O Sequestro da Subjetividade no Trabalho: Uma Análise Crítica do Controle Psicológico nas Organizações Capitalistas

Autor José Henrique de Faria, Professor Titular Sênior da UFPR*

Introdução

O conceito de sequestro da subjetividade emerge como categoria central para a compreensão das relações de poder e controle no trabalho sob o capitalismo contemporâneo. Desenvolvido por Faria (2004), Faria e Meneghetti (2007) e Faria (2017), o conceito designa o processo pelo qual as organizações capitalistas se apropriam, de forma planejada e sub-reptícia, da concepção de realidade que integra o domínio das atividades psíquicas, emocionais e afetivas dos trabalhadores. Tal apropriação priva os sujeitos de sua condição de elaborar, organizar e sistematizar seu próprio saber, submetendo-os aos valores e à ideologia produzidos pela organização capitalista do trabalho.

O presente artigo sintetiza as principais ideias extraídas das obras Economia Política do Poder (Faria, 2004), Poder, Controle e Gestão (Faria, 2017) e do capítulo dedicado ao tema, intitulado “O Sequestro da Subjetividade”, (Faria e Meneghetti, 2007). A análise fundamenta-se na Teoria da Economia Política do Poder, que toma as relações de poder e os mecanismos de controle como elementos centrais da gestão em unidades produtivas capitalistas.

  1. Subjetividade, Consciência e Fragmentação

A subjetividade é definida como a forma de construção da concepção ou percepção do real, que integra o domínio das atividades psíquicas, emocionais e afetivas do sujeito individual ou coletivo, formando a base da tradução racional dos valores, interpretações, atitudes e ações. Nas organizações produtivas (fábricas, bancos, lojas, associações, órgãos públicos, etc.), a subjetividade é essencialmente controlada pela gestão, intervendo na consciência do sujeito quanto à sua conduta no local de trabalho e na rede social a que se submete.

A consciência, entendida como a condição de apreensão racional da totalidade material cognoscível e, portanto, forma de elaboração antagônica ao processo de alienação no qual o sujeito se submete pelo domínio parcial da sua realidade, compõe-se não apenas por uma lógica racional, mas também por uma cobertura emocional dessa apreensão. O sujeito, no entanto, não possui total compreensão de suas manifestações emocionais e racionais, o que impede um estado idealizado de consciência capaz de suprimir o processo de alienação. A subjetividade apresenta-se, portanto, necessariamente em uma condição fragmentada.

A subjetividade é produzida social e historicamente e sua fragmentação constitui, dialeticamente, uma forma de interação do sujeito com o coletivo, ou seja, a mesma relação social constitutiva da subjetividade individual é também o lugar da fragmentação. Desse processo decorre um constante conflito entre o desejo total e o desejo partilhado, por meio da cessão, para o coletivo, dos objetivos que o indivíduo almeja apenas para si. Paradoxalmente, portanto, a associação ao coletivo é também a forma criada para que os indivíduos alcancem objetivos particulares que não alcançariam senão nesse plano coletivo. Essa subjetividade fragmentada é valorizada e reproduzida pela ideologia capitalista, tornando-se a forma mais direta e menos dispendiosa para a organização produtiva obter resultados.

  1. Poder Condicionado

O poder condicionado é exercido mediante a mudança de uma convicção ou crença. É subjetivo, pois nem os que o exercem e nem os que a ele se sujeitam estão necessariamente cientes de seu exercício, podendo dar-se de forma explícita (pela persuasão e educação) ou implícita (pela cultura). O poder condicionado é muitas vezes imperceptível, pela sua sutileza, e natural, na sua aceitação, não exercendo força visível para capturar a crença e a submissão dos indivíduos.

