Diálogos Interdisciplinares entre Direitos Humanos, Filosofia & Psicanálise: Antologia em Homenagem aos 30 Anos de Docência Universitária do Professor José Euclimar Xavier de Menezes

Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito

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Diálogos Interdisciplinares entre Direitos Humanos, Filosofia & Psicanálise: Antologia em Homenagem aos 30 Anos de Docência Universitária do Professor José Euclimar Xavier de Menezes. Organizadores: Raique Lucas de Jesus Correia; Luiz Eduardo de Souza Ferreira; Walter Barretto Jr.  João Pessoa: Editora Porta, 2025, 356 p.

 

Com Prefácio de María Esther Martínez Quinteiro, da Universidade de Salamanca, Apresentação de César Barros Leal, um perfil acadêmico elaborado pela professora Mary Garcia Castro e um Posfácio de Marta Arretche, o livro foi organizado pelos professores Raique Lucas de Jesus Correia; Luiz Eduardo de Souza Ferreira; e Walter Barretto Jr

Trata-se de uma obra de homenagem ao Professor José Euclimar Xavier de Menezes construída como uma antologia que “celebra a vida e trajetória acadêmica de um professor inquieto que, ao longo das últimas três décadas, dedicou-se apaixonadamente e consistentemente ao maior dos ofícios: o de ser um formador de mentes tão inquietas quanto a dele. Valendo-se da máxima de Paulo Freire, sempre buscou ensinar desde e para a autonomia. Recusava-se a ser um vendedor de pão, preferia mesmo — como na provocação de Unamuno — fermentar as ideias: Se vendo pão, não é pão, mas levedura ou fermento. Não poderia ser diferente no caso desse nosso foucaultiano favorito, para quem a atitude crítica como prática filosófica passou a ser também uma espécie de força motriz da sua atividade intelectual. Agitador, incendiário, indisciplinado e interdisciplinar, o professor José Euclimar Xavier de Menezes, é aquele tipo raro de intelectual que tem a cabeça bem-feita e o coração no lugar. Um intelectual que pensa e sente, que faz pensar e faz sentir, não una cabeza que rueda por los caminos— esses abomináveis personagens tão criticados por Galeano —, mas um mestre demasiadamente humano; uma cabeça, um corpo, um sexo, uma barriga, um todo. Assim é que, nesta obra, ao reunir uma série de ensaios publicados pelo professor José Menezes no decorrer desses trinta anos de magistério superior, projetos de extensão realizados, resenhas, bem como relatos e depoimentos de alunos, colegas de trabalho, amigos e pessoas próximas, se impossível a apreensão do todo, ao menos acreditamos ter conseguido capturar alguns fragmentos que recompõem à sua instigante e instigadora jornada de ensinamentos e afecções — se é que possível distinguir, no modo ser do professor Menezes, ensinar de afetar”.

Eis o Sumário da obra:

Prefácio, Esther Martinez Quinteiro

Apresentação. José Euclimar Xavier de Menezes: Síntese de Professor e Educador por Excelência, César Barros Leal

Perfil Acadêmico. Ao Mestre, com Carinho…Algumas Vivências Intelectuais e Acadêmicas com o Professor José Euclimar Xavier de Menezes, Mary Garcia Castro

Prólogo. O Intelectual que Pensa e Sente ou o Homem que Vende Fermento: uma Cartografia do Professor José Euclimar Xavier de Menezes, Raíque Lucas de Jesus Correia, Liz Eduardo de Sousa Ferreira, Walter Barretto Jr.

