Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito
Caminhos Para a Paz – Teoria e Prática. CAMAROTTTI, Henriqueta; BRASIL, Mário Lima; COSTA, Melissa Andrade (org.). Brasília: Universidade de Brasília, Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares, 2026. Impresso 313 p. E-book: https://livros.unb.br/index.php/portal/catalog/book/726, 308 p.
O livro “Caminhos Para a Paz – Teoria e Prática”, tem seu conteúdo distribuído em partes que correspondem às abordagens de fundo teórico (parte 1) referidas a práticas (parte 2) e artigos com respectivas autorias, compondo o seguinte sumário:
Apresentação
Mário Lima Brasil
Prefácio
Marlova Jovchelovitch Noleto
PARTE I: TEORIA PARA A PROMOÇÃO DA PAZ
Educação para a paz: um caminho em construção
Nair Heloisa Bicalho de Sousa, José Geraldo de Souza Jr.
Uma reflexão sobre a paz na ótica da dialética de Hegel
Roberto Guelfi
Autotransformação como caminho para a paz: uma proposta da terapia transessencial
Henriqueta Camarotti
O paradigma da consciência: o caminho para a paz
Enrique R. Arganaraz
Cultivando a paz positiva por meio da reconciliação interior: uma perspectiva filosófica
Eva Patricia Rodriguez Bellegarrigue
Educação e a construção da paz: reflexões e fazimentos
Jaqueline Moll
Podem os serviços de saúde contribuir para a paz em suas comunidades?
Flavio Goulart
Da violência à paz: contribuições da gestão de pessoas para a transformação positiva do contexto de trabalho
Leandro Queiroz Soares
Ecologia profunda: um portal para a cultura de paz
Regina Fittipaldi
Cultura de paz: o bem viver ancestral na diversidade linguística e cultural
Marta Santos da Silva Holanda Lobo
O Brasil e a paz mundial
Ulisses Riedel
Dos primeiros conflitos até a civilização da paz
Hoeck Miranda
Música e musicoterapia: caminhos sonoros para a paz
Maria Clotilde Henriques Tavares
Reflorestando caminhos para a paz: por uma criatividade simbólica integrativa
Raquel Mendes
Pedagogia para a paz de Dulce María Borrero Pierra (1883-1945)
Elizabeth Ruano-Ibarra
PARTE II: PRÁTICAS PARA A PROMOÇÃO DA PAZ
Contribuições da filosofia aplicada para a promoção da paz
Melissa Andrade Costa, Raquel de Carvalho Brostel
Tudo pode ser partilhado: a terapia comunitária integrativa como caminho para a paz
Regina Melo, Henriqueta Camarotti
Programa Namoral como uma estratégia de promoção da cultura de paz na educação básica
Suliane Beatriz Rauber, Aimeê Eduarda Vieira Borges, Luciana Asper y Valdes, Marcos Paulo Teixeira de Almeida
Educação para competências socioemocionais no mundo dos smartphones: a experiência da criança para o bem na promoção de valores para a construção da paz
Paulo Passos, Raquel de Carvalho Brostel
Educação espiritual como caminho para a paz: a experiência da Escola das Nações
Anis Sami Silva
Música para o Bem e sua contribuição para o sentimento de paz nas crianças e jovens que participam do programa
Mário Lima Brasil
Programa Gente que Faz a Paz: humanizando a humanidade
Maria Virginia de Salles Garcez
Laboratório periférico, assessoria sociotécnica: compromisso solidário com as comunidades, direitos humanos, bem viver e práticas para a promoção da paz
Liza Maria Souza de Andrade, Angélica Azevedo e Silva, Danusa Benedita Lisboa, Vânia Raquel Teles Loureiro, Valmor Cerqueira Pazos
O professor Mário Lima Brasil, diretor do CEAM (Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares) que, junto com o CAFE (Núcleo de Interconexão de Ciência, Arte, Filosofia e Espiritualidade, vinculado ao CEAM) respondem pelo projeto que deu origem ao livro “Caminhos Para a Paz – Teoria e Prática”, diz na Apresentação, que a obra “surge como um marco na investigação transdisciplinar sobre os processos de construção da paz”.
