, na intelectualidade e nos mecanismos de prestígio acadêmico instrumentos de reprodução racial e social.

É possivel relacionar o texto com os estudos sociológico-historiográficos como por exemplo em Gisálio Cerqueira Filho e sua crítica às bibliografias da história para as antigas disciplinas de ideologização no tempo da ditadura de 1964, sob enquadramento da ideia de violência simbólica?

Sim, essa relação é bastante pertinente e intelectualmente produtiva. O texto pode ser colocado em diálogo com a tradição sociológico-historiográfica que investigou os mecanismos de produção ideológica do Estado brasileiro, sobretudo durante e após a ditadura empresarial-militar de 1964. Nesse enquadramento, a aproximação com Gisálio Cerqueira Filho é especialmente interessante porque desloca a discussão do racismo apenas como preconceito individual para o plano da formação discursiva institucional e da violência simbólica exercida pelos aparelhos educacionais.

Gisálio Cerqueira Filho, sobretudo em seus estudos sobre autoritarismo, ideologia e ensino, analisou como determinadas disciplinas escolares — especialmente Educação Moral e Cívica (EMC), Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e certas abordagens da História — funcionavam como instrumentos de produção de consenso e naturalização da ordem. O objetivo não era apenas ensinar conteúdos, mas formar subjetividades adaptadas à lógica do Estado autoritário e da hierarquia social. Nesse sentido, a escola aparecia como espaço de internalização de valores conservadores sob aparência de neutralidade pedagógica.

O texto opera numa chave muito próxima, embora atualizada pelo debate racial contemporâneo. Quando ele afirma que escolas privadas não promovem consciência política, apenas “conteudismo”, e que os estudantes são preparados para ocupar posições privilegiadas dentro de uma estrutura desigual, está descrevendo precisamente um mecanismo de reprodução simbólica do poder. A diferença é que o eixo central da crítica deixa de ser apenas o autoritarismo político e passa a incluir explicitamente a racialização das hierarquias sociais.

É nesse ponto que a noção de violência simbólica, formulada por Pierre Bourdieu, torna-se extremamente útil para interpretar o texto. Para Bourdieu, a violência simbólica consiste na imposição de uma visão de mundo que se apresenta como natural, legítima e universal, quando na verdade expressa os interesses de grupos dominantes. Ela é eficaz justamente porque não aparece como violência explícita; manifesta-se através da escola, da linguagem, da cultura legítima, dos diplomas, das classificações sociais e dos critérios de prestígio.

O ensaio descreve exatamente esse processo. A escola privada não é criticada apenas por oferecer melhor infraestrutura, mas por produzir um habitus social específico: um modo de perceber o mundo no qual o privilégio racial e de classe aparece como mérito individual. Os estudantes aprendem a ocupar posições de autoridade sem perceber as estruturas históricas que permitiram sua ascensão. Ao chegarem à universidade pública e posteriormente aos espaços de produção intelectual, passam a interpretar questões sociais a partir de categorias abstratas e frequentemente eurocêntricas, sem experiência concreta das formas históricas de exclusão.

Nesse sentido, a crítica do texto à intelectualidade progressista branca pode ser lida como crítica à monopolização simbólica da fala legítima. Ou seja, determinados sujeitos são reconhecidos socialmente como intérpretes autorizados do racismo mesmo sem vivência concreta dele, porque carregam os signos legitimadores da autoridade acadêmica: diplomas, linguagem culta, inserção institucional e capital cultural. Isso é profundamente bourdieusiano.

A aproximação com Gisálio Cerqueira Filho aparece porque ambos os enfoques entendem a educação como aparelho de ideologização social. Contudo, enquanto Gisálio analisava fortemente a lógica autoritária do Estado nacional-desenvolvimentista e das disciplinas cívicas da ditadura, o texto contemporâneo amplia essa crítica para mostrar como a ideologização continua operando em regime democrático através de mecanismos aparentemente liberais e meritocráticos.

Há também um ponto importante de continuidade historiográfica: a crítica ao mito da neutralidade curricular. Durante a ditadura, determinadas narrativas históricas eram selecionadas para produzir patriotismo acrítico, anticomunismo e obediência. No texto do Professor Viaro, a crítica desloca-se para a ausência de letramento racial e para a manutenção de repertórios eurocêntricos. Em ambos os casos, o currículo é entendido como tecnologia de poder.

Isso permite dizer que o texto se insere numa linhagem de crítica sociológica da educação brasileira que articula reprodução ideológica; violência simbólica; produção institucional da desigualdade; formação de subjetividades ajustadas à ordem dominante.

A diferença decisiva é que o ensaio de Adriano Viaro racializa explicitamente a análise. Ele sugere que a violência simbólica brasileira não opera apenas pela classe, mas pela combinação histórica entre classe e raça, herança direta da formação escravocrata do país.

 

|Foto Valter Campanato
José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil,  Professor Titular, da Universidade de Brasília,  Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.55

 

 

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