Antologia

Temas Psicanalíticos e de Filosofia

Temas de Controle Social, Violência e Instituições

Temas Jurídicos e de Direitos Humanos

Extensão Universitária

 

Estudo Crítico

Resenha do Livro Fábrica de Deuses: a Teoria Freudiana da Cultura (2000), de José Euclimar Xavier de menezes, Simone Villk Peters

Homenagens e  Depoimentos

Posfácio

José Euclimar Xavier de Menezes: uma Mente em Constante Ebulição, Marta Arretche

A obra Diálogos interdisciplinares entre Direitos Humanos, Filosofia & Psicanálise presta homenagem ao professor José Euclimar Xavier de Menezes, cuja trajetória intelectual e acadêmica se caracteriza pela recusa de compartimentalizações rígidas do saber e pelo compromisso ético com uma reflexão crítica sobre a condição humana, o direito e a vida social. O texto de apresentação do livro o situa como um pensador e educador que soube articular, ao longo de sua carreira, diferentes campos do conhecimento sem perder de vista a centralidade dos direitos humanos como horizonte normativo e político.

A formação e atuação de José Euclimar Xavier de Menezes revelam um percurso marcado pela interlocução constante entre filosofia, psicanálise e ciências humanas, compreendidas não como disciplinas isoladas, mas como linguagens complementares para interpretar os impasses da modernidade, as formas de sofrimento social e os limites das racionalidades institucionais. Sua contribuição mais significativa reside justamente nessa capacidade de promover o diálogo entre saberes, valorizando tanto a densidade conceitual quanto a escuta sensível das experiências concretas dos sujeitos.

Como professor, destacou-se pela prática pedagógica comprometida com a formação crítica, estimulando estudantes e pesquisadores a problematizar certezas, questionar naturalizações e reconhecer o caráter histórico e político das normas, dos discursos e das subjetividades. Essa postura se expressa no incentivo à pesquisa interdisciplinar, à extensão universitária e à aproximação entre universidade e sociedade, compreendidas como dimensões indissociáveis do trabalho acadêmico.

No campo dos direitos humanos, sua contribuição não se limita à abordagem normativa ou institucional, mas se orienta por uma compreensão ampliada da dignidade humana, atenta às formas de exclusão simbólica e material produzidas pelas estruturas sociais. O diálogo com a psicanálise permitiu-lhe aprofundar a análise dos efeitos subjetivos da violência, da desigualdade e do não-reconhecimento, enquanto a filosofia forneceu os instrumentos críticos para interrogar os fundamentos éticos e políticos do direito e da justiça.

É nesse horizonte que sua trajetória converge com perspectivas críticas como O Direito Achado na Rua, ainda que nem sempre de modo explícito. A valorização da experiência, da escuta e da prática social como fontes legítimas de saber e de normatividade aproxima sua obra e sua atuação acadêmica de uma concepção de direito sensível à vida concreta e às lutas por reconhecimento. A homenagem prestada pelo livro reconhece, assim, não apenas um percurso intelectual consistente, mas sobretudo uma ética do pensamento e da docência comprometida com a emancipação, o diálogo e a transformação social.

No texto de apresentação do livro, Mary Garcia Castro traça o perfil acadêmico de José Euclimar Xavier de Menezes. Aqui preciso fazer um registro carregado de simbolismo e de relevância histórico-política.

Não conheço pessoalmente a professora Mary Garcia Castro. Ocorre que, por uma circunstância conjuntural, vim a integrar como membro indicado pelo Reitor Cristovam Buarque então eleito na UnB (1985-1989), no processo político de redemocratização do país, para membro da Comissão de Anistia que o MEC – Ministério da Educação havia constituído para implementar as disposições da Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985, que convocou uma  Assembleia Nacional Constituinte e dava outras providências, entre essas (Art. 4º É concedida anistia a todos os servidores públicos civis da Administração direta e indireta e militares, punidos por atos de exceção, institucionais ou complementares. § 1º É concedida, igualmente, anistia aos autores de crimes políticos ou conexos, e aos dirigentes e representantes de organizações sindicais e estudantis, bem como aos servidores civis ou empregados que hajam sido demitidos ou dispensados por motivação exclusivamente política, com base em outros diplomas legais. § 2º A anistia abrange os que foram punidos ou processados pelos atos imputáveis previstos no “caput” deste artigo, praticados no período compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979).