As organizações produtivas aparecem como um meio de estabelecer o poder condicionado sobre os indivíduos. O trabalhador, de forma subjetiva e muitas vezes inconsciente, substitui o reconhecimento social, construído ao longo da vida e valorizado pela sociedade, pela submissão à ideologia das organizações produtivas. É nesse sentido que as organizações fornecem uma espécie de roteiro de sucesso socialmente imaginado como ideal, no qual se encontram as identidades (relações de pertença), a carreira, a posição, as premiações, as metas superadas, os desafios transpostos e os símbolos de poder. O não cumprimento desse roteiro leva o indivíduo a ser considerado um caso de fracasso. Assim, o reconhecimento social é reduzido e substituído pelo reconhecimento organizacional nos termos da própria organização produtiva. O poder condicionado configura, portanto, uma forma de sequestro da subjetividade, em que a dor e o sofrimento de um trabalho precário se apresentam como sendo infinitamente menores do que a exclusão ou discriminação social causada pela ausência do cumprimento dos objetivos imaginários que atestam o reconhecimento do que seria uma carreira vitoriosa.

  1. O Conceito de Sequestro da Subjetividade

O sequestro da subjetividade por parte da organização consiste no fato de esta apropriar-se, planejadamente, por meio de programas na área de gestão de pessoas e, de forma sub-reptícia e furtiva, da concepção de realidade que integra o domínio das atividades psíquicas, emocionais e afetivas dos sujeitos. Entenda-se que a área de gestão não é o departamento ou diretoria de gestão de pessoas, mas a política de gestão de pessoas da organização produtiva. Essas atividades formam a base da percepção e da representação que permite aos sujeitos interpretar o concreto e tomar atitudes. O sequestro priva os sujeitos de sua condição de se apropriar da realidade, ficando à mercê dos saberes e valores produzidos pela organização.

A organização age planejadamente, implantando programas de gestão de apropriados à execução do sequestro, ainda que os encarregados de sua aplicação possam não ter consciência disso. Os mecanismos utilizados visam atingir de maneira eficaz as relações afetivas e sociais mais valorizadas pelos indivíduos objeto do sequestro. Essas políticas não se dirigem necessariamente a todos os indivíduos que trabalham na organização. Embora todos estejam sujeitos ao sequestro, a ênfase dos programas é dirigida especialmente àqueles indivíduos que ocupam posições estratégicas na reprodução da ideologia da organização, dos símbolos, dos valores, das crenças, dos projetos, dos objetivos, da missão, dos compromissos. O custo dos investimentos em políticas de sequestro da subjetividade não é alocado na gestão de trabalhadores que a organização produtiva considera descartáveis ou facilmente substituíveis.

O conceito distingue-se do de captura da subjetividade: enquanto a captura representa o encarceramento, a prisão do sujeito, o sequestro consiste na privação da condição de análise crítica e de concepção autônoma do sujeito, por meio da inculcação e da permanente gravação de um sistema de valores que são aqueles da organização capitalista. O sequestro é da ordem do recalque, enquanto a captura é da ordem da repressão. A distinção é fundamental, pois o sequestro implica a possibilidade de resgate, em que o sujeito, embora privado de sua autonomia, pode ser “libertado dos termos da ideologia”, enquanto a captura significa a decretação da detenção, da condenação ao cativeiro organizacional. Mas é preciso observar que o sequestro pode desencadear a Síndrome de Estocolmo, em que o sequestrado identifica-se com o sequestrador, remetendo a uma relação afetiva do trabalhador com o projeto da empresa como se essa lhe pertencesse (“a nossa empresa”, “vestimos a camisa”, “somos colaboradores”, etc.).

As formas de libertação do sujeito sequestrado são: (i) a fuga ou o rompimento da relação de subordinação, por iniciativa do sujeito (autoconsciência); (ii) a negociação entre o sequestrador e a associação coletiva representativa do sujeito sequestrado (como o sindicato autônomo, por exemplo); ou (iii) a mediação por uma instância institucional superior (como o Tribunal Regional do Trabalho, por exemplo). O valor do resgate, pode equivaler ao preço da pactuação voluntária, da punição (demissão, desemprego, humilhação) ou da transgressão das regras que permitem à organização agir como sequestradora.

