A interpelação palestina: a culpa vela a vítima

 

 

Autor Samuel Mânica Radaelli – Advogado e Professor

 A situação (des)humanitária do genocídio palestino, agudizada atualmente pela devastação em Gaza, em face do qual a resistência dura décadas, torna-se uma incontornável questão ética do nosso tempo. Sobre vários aspectos pode ser pensada essa questão, uma delas é a tentativa de estabelecer uma narrativa que oculte a condição de vítima do povo palestino, que o coloque como algoz, como uma massa de facínoras, como resumiu o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant: “Estamos lutando contra animais humanos e agindo de acordo com isso”.

Tal discurso, cumpre o roteiro da perversidade primeiro se culpabiliza, despois se desumaniza, assim pode-se desferir atrocidades e dormir com a sensação do dever cumprido por ter impingido o máximo sofrimento “àqueles que não merecem ser chamados de seres humanos”.  O sofrimento ainda é cultuado como forma de expiação, pois a dor alheia passa a ser vista como um atenuante para a própria, permanece vigorando a crença que a redenção vem pelo sofrimento do corpo exposto a dor, mortificado ou imolado.[i]

A inversão da condição de vítima e a sua desumanização não é novidade, Camus já apontava isso ao tratar do Nazismo, para o qual:

O terror irracional transforma os homens em coisas, em “bacilos planetários”, segundo a fórmula de Hitler. Ele se propõe a destruir não apenas a pessoa, mas também as possibilidades universais da pessoa, a reflexão, a solidariedade, o apelo ao amor absoluto. A propaganda e a tortura são meios diretos de desintegração; mais ainda a degradação sistemática, o amálgama com o criminoso cínico, a cumplicidade forçada. Aquele que mata ou tortura só conhece uma sombra em sua vitória: não pode se sentir inocente. Logo, é preciso criar a culpabilidade na própria vítima, para que, num mundo sem rumo, a culpabilidade geral legitime apenas o exercício da força, consagre apenas o sucesso. Quando a ideia de inocência desaparece no próprio inocente, o valor de poder reina definitivamente num mundo desesperado. É por isso que uma ignóbil e cruel penitência reina neste mundo, em que apenas as pedras são inocentes. Os condenados são obrigados a enforcarem-se uns aos outros. O próprio grito puro da maternidade é sufocado, como no caso da mãe grega que foi forçada por um oficial a escolher qual dos três filhos seria fuzilado.[ii]

Nas estruturas de opressão, o surgimento da vítima é acompanhado da busca por uma culpa que justifique a sua situação de desgraça, Dussel identificou esse movimento como inerente ao “mito da modernidade”: “nisto consiste o “Mito da Modernidade”, em vitimar o inocente (o outro) declarando-o culpável de sua própria vitimação e atribuindo-se ao sujeito moderno plena inocência com respeito ao ato sacrifical”.[iii] O culpado não visto como oprimido, seu sofrimento é merecido, em geral visto como pequeno. As condutas são menos julgadas que as pessoas. A apologia da impiedade faz com que a compaixão e o perdão, valores historicamente declarados do judaísmo e cristianismo, embora pouco vivenciados no real, agora passem a ser combatidos explicitamente, sendo algo imerecido pelos inimigos.

O extermínio do povo palestino é tratado como a possibilidade de paz para Israel, paz que se constrói por meio da eliminação daqueles que são portadores da desgraça, da guerra e do ódio. No entanto, é preciso trazer aquilo que a história tenta fazer lembrar: a paz dos cemitérios só acontece sem a vida para desfrutar dela, pois o poder e a guerra devoram seus cultuadores. Ninguém se salva da guerra pela guerra.

Neste cenário, o rosto palestino, das mães que choram seus filhos, e principalmente das crianças dilaceradas pela dor ou por projéteis, convoca todo o humano à responsabilidade, ao cuidado ou a colaborar com assassínio. Isso porque, a epifania do outro, através de seu rosto, é a revelação da presença de alguém, mas é também desvelamento das pré-compreensões e dos preconceitos estabelecidos, em geral, definidores da ação intersubjetiva na Totalidade. Este duplo movimento de revelar e desvelar, propiciado pelo rosto humano representa a interpelação ética. A não indiferença diante de um rosto humano sempre cobra uma postura, ou a adesão a um projeto de responsabilidade pelo que sofre, ou incorrer na indiferença, as vezes mecânica, as vezes cínica. Dessa forma: “o rosto do outro exige um compromisso ético na ação histórica, que se dá na sua epifania da interpelação ética: tu não matarás! O eu será constantemente colocado em questionamento pelo outro; com efeito, a interpelação parece ter três níveis: a) manifesta-se pela indiferença diante do outro; b) aparece com redução do excluído na realidade do fenômeno da coisa falante e c) pela experiência da vulnerabilidade no sentido ôntico”.[iv]

A indiferença ao rosto humano desumaniza, pois nele está exposto o apelo: “deixe-me viver”; em consequência, o não compromisso com quem sofre implica em aceitar a situação e tomar sutilmente partido em favor dos opressores[v].

Assim sendo, a superação dessa e de outras tragédias humanitárias possuem uma condição incontornável: a capacidade de a luta política dos oprimidos estabelecer as razões éticas de uma civilização para além da cobiça e do fanatismo, bem como, definir as necessidades humanas como prioritárias para além do medo e da vingança. A paz é o cansaço da guerra, ela não vem com o sofrimento, mais exitosa é a partilha.

Estes são os sinais do sino, que neste tempo soando repete: “se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano”.[vi]

 

[i] ROUDINESCO, Elisabeth. A parte obscura de nós mesmos: uma história de perversos. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 21.

[ii] CAMUS, Albert. O homem revoltado. Trad.  de valerie rumjanek , 9º ed. São Paulo: Record, 2011.  P.215

[iii] DUSSEL, Enrique. 1492 o encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Trad. Jaime a. Classen. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 73.

[iv] Sidekum, Antonio. Interpelação ética. In: Sidekum, Antonio.  (org.). Interpelação ética. São Leopoldo: Nova Harmonia. 2003.p. 231.

[v] Boff, Leonardo. Jesus Cristo libertador. Petrópolis: Vozes, 1988. P. 23.

[vi] DONE, John. Meditações. Landmark: São Paulo, 2007, p. 251.

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