Entre os alcançáveis pela anistia estava o nome da professora Mary Garcia Castro, aprovada em 1º lugar para a docência na UFBA – Universidade Federal da Bahia, mas não nomeada, por motivação ideológica. Houve certa relutância em caracterizar a sua condição, sob o entendimento formal de que embora aprovada não chegou a ser nomeada alcançando a condição de servidora propriamente dita, não se configurando a condição de anistiável. Mas afinal prevaleceu o entendimento numa hermenêutica alargada de que a não nomeação foi em si uma motivação ideológica, caracterizando a violação de um direito que sequer pode ser questionado à época pela indiscutibilidade de atos jurídicos – negação de nomeação do 1º colocado preterido pela nomeação dos classificados subsequentes – em via judicial. O fato é que a Comissão classificou a situação como um contrato ou vínculo implícito, na perspectiva de uma hermenêutica de inclusão, e a professora Mary Garcia Castro pode ser anistiada e adquirir as condições de reparação previstas na norma do artigo 4º da EC nº 26.

É pois, com uma disposição extremamente evocativa que reencontro a professora Mary Garcia Castro nesse círculo celebratório – estudos de homenagem ao professor José Euclimar Xavier de Menezes – em torno de uma referência que restaura como que um vínculo memorialista.

Aliás, muito a propósito, diz ela no perfil, saudando o professor Menezes, ser ele  um intelectual de fronteira, cuja trajetória se constitui precisamente na recusa de separações rígidas entre campos do saber e na aposta permanente no diálogo como método de produção de conhecimento e como ética acadêmica. Seu retrato não é o de um especialista enclausurado em uma disciplina, mas o de um articulador de linguagens, capaz de fazer conversar filosofia, psicanálise, direitos humanos e práticas pedagógicas comprometidas com a realidade social.

Mary Garcia Castro enfatiza que a marca distintiva de José Euclimar está na interdisciplinaridade vivida, não apenas proclamada. Ele é apresentado como alguém que transforma o diálogo entre áreas em prática concreta de ensino, pesquisa e extensão, compreendendo a universidade como espaço de escuta, de problematização e de abertura ao outro. Seu perfil acadêmico é o de um professor que valoriza a formação crítica, estimulando leituras não dogmáticas e incentivando a reflexão sobre os limites das racionalidades modernas, especialmente aquelas que pretendem explicar o social apenas por vias normativas ou técnicas.

Outro traço central destacado por Mary Garcia Castro é o compromisso ético-político que atravessa sua produção intelectual e sua atuação docente. José Euclimar Xavier de Menezes é descrito como um pensador atento às formas contemporâneas de sofrimento social, às desigualdades e às exclusões simbólicas, o que explica a centralidade dos direitos humanos em seu percurso. Contudo, esses direitos não aparecem em sua obra como abstrações jurídicas, mas como problemas concretos, atravessados por subjetividades, conflitos e experiências históricas situadas.

A autora também sublinha a importância da psicanálise em seu itinerário acadêmico, não como saber aplicado de modo instrumental, mas como chave crítica para compreender os efeitos subjetivos da violência, da opressão e do silenciamento. Essa dimensão se articula à filosofia, que fornece os instrumentos conceituais para interrogar os fundamentos éticos do direito, da política e da própria ideia de humanidade. O resultado é um perfil intelectual marcado pela sensibilidade ao humano, pela crítica às naturalizações e pela disposição ao questionamento permanente.

Por fim, Mary Garcia Castro apresenta José Euclimar Xavier de Menezes como um professor cuja relevância não se mede apenas pela produção bibliográfica, mas pela capacidade de formar pessoas, criar redes de diálogo e inspirar práticas acadêmicas comprometidas com a transformação social. A homenagem do livro reconhece nele um acadêmico que fez do pensamento um exercício de responsabilidade pública, e da universidade um espaço de encontro entre saber, vida e emancipação — razão pela qual sua trajetória se torna referência para os diálogos interdisciplinares que estruturam a obra.