Por isso, ele completa, ela “reúne artigos que vão da epistemologia da paz e hermenêutica filosófica até estudos empíricos em comunidades, passando por abordagens artísticas, cosmológicas e neurocientíficas”:
A diversidade de perspectivas reflete a complexidade dos fenômenos da paz interior e coletiva, oferecendo um panorama robusto para pesquisadores, educadores e facilitadores de processos socioculturais.
A necessidade de um guia que articule teoria, metodologia e prática se tornou premente diante dos desafios contemporâneos de polarização social, crises ambientais e esgotamento subjetivo.
Esta obra justifica-se por: propor uma estrutura integrada para a educação de valores universais e habilidades sócio emocionais; apresentar metodologias participativas e híbridas (presenciais e digitais) para fomentar a empatia, o diálogo e a resiliência comunitária e discutir métricas qualitativas e quantitativas para a avaliação de intervenções voltadas à promoção da paz. O objetivo central é oferecer subsídios conceituais e operacionais que empoderem indivíduos e instituições na construção de ambientes mais inclusivos, solidários e sustentáveis.
Caminhos para a paz: teoria e prática, não é propriamente um tratado destinado a definir a paz como uma investigação transdisciplinar acerca das condições que tornam possível produzi-la como experiência histórica. A própria arquitetura da obra — reunindo epistemologia e hermenêutica, experiências comunitárias, educação, arte, cosmologia e neurociências — indica que a paz não pode ser reduzida à ausência de guerra nem confiada exclusivamente às instituições encarregadas de administrar conflitos. Ela constitui processo complexo de transformação das relações humanas, sociais e políticas, no qual conhecimento e ação se interpelam reciprocamente.
Um primeiro elemento destacado, sobretudo pela apresentação e pelo prefácio, consiste precisamente nessa mudança epistemológica. Pensar a paz requer superar o paradigma que toma a violência como referência originária e concebe a paz apenas negativamente, como suspensão do conflito. A paz passa a ser compreendida positivamente, como capacidade de produzir relações fundadas no reconhecimento, na dignidade, na cooperação e no cuidado. Daí a importância da transdisciplinaridade. Nenhuma ciência isolada contém a explicação da violência ou a fórmula de sua superação. Filosofia, direito, educação, psicologia, ciência, espiritualidade, arte e saberes comunitários precisam encontrar-se, não para dissolver suas diferenças, mas para construir uma inteligência plural da convivência. É significativo que a obra esteja vinculada ao CEAM e à tradição dos estudos de paz da UnB, na qual direitos humanos e construção social do Direito comparecem historicamente como dimensões inseparáveis.
O segundo caminho é ético e antropológico. A paz exterior não se sustenta sem sujeitos capazes de elaborar conflitos, reconhecer o outro e romper circuitos de medo, ressentimento, dominação e violência. Mas não se trata de psicologizar a paz, transferindo ao indivíduo a responsabilidade pelas estruturas injustas. Ao contrário, a passagem entre interioridade e exterioridade permite compreender que subjetividade, relações interpessoais e organização social constituem planos comunicantes. A cultura de paz começa no modo de escutar, dialogar, educar e cuidar, mas precisa alcançar as instituições e as estruturas que distribuem desigualmente poder, reconhecimento e possibilidades de vida. Paz torna-se, assim, uma práxis de humanização.
O terceiro elemento, talvez o que melhor articule teoria e prática, é a compreensão da paz como construção coletiva e territorializada. Ela não desce pronta das instituições sobre a sociedade; emerge também das comunidades, das experiências educativas, dos processos participativos e das práticas capazes de converter conflito em diálogo e diferença em convivência. Os estudos empíricos e as experiências reunidas no livro cumprem, por isso, função teórica. Demonstram que a paz se aprende fazendo-a. Nesse sentido, educação para a paz não significa domesticação do conflito, mas formação para enfrentá-lo sem transformar o adversário em inimigo eliminável.