  1. As Cinco Formas de Sequestro da Subjetividade no Toyotismo

Pesquisa empírica realizada com trabalhadores dekasséguis no Japão, em empresas que adotam o modelo toyotista de produção, identificou cinco formas de sequestro da subjetividade:

  1. Sequestro pela identificação: Refere-se ao ajustamento ao imaginário instituído pela organização, que faz com que o trabalhador a considere como parte de si. A pesquisa mostrou que cerca de 4/5 dos trabalhadores identificam-se com a empresa, considerando-a parte de si mesmos, o que os impulsiona ao máximo empenho e dedicação. O que é sequestrado são as condições de ajustamento ao imaginário criado pela empresa, a perda da identidade do sujeito, transferida para a identidade da organização.
  2. Sequestro pela essencialidade valorizada: Refere-se ao sentimento de indispensabilidade do trabalhador, alimentado pela crença no reconhecimento de seus méritos pela organização. Cerca de 2/3 dos trabalhadores acreditam ser indispensáveis devido aos seus méritos, sem perceber que outros, como eles, foram demitidos sempre que os resultados não patrocinavam o processo de acumulação.

iii. Sequestro pela colaboração solidária: Refere-se ao desenvolvimento de atitudes de contribuição para com os projetos organizacionais, por meio da adesão, do vínculo e do envolvimento com os grupos de trabalho. O trabalho em equipe cria um autocontrole grupal, em que qualquer pessoa que ameace a estabilidade do grupo será excluída. A solidariedade está no empregado, não na empresa.

  1. Sequestro pela eficácia produtiva: Refere-se à crença do trabalhador na colaboração efetiva para a obtenção de resultados superiores aos previamente pretendidos. De cada dez trabalhadores, nove mostraram preocupação máxima em não deixar um colega esperando uma peça, ansiedade em repor estoques e reconhecimento de que o sucesso do trabalho depende da colaboração entre colegas e não da gestão. O kaizen e o just in time, por exemplo, são programas que atuam como mecanismos que intensificam o trabalho e reduzem custos em troca de elogios e satisfação narcísica.
  2. Sequestro pelo envolvimento total: Refere-se ao sentimento de entrega do trabalhador à sedução e ao encantamento proporcionados pelos valores organizacionais. A competição entre equipes, estimulada pelo team work, cria um clima de emulação pelo melhor desempenho, ensejando uma disposição afetiva de entrega. A organização antecipa-se aos conflitos, absorve e transforma as contradições antes que resultem em conflitos coletivos.
  1. Toyotismo e Controle Psicológico

O toyotismo (ou produção enxuta) é apresentado como o estágio contemporâneo da racionalização do trabalho, um “fordismo flexível” ou “neofordismo”, que, valendo-se de novos conhecimentos das ciências do comportamento, aperfeiçoou os mecanismos de controle do processo de trabalho. Diferentemente do modelo de gestão próprio do taylorismo-fordismo, que embora atuasse sobre a subjetividade dos trabalhadores, controlava o corpo e os gestos dos trabalhadores, o modelo do toyotismo opera um controle sobre o próprio modo de ser e de pensar daqueles que trabalham.

O modelo não pode ser considerado, como parte da literatura afirma, um “modelo japonês” de gestão, mas um modelo capitalista contemporâneo que, apoiado por pesquisadores de outras nacionalidades, foi implementado e desenvolvido no Japão em um momento de crise de acumulação do capital. Seu sistema cultural intrínseco não depende da cultura local em que se instala, tratando-se de uma nova forma de organização do processo de trabalho sob o comando do capital.

Técnicas como team work, kaizen, just in time, Círculos de Controle de Qualidade (CCQ) e Controle de Qualidade Total (TQC) são capazes de facilitar o sequestro da subjetividade, intensificando o ritmo de trabalho e precarizando as condições físicas e psicológicas do ambiente laboral. O controle de qualidade, por exemplo, torna-se uma tarefa desempenhada pelo autocontrole embutido na subjetividade do trabalhador, na qual seu trabalho reflete sua integridade moral perante os demais.

Conclusão

O sequestro da subjetividade constitui um mecanismo central de controle nas organizações capitalistas contemporâneas, que se explicita especialmente sob o toyotismo. O que o modelo toyotista faz emergir é o sequestro da subjetividade como mecanismo explícito e sofisticado do controle da subjetividade. Trata-se de um processo planejado e sistemático de apropriação das capacidades psíquicas, emocionais e afetivas dos trabalhadores, que os priva da autonomia necessária para interpretar criticamente sua realidade e agir sobre ela. O sequestro da subjetividade, contudo, não se manteve restrito às fábricas toyotistas, sendo atualmente um programa de gestão largamente adotado nas organizações produtivas modernas.