De minha parte em resenhar o livro, me vejo fortemente convocado para corroborar o coro de homenagens ao professor José Euclimar Xavier de Menezes. Eu o conheci quando por ele fui convidado para participar da banca de mestrado de seu orientando e hoje grande parceiro e colaborador Raique Lucas de Jesus Correia.

De resto, essa interlocução amplificada, teve início quando pude mergulhar na obra consistente de Raique Lucas, logo que fiz uma recensão de seu livro Direito, literatura & sertão: perspectivas decoloniais a partir do romance d’A Pedra do Reino de Ariano Suassuna. João Pessoa, PB: Editora Porta, 2022, 343 p., note-se bem, fruto de sua monografia de graduação.

Em https://estadodedireito.com.br/direito-literatura-sertao-perspectivas-decoloniais-a-partir-do-romance-da-pedra-do-reino-de-ariano-suassuna/, registro ter recebido o livro por cortesia do Autor, imediatamente após ter participado de banca de qualificação de sua dissertação de mestrado – Cidadania e Territorialidade Periférica: a Luta pelo Direito à Cidade no Bairro do Calabar em Salvador/BA, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Urbano (PPDRU) da Universidade Salvador (UNIFACS).

Na Dissertação, anoto, pela mediação do urbanismo e do direito à cidade, Raique traz O Direito Achado na Rua, como contribuição crítica à própria teoria do direito, vale dizer, como fundamento teórico crítico para sustentar juridicamente o seu trabalho. E logo apontei caminhos para que, no desenvolvimento de seus estudos, mergulhasse na fortuna crítica de O Direito Achado na Rua, sua concepção e prática, de modo a vincular sua abordagem a esse percurso, como contribuição à teoria crítica que nele se representa (sobre a Dissertação ver minha recensão em https://estadodedireito.com.br/cidadania-e-territorialidade-periferica-a-luta-pelo-direito-a-cidade-no-bairro-do-calabar-em-salvador-ba/).

Mais recentemente, recebi de Raique um relatório, fruto de uma atividade interdisciplinar desenvolvida pela turma da disciplina Constituição, Democracia e Meio Ambiente, do curso de Direito da UNIFACS, sob sua orientação docente, parte do diálogo acadêmico com a proposta teórico-metodológica de O Direito Achado na Rua. A atividade teve como objetivo central aprofundar a reflexão sobre o Constitucionalismo Achado na Rua e a luta por novos direitos, com base na perspectiva de um Direito crítico, insurgente e comprometido com as lutas sociais invisibilizadas pelo modelo jurídico tradicional.

Lembrou-me Raique, na mensagem de envio do Relatório, que a atividade consistiu em um percurso formativo baseado na proposta teórico-metodológica de O Direito Achado na Rua. Os estudantes, divididos em grupos, pesquisaram temas como Direito dos Povos Indígenas, Quilombolas, Animal e à Cidade/Moradia, elaborando verbetes críticos que reinterpretam o Direito a partir das lutas sociais. O trabalho envolveu o estudo de vídeos, entrevistas e textos de referência. O relatório constituído como produto final.

Como quer que seja, partilhando o percurso de Raique Lucas, acabamos, Professor Menezes e eu, abrindo um canal de interlocução intenso que vem se estreitando em eventos que demarcam um itinerário, posso já dizer, em estreita cooperação. Remeto, por último, com a edição do livro Luchas por la Justicia desde la Calle: Derechos Humanos y Movimientos Insurgentes en México y Brasil, do qual o professor José Euclimar Xavier de Menezes, é um dos organizadores. Confira-se a esse respeito: https://estadodedireito.com.br/luchas-por-la-justicia-desde-la-calle-derechos-humanos-y-movimientos-insurgentes-en-mexico-y-brasil/;  e https://estadodedireito.com.br/o-direito-achado-na-rua-experiencia-de-humanizacao-protagonismos-sociais-e-emancipacao-do-direito-entrevista-com-o-professor-jose-geraldo-de-sousa-junior/ .

