Peso da dívida paralisa o progresso dos países em desenvolvimento, alerta ONU

Mais de 3,7 bilhões de pessoas pagam conta da crise da dívida; Unctad revela que nações pobres pagam o dobro de juros que os países ricos; com taxas justas, a economia seria de US$ 500 bilhões anuais, que chegariam para1,3 milhão de postos de saúde.

A palavra 'DENI', em texto amarelo, está sobreposta a uma imagem noturna da Terra vista do espaço.
Unctad Crise é agravada pela desigualdade nos custos de financiamento

A pressão da dívida pública tem asfixiado o crescimento nas economias em desenvolvimento. Essa realidade força os governos a sacrificar investimentos essenciais, alertou a ONU Comércio e Desenvolvimento, Unctad.

A agência destaca que esses países estão destinando uma parcela cada vez maior de seus recursos públicos para o pagamento de juros, o que reduz drasticamente o espaço fiscal para áreas essenciais, como saúde e educação.

Novos empréstimos

O documento, lançado nesta quarta-feira, revela que a situação piorou desde 2022, quando os pagamentos de juros externos começaram a superar os novos empréstimos líquidos.

Esse cenário empurrou as nações para um endividamento doméstico ainda mais caro, enfraquecendo o papel da dívida como ferramenta de investimento futuro.

O mais recente relatório da agência aponta para uma escalada sem precedentes. A previsão é que a dívida pública global atinja a marca de US$ 111 trilhões em 2025, um aumento significativo em relação aos US$ 49 trilhões registrados em 2010.

As economias desenvolvidas detêm mais de dois terços desse volume total, mas o ritmo de aumento da dívida tem sido muito mais acelerado nas nações em desenvolvimento, criando um desequilíbrio perigoso no sistema financeiro global.

Países menos avançados

Para a Unctad, essa crise é agravada pela desigualdade nos custos de financiamento. Os países em desenvolvimento pagam juros significativamente mais altos, com uma taxa média em torno de 5,2% sobre suas dívidas públicas.

Já a taxa dos países desenvolvidos situa-se, em média, em 2,2%. Devido a essa disparidade, a conta de juros para as nações em desenvolvimento disparou, saltando de US$ 363 bilhões em 2010 para a previsão de até US$ 1 trilhão em 2025.

Um grupo de mulheres e uma criança estão em uma habitação rural, com uma mulher tecendo em um tear.
© Pnud Impacto social arrasador da dívida é mais visível em 51 países em desenvolvimento

Esse impacto social arrasador é mais visível em 51 países em desenvolvimento, abarcando 3,7 bilhões de pessoas. O dinheiro gasto apenas para pagar os juros da dívida já supera os orçamentos inteiros destinados à saúde ou à educação.

A Unctad calcula que, se essas nações tivessem acesso às mesmas taxas de juros cobradas dos países ricos, poderiam economizar cerca de US$ 500 bilhões por ano.

Atenção primária à saúde

A agência realça que esse valor seria suficiente para financiar a construção de 1,3 milhão de centros de atenção primária à saúde ou garantir uma alimentação nutritiva e diversificada para cerca de 1,6 bilhão de crianças.

O alerta sobre o aumento da pressão por soluções estruturais surge às vésperas da reunião da Plataforma de Mutuários, marcada para 12 de outubro em Bangkok, Tailândia, nas Reuniões Anuais do Fundo Monetário Internacional, FMI, e do Banco Mundial.

Em nível global, a Unctad defende que é urgente reverter a queda na assistência oficial ao desenvolvimento, além de ampliar as linhas de crédito dos bancos multilaterais e regionais.

Instrumentos financeiros inovadores

A recomendação feita às autoridades nacionais é fortalecer a gestão macroeconômica, aperfeiçoar as instituições públicas e adotar instrumentos financeiros inovadores.

O cenário de aperto fiscal global reflete tendências de mercado. Como foi lembrado nas recentes agitações dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os investidores reavaliam os riscos de inflação e os altos níveis de endividamento.

O resultado prático dessa cautela é a manutenção de rendimentos em alta, o que eleva o crédito em todo o planeta, aumenta os custos globais de serviço da dívida e impõe escolhas fiscais cada vez mais difíceis para os governos que mais precisam investir no futuro de suas populações.

Fonte Rádio ONU

Foto de Estado de direito

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