As formas de sequestro revelam a sofisticação dos mecanismos de controle, que operam não mais apenas sobre o corpo e o tempo do trabalhador, mas sobre sua subjetividade, seus valores e seus afetos. O poder condicionado, ao naturalizar a aceitação das regras organizacionais, torna o sequestro um processo frequentemente imperceptível para os próprios sujeitos a ele submetidos.

O sequestro da subjetividade não se limita a contextos culturais específicos. Os modelos capitalistas de produção e gestão transcendem as fronteiras das sociedades particulares, configurando-se referências no processo de reorganização produtiva contemporâneo. A compreensão crítica desse processo é fundamental para a construção de formas de resistência e para a busca de uma gestão democrática do processo de trabalho, baseada no reconhecimento social, na redistribuição da riqueza, na representação paritária e na realização emocional dos trabalhadores.

  • Autor José Henrique de Faria – Economista. Epistemólogo. Graduação em Ciências Econômicas pela Faculdade de Administração e Economia FAE-PR (1970-1974), Especialização em Política Científica e Tecnológica pelo IPEA/CNPq (1982-1983), Mestrado em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PPGA/UFRGS (1978-1980), Doutorado em Administração pela Universidade de São Paulo- FEA/USP (1981-1984), Pós-doutorado em Labor Relations pelo Institute of Labor and Industrial Relations – ILIR – University of Michigan (2003). Pós-Doutorado em Filosofia (Filosofia Politica Contemporânea) pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da PUC-SP (2022-2024). Autor de 14 Livros, 55 Capítulos de Livros, 83 Artigos em Revistas Científicas e mais de 70 Artigos em Anais de Eventos Científicos. Orientador de 13 Doutores, 48 Mestres e 3 pós-doutorados. Professor Titular Sênior da UFPR, no Programa de Pós-Graduação em Administração – PPGADM (Mestrado e Doutorado). (Até dezembro de 2020). Professor Titular Sênior da UFPR, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia PPGPSI, Mestrado e Doutorado (desde 2025). Pró-Reitor de Planejamento, Orçamento e Finanças (1990-1994) da UFPR. Reitor (1994-1998) da UFPR. Pesquisador Pq/CNPq. Professor Visitante da Universidade Federal Tecnológica do Paraná – Programa de Pós-graduação em Administração. ORCID: orcid.org/0000-0003-3971-7992. Pesquisador nas Áreas de Economia Política do Poder em Estudos Organizacionais e de Ontologia e Epistemologia Crítica do Concreto, Metodologia e Teoria. Coordenador do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa Científica sobre Lawfare – GIPCLawfare junto ao Museu da Lava Jato (desde 2022). Conselheiro do Instituto memória, Legalidade e Justiça (desde 2024). Membro da Red de Estudios Organizacionales de Latinoamérica (Até dezembro de 2020). Orientador de Mestrado e Doutorado. Líder do Grupo de Pesquisa Economia Política do Poder e Estudos Organizacionais – EPPEO, UFPR/CNPq (desde 2002). Fundador da Sociedade Brasileira de Estudos Organizacionais – SBEO. Presidente da SBEO (outubro/2018 – dezembro/2020) (maio/2023 – maio/2025). Propositor da Teoria da Economia Política do Poder. Propositor de Teoria Crítica do Controle. Propositor da Ontologia e Epistemologia Crítica do Concreto. Propositor das Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas. Propositor dos conceitos de Sequestro da Subjetividade, Dissimulação Discursiva, Ato Epistemológico, Tempo Epistemológico, Êxito e Fracasso Epistemológico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FARIA, José Henrique de. Economia Política do Poder. Curitiba: Juruá, 2004. 3 Volumes.

FARIA, José Henrique de. Poder, Controle e Gestão. Curitiba: Juruá, 2017.

FARIA, José Henrique de; MENEGHETTI, Francis Kanashiro. O Sequestro da Subjetividade. In: FARIA, J. H. de. Org. Análise Crítica das Teorias e Práticas Organizacionais. São Paulo: Atlas, 2007.

 

 

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