E ainda mais, explicitando toda essa organicidade amplificada pela mediação de O Direito Achado na Rua, a participação co-autoral em Os Direitos Humanos na Perspectiva Crítica de “O Direito Achado na Rua”, Raique Lucas de Jesus Correia, José Geraldo de Sousa Júnior e José Euclimar Xavier de Menezes (https://estadodedireito.com.br/revista-do-instituto-brasileiro-de-direitos-humanos-v-24-25-n-24-25-2024-2025/):

“O Direito Achado na Rua” (ODAnR) é uma das principais correntes críticas do pensamento jurídico brasileiro, surgida na Universidade de Brasília (UnB) a partir da proposta do “Humanismo Dialético” de Roberto Lyra Filho, que concebe o Direito como expressão histórica das lutas sociais. Superando as dicotomias entre jusnaturalismo e juspositivismo, ODAnR propõe uma abordagem que vincula o Direito à práxis libertadora dos grupos e classes espoliados e oprimidos. Diante disso, o presente trabalho se dedica a explorar a contribuição do programa de “O Direito Achado na Rua” na construção de uma teoria dialética que coloca a historicidade das lutas sociais como eixo central do processo de criação e afirmação de direitos, visando uma compreensão alternativa dos Direitos Humanos desde uma perspectiva crítica e emancipatória, no sentido de apontar caminhos para a superação das limitações do paradigma dominante. Trata-se de visualizar o fenômeno jurídico a partir das manifestações legítimas que emanam das experiências concretas de humanização e libertação das classes e grupos espoliados e oprimidos. Metodologicamente, adota-se uma abordagem crítica e dialética, por meio de pesquisa exploratória e levantamento bibliográfico de obras e artigos que fundamentam a análise teórica.

 

No livro Diálogos interdisciplinares entre Direitos Humanos, Filosofia & Psicanálise, dando ênfase aos textos que dialogam com O Direito Achado na Rua, em especial aqueles assinados por Raique Lucas, considero que eles inscrevem a reflexão sobre a cidade, o cidadão, a cidadania e a desigualdade em um horizonte crítico que desloca o direito de sua posição tradicionalmente normativa para recolocá-lo no terreno vivo das práticas sociais. A cidade aparece não como mero espaço físico ou administrativo, mas como território político no qual se produzem conflitos, reconhecimentos e negações de direitos. É na experiência urbana concreta — marcada por exclusões, disputas pelo espaço e estratégias de sobrevivência — que o direito se revela como processo histórico, antes de sua positivação institucional.

Nessa perspectiva, o cidadão deixa de ser compreendido como destinatário passivo da norma jurídica e passa a ser afirmado como sujeito histórico de direitos, constituído na ação coletiva e na luta por reconhecimento. A cidadania, tal como sustentada a partir de O Direito Achado na Rua, não se esgota na titularidade formal de direitos nem na mediação estatal, mas se realiza como práxis emancipatória, construída no confronto entre legalidade e legitimidade. Os textos do livro evidenciam que a cidadania urbana se manifesta nas ocupações, nos movimentos sociais, nas formas insurgentes de uso da cidade e nas vozes que, tradicionalmente silenciadas, reivindicam o direito de existir e de decidir sobre os rumos da vida comum.