Pode-se reconhecer, portanto, três movimentos concatenados. Desarmar o conhecimento, libertando-o das epistemologias que naturalizam violência e competição; desarmar as subjetividades e as relações, cultivando diálogo, alteridade, cuidado e reconhecimento; e desarmar as estruturas, criando instituições, direitos e práticas comunitárias capazes de enfrentar as violências sociais e produzir justiça. É nesse último movimento que paz e direitos humanos se encontram de maneira especialmente fecunda. Não há paz consistente onde permaneçam exclusão, desigualdade e negação da dignidade. O sentido mais forte da obra talvez esteja justamente nessa passagem da paz como ideal à paz como práxis. Seu caminho não consiste em eliminar o conflito — dimensão inevitável de sociedades plurais —, mas em criar mediações democráticas pelas quais os conflitos possam produzir reconhecimento, direitos e novas formas de convivência. Assim compreendida, a paz deixa de ser o silêncio posterior à violência para tornar-se ação permanente de construção de uma sociedade na qual a violência já não precise constituir a linguagem privilegiada para resolver as diferenças.
Com Nair Heloisa Bicalho de Sousa estou presente na obra com o texto “Educação para a paz: um caminho em construção”, um texto que por sua localização no livro, recebeu dos editores como que uma função quase de abertura conceitual da coletânea, estabelecendo uma ponte entre a fundamentação teórica da paz e sua conversão em prática educativa e social, recuperando perspectivas mais amplas no plano teórico, conforme lançamos em um contexto antecedente (cf. SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. Algumas questões relevantes para a compreensão dos direitos humanos: problemas históricos, conceituais e de aplicação; SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de. Retrospectiva histórica e concepções da educação em e para os direitos humanos. In PULINO, Lúcia Helena Cavasin Zabotto; SOARES, Sílvia Lúcia: BOTÊLHO DA COSTA, Cléria; LONGO, Clerismar Aparecido; SOUSA, Francisco Lopes de (orgs). Educação em e para os Direitos Humanos / José Geraldo de Sousa Junior, Izabel Cristina Bruno Bacellar Zaneti, Lúcia Helena Cavasin Zabotto Pulino & Nair Heloisa Bicalho de Sousa / Brasília: Paralelo 15, 2016)
O primeiro movimento do capítulo está em compreender a paz não como simples ausência de guerra ou supressão dos conflitos, mas como construção histórica e social. Nesse sentido, educar para a paz implica reconhecer que o conflito pertence à experiência humana e democrática; o problema não é sua existência, mas o modo pelo qual ele é processado. A educação torna-se então aprendizagem das mediações capazes de impedir que diferenças, antagonismos e disputas se convertam em violência. Há aí uma importante aproximação entre cultura de paz, democracia e direitos humanos, resultando numa consideração segundo a qual a paz positiva exige condições de dignidade, igualdade, reconhecimento e participação. Essa concepção dialoga com a trajetória mais antiga do NEP – Núcleo de Estudos para a Paz e os Direitos Humanos do CEAM/UnB, na qual a realização dos direitos humanos é concebida como construção social e a educação democrática como condição de emancipação.
Nesse sentido os elementos conceituais se transformam em elementos educadores. A educação para a paz não se reduz a transmitir conhecimentos sobre a paz. Ela precisa educar pela paz e para a paz. Isso significa que a própria relação pedagógica deve conter aquilo que anuncia, vale dizer, diálogo, reconhecimento da alteridade, participação, respeito às diferenças, capacidade crítica e protagonismo dos educandos. Essa concepção encontra correspondência muito forte na perspectiva do texto, acerca da educação em direitos humanos. Isto é, na perspectiva de que o diálogo constitui instrumento fundamental do método educativo, de modo que os conteúdos devem ser problematizados e os educandos reconhecidos como sujeitos da construção do conhecimento e da transformação da realidade.
Disso emerge um segundo elemento especialmente fecundo. Educar para a paz é formar sujeitos de direitos. A paz deixa de constituir um valor abstrato transmitido pelo educador para tornar-se experiência de reconhecimento da própria capacidade de agir no mundo. O educando não é destinatário passivo de uma pedagogia pacificadora; é sujeito que aprende a identificar violência, injustiça e desigualdade, a pronunciar-se diante delas e a participar da construção coletiva das respostas. A educação para a paz adquire, portanto, uma dimensão simultaneamente pedagógica, ética e política. Não pretende produzir conformidade, mas autonomia; não silenciar o conflito, mas proporcionar condições democráticas para sua superação.
