Uma revisão de registros clínicos de uma unidade de saúde de Alto Ave, Portugal, identificou que a maioria dos casos de asma ocupacional grave ocorre nas indústrias têxtil, da construção civil e de calçados. Além disso, observou lacunas na prática clínica que atrasam o diagnóstico e o tratamento da doença e propôs um protocolo para melhorar identificação precoce e os resultados clínicos.
A pesquisa foi realizada por membros da equipe dos Serviços de Pneumologia e de Medicina da Unidade Local de Saúde que verificaram 431 prontuários clínicos com diagnóstico de asma de 2023 e 2024. A análise incluiu dados demográficos, idade de início da doença, necessidade de terapêutica biológica, histórico profissional e agrupou as ocupações por categorias setoriais.
Os autores frisam que os dados obtidos refletem falhas críticas na prática clínica: 65 dos indivíduos preencheram critérios de asma grave, no entanto, 15,4% deles não tiveram avaliação de exposição ocupacional. Dos 36 casos com início na idade adulta, apenas um realizou medições seriadas do pico de fluxo expiratório (PEF) para investigação de etiologia ocupacional.
“Isso destaca as barreiras sistêmicas na coleta e avaliação de históricos ocupacionais, que são essenciais para identificar as ligações entre as exposições no local de trabalho e os sintomas da asma”, complementam Bárbara Oliveira e Silva, Pedro Ulisses Brito, Sílvia Jesus Oliveira, Joana Peixoto e Filipa Duarte Costa.
Embora existam ferramentas diagnósticas adequadas, elas são subutilizadas, o que se soma a avaliações incompletas ou inexistentes do histórico ocupacional dos pacientes e à ausência de protocolos uniformes de triagem clínica. Os autores apontam ainda o pouco conhecimento dos profissionais da saúde sobre asma ocupacional, colocando ênfase no controle sintomático da asma, e a pouca articulação entre pneumologistas e especialistas em saúde ocupacional.
Para reverter o cenário de subdiagnóstico, os autores reforçam a importância de adotar protocolos de avaliações padronizadas do histórico ocupacional e disponibilizar tempo adequado para a avaliação clínica. Recomendam também utilizar com mais frequência ferramentas diagnósticas, como medições seriadas do pico de fluxo expiratório, antes de passar para terapias biológicas. Essas ações permitem intervenções mais direcionadas e podem evitar a progressão da doença, melhorando o cuidado prestado aos trabalhadores com asma ocupacional.
O estudo apresenta algumas limitações, como desenho baseado em registos, amostra de uma única unidade de saúde e ausência sistemática de testes diagnósticos específicos, o que impede confirmação definitiva de asma ocupacional. No entanto, os autores reforçam a importância das informações trazidas pela pesquisa e recomendam que estudos futuros considerem populações maiores e diversificadas, com avaliações padronizadas de exposição e acompanhamento clínico para quantificar melhor os riscos setoriais e orientar intervenções de prevenção nos locais de trabalho.
Leia o artigo Diagnóstico de asma e asma grave em diferentes grupos profissionais: um estudo retrospectivo na página da RBSO no SciELO. O conteúdo está em português e inglês, e o download do PDF é gratuito.
Fonte Fundacentro