A desigualdade, por sua vez, é tratada não como desvio ocasional do sistema jurídico, mas como expressão estrutural de uma ordem normativa seletiva, que reconhece plenamente alguns sujeitos enquanto marginaliza outros. Ao mobilizar O Direito Achado na Rua, os autores demonstram que a desigualdade urbana revela os limites de um direito oficial frequentemente comprometido com a reprodução de privilégios e com a criminalização da pobreza. Nesse sentido, a crítica jurídica se articula a uma crítica ética e política mais ampla, que denuncia a distância entre o direito proclamado e o direito efetivamente vivido nas ruas da cidade.

O diálogo com a filosofia e a psicanálise aprofunda essa leitura ao evidenciar que a exclusão jurídica é também exclusão simbólica, produzindo subjetividades marcadas pelo não-reconhecimento e pela violência institucional. A cidade, enquanto espaço de encontros e rupturas, torna-se o lugar onde se cruzam sofrimento social e potência criadora, e onde o direito pode ser reinventado como linguagem de emancipação. Assim, O Direito Achado na Rua oferece aos autores do volume não apenas uma matriz teórica, mas um critério crítico de leitura da realidade urbana, capaz de articular normatividade, experiência e transformação social.

O conjunto desses textos reafirma, portanto, que pensar a cidade e a cidadania a partir das desigualdades implica reconhecer o direito como construção coletiva, enraizada nas lutas sociais e aberta à pluralidade de saberes e práticas. Trata-se de uma concepção de direito que se deixa interpelar pela vida concreta, recusando o formalismo abstrato e afirmando a rua como espaço legítimo de produção jurídica e de reinvenção democrática.

De outra parte, o relatório da oficina, construído a partir dos trabalhos de extensão que analisam o projeto CIECIART V – A cidade pelo avesso, ocupa no livro um lugar singular: não apenas descreve uma experiência pedagógica, mas a assume como experiência de produção de conhecimento e de juridicidade, em consonância direta com a concepção de O Direito Achado na Rua. Trata-se de um texto em que a extensão universitária aparece como mediação concreta entre universidade, cidade e sujeitos historicamente invisibilizados.

A síntese do relatório pode ser compreendida como a narrativa de um processo coletivo de deslocamento do olhar sobre a cidade. “A cidade pelo avesso” não é apenas uma metáfora estética ou metodológica, mas um gesto crítico que propõe inverter o ponto de observação dominante: em vez de partir do planejamento urbano oficial, das normas e dos discursos institucionais, o projeto parte das experiências vividas nas margens, dos territórios precarizados, das práticas culturais e das formas alternativas de ocupação e circulação no espaço urbano. A oficina, nesse sentido, opera como um laboratório de escuta, leitura sensível e interpretação crítica da cidade real.

É nesse processo que a concepção de O Direito Achado na Rua se desenvolve de modo eminentemente prático. O relatório evidencia que o direito não é apresentado como conteúdo a ser transmitido, mas como resultado de práticas sociais, identificadas e analisadas a partir do contato direto com os sujeitos urbanos. As atividades da oficina — caminhadas, registros visuais, narrativas, intervenções artísticas e debates coletivos — permitem reconhecer que normas, valores e expectativas de justiça já estão presentes nas ações cotidianas dos grupos envolvidos, ainda que não reconhecidas pelo direito oficial.

O texto mostra que a extensão universitária, ao se abrir à cidade, rompe a hierarquia tradicional entre quem “ensina” e quem “aprende”. Estudantes, docentes e participantes externos tornam-se coautores de um saber situado, no qual o direito emerge como linguagem de reivindicação, de resistência e de criação. Essa dinâmica traduz um dos núcleos centrais de O Direito Achado na Rua: a ideia de que os sujeitos coletivos, em sua prática social, são fontes legítimas de juridicidade, mesmo quando suas experiências se dão em tensão ou conflito com a legalidade instituída.