Um terceiro elemento está, por isso, na indissociabilidade entre teoria e prática. A expressão “um caminho em construção” é decisiva. Não há um modelo acabado de educação para a paz a ser aplicado tecnicamente. Há um processo pedagógico construído na experiência, na memória, na convivência, nos direitos humanos, nas práticas democráticas e na atuação de sujeitos e coletividades. O educador é menos aquele que prescreve a paz do que aquele que cria condições para que ela possa ser experimentada como prática de diálogo, reconhecimento e transformação.
Educação para a paz: um caminho em construção fornece, pois, uma espécie de chave político-pedagógica para a própria coletânea. Se os capítulos seguintes ampliam os caminhos da paz pela filosofia, autotransformação, saúde, ecologia, ancestralidade, música e outras experiências, neste capítulo, de abertura, coloca-se uma questão antecedente. Como formar sujeitos capazes de construir esses caminhos? A resposta combina três movimentos. Compreender criticamente as estruturas produtoras da violência; formar consciência de direitos e reconhecimento do outro; e transformar essa consciência em práxis democrática.
Nesse sentido, talvez a formulação sintética mais expressiva seja a de que educação para a paz não é educação para a passividade, mas educação para uma ação transformadora não violenta. Ela não despolitiza o conflito; ao contrário, democratiza-o. Forma sujeitos capazes de converter conflito em diálogo, sofrimento em reivindicação, diferença em reconhecimento e necessidades humanas em direitos. É precisamente nessa passagem do conceito de paz para o sujeito educado para produzi-la que o capítulo articula, de maneira especialmente consistente, seus elementos conceituais e seus elementos educadores.
Ponho em relevo, até porque “Educação e a construção da paz: reflexões e fazimentos”, de Jaqueline Moll, significativamente situado na Parte I, “Teoria para a promoção da paz”, da coletânea, guarda correspondência com a perspectiva do capítulo de abertura, enquanto desloca a formulação neste desenvolvida para o terreno dos “fazimentos”, expressão que recusa a separação entre reflexão e experiência e traduz uma pedagogia que se realiza nos territórios, nas relações e nas práticas cotidianas.
Essa perspectiva é coerente com sua trajetória de reflexão sobre educação integral, cidades educadoras, democracia e escola pública, na qual educar significa ampliar tempos, espaços e sujeitos educativos e fortalecer a capacidade das pessoas de compreender e transformar sua realidade. Nota-se a convergência nessas duas abordagens com a concepção freireana (Paulo Freire) segundo a qual não se educa para a paz ensinando abstratamente a paz, mas criando condições para experimentá-la como práxis, isto é, aprender a escutar, reconhecer diferenças, participar, construir coletivamente e agir sobre situações produtoras de desigualdade e violência. Assim, em acentuar a articulação entre paz, direitos humanos, democracia e constituição de sujeitos, enfatiza-se também (Moll) a territorialização dessa pedagogia, fazendo da escola, da cidade e dos espaços da vida uma rede educadora. Os “fazimentos”, portanto, conferem materialidade ao “caminho em construção” de modo que a paz não constitui um conteúdo pronto a transmitir, mas um modo de produzir relações, formar sujeitos e transformar democraticamente o mundo comum.
Ao fim e ao cabo, mergulhando na leitura destes “Caminhos para a Paz Teoria e Prática”, o que podemos neles divisar, é que se queremos a paz devemos trabalhar para a Paz. Porque, conforme procurei assentar – https://brasilpopular.com/quem-quer-a-paz-trabalha-para-a-paz/ – construir a paz é contribuir para a formulação de propostas que visem solucionar questões ou desafios identificados no campo dos direitos humanos universais, da promoção da justiça, condição para a edificação da paz.
Foto Valter Campanato |
José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil, Professor Titular, da Universidade de Brasília, Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.55 |
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