Outro aspecto enfatizado no relatório é a articulação entre arte, corpo e cidade como dimensões constitutivas da experiência jurídica. Ao mobilizar linguagens artísticas e sensíveis, o projeto CIECIART V evidencia que o direito também se expressa por meio de gestos, ocupações simbólicas e narrativas que reconfiguram o sentido do espaço urbano. A cidade “pelo avesso” revela, assim, não apenas desigualdades materiais, mas disputas de significado, pertencimento e reconhecimento, elementos centrais para uma compreensão ampliada dos direitos humanos.

Todas essas dimensões têm em O Direito Achado na Rua, uma mediação político-epistemológica que o agir político como prática crítica para a emancipação social. Nos temas referidos à cidade e ao urbanismo pode-se aferir essa mediação na forte documentação que constitui a fortuna crítica de O Direito Achado na Rua, valendo por em relevo, para efeito deste Lido para Você, em sentido amplo – https://estadodedireito.com.br/introducao-critica-ao-direito-urbanistico/ (Introdução crítica ao direito urbanístico [recurso eletrônico] / organizadoras e organizadores, José Geraldo de Sousa Junior… [et al.]. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2019. 496 p. – (Série O Direito Achado na Rua; vol. 9). Formato: PDF.     ISBN 978-85-230-0930-4. 1. Direito à cidade. 2. Movimentos sociais. 3. Direito urbanístico. I. Sousa Junior, José Geraldo de (org.). II. Série. CDU 34:711(81)); e como estudo de caso, https://estadodedireito.com.br/do-direito-autoconstruido-ao-direito-a-cidade/ (Do Direito Autoconstruído ao Direito à Cidade. Porosidades, conflitos e insurgência em Saramandaia. Adriana Nogueira Vieira Lima. Salvador: EDUFBA, Coleção PPG-AU,ISBN 978-85-232-1845-4, 2019, 302 p.).

O relatório da oficina apresenta o projeto CIECIART V como uma experiência de extensão que materializa O Direito Achado na Rua ao transformar a cidade em espaço pedagógico, político e jurídico. Nele, o direito é reconhecido como processo vivo, construído na interação entre universidade e sociedade, e a rua reafirma-se como lugar de produção de saber, de crítica e de reinvenção democrática. Trata-se de um texto que demonstra, na prática, que a extensão universitária pode ser um dos territórios privilegiados para a emergência de uma juridicidade comprometida com a emancipação social.

Para a plena compreensão dessa experiência, a partir do projeto, confira-se o seu inteiro conteúdo em https://www.youtube.com/watch?v=X6IReFEMKGI&t=664s, no Canal YouTube de O Direito Achado na Rua (www.odireitoachadonarua.blogspot.com.br).

Não foi, pois, incidental, mas graças à competência programática do professor Menezes, e a essa sua capacidade mobilizadora capaz de ensinar e afectar conforme dizem os organizadores, ter sido eu convidado para participar em mesa de debate por ele organizada (https://www.youtube.com/live/fwjll_5eU7E), no VII SIMPÓSIO INTERNACIONAL EM DIREITOS HUMANOS APLICADOS, em junho de 2025, em Salamanca, MESA TEMÁTICA O DIREITO ACHADO NA RUA E O DIREITO À CIDADE, numa conferência moderada por Raique Lucas de Jesus Correia/UNIFACS-Brasil e Jhoilson de Oliveira/UNIFACS-Brasil (ver o programa completo do Simpósio – https://drive.google.com/file/d/1vHt6EeOgvJzlxt_jER3hRAH1vkLQf47U/view?pli=1 – promovido como resultado da cooperação internacional da Universidade Salvador/UNIFACS/Brasil (professor José Euclimar Xavier de Menezes/Unifacs) com a Universidad de Salamanca/USAL/Espanha (María Esther Martínez Quinteiro/USAL-Espanha), esta última autora do belo posfácio a Diálogos interdisciplinares entre Direitos Humanos, Filosofia & Psicanálise.

 

 

|Foto Valter Campanato
José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil,  Professor Titular, da Universidade de Brasília,  Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.55

 

 

 

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