Mercado Sul: um chão de cores – memórias do Beco da Cultura de Taguatinga, DF

Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito

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Mercado Sul: um chão de cores – memórias do Beco da Cultura de Taguatinga, DF / organização Ana Luiza Noronha, Webert da Cruz. Brasília: Ed. Dos Autores, 2025 (ISBN 978-65-01-93443-3).

 

 

Mercado Sul: Um Chão de Cores lança fotolivro e exposição sobre memória, patrimônio cultural e direito à cidade no Mercado Sul de Taguatinga. Tenho em mãos a obra, o fotolivro, e todo o descritivo sobre a edição e o projeto que proporcionou a edição. As referências, que a seguir transcrevo, especialmente em relação à bela obra editada, pode ser localizada em https://aquitemliteratura.com.br/mercado-sul.

Me valho do material disponível, conforme transcrevo:

O Mercado Sul de Taguatinga é considerado um dos mais importantes espaços de produção artística, cultura popular periférica e memória coletiva no Distrito Federal. Há mais de quatro décadas, artistas, moradores e iniciativas culturais de vanguarda sustentam e revitalizam o território.

Desde 2015, toda essa pulsão criativa articula a Ocupação Cultural Mercado Sul Vive. Um afetivo recorte desse legado de resistência foi documentado pelo Coletivo Retratação no fotolivro ‘Mercado Sul: Um Chão de Cores – Memórias do Beco da Cultura de Taguatinga (DF)’, lançado no dia 21 fevereiro, durante a festa de 11 anos da ocupação.

Organizada pelo jornalista e fotógrafo Webert da Cruz e pela percussionista e antropóloga Ana Noronha, a obra reúne um acervo histórico com fotografias, pesquisas, textos e depoimentos que narram a trajetória cultural, as transformações e a atuação de diferentes gerações de artistas e moradores do Beco da Cultura, como também é conhecido o Mercado Sul. O livro também homenageia o fotojornalista Ivaldo Cavalcante, cearense radicado em Taguatinga que durante a década de 1970 realizou os primeiros registros fotográficos da cultura viva da comunidade e de seus arredores.

Salvaguarda e patrimônio cultural. A publicação do fotolivro integra o projeto “Mapeando Memórias Visuais: Mercado Sul – Um Chão de Cores”, realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG-DF), e é resultado de um processo continuado de mapeamento do acervo visual do território. O projeto conecta fotografia, pesquisa, escuta e convivência como estratégia de preservação da memória, tendo como um dos principais objetivos contribuir para o reconhecimento do Mercado Sul como Patrimônio Cultural Imaterial de Taguatinga e do Distrito Federal.

Em 2015, foi protocolado um primeiro pedido de patrimonialização do território junto ao Governo do Distrito Federal. Em 2021, a campanha “Mercado Sul é patrimônio cultural material e imaterial do DF” mobilizou diversos agentes culturais, intensificando o encaminhamento da pauta dentro e fora da comunidade. Atualmente, o processo está em discussão através de um grupo de trabalho do Conselho de Defesa ao Patrimônio Cultural (CONDEPAC-DF), instância participativa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF.

Daí a simbolização que dá vivacidade à matéria editada: Mercado Sul: Um Chão de Cores. Webert da Cruz explica que o fotolivro propõe uma aproximação sensível do público com as camadas íntimas e simbólicas do Beco da Cultura. “Com essa pesquisa, conseguimos ampliar o olhar sobre as complexidades desse lugar que encanta, mas que também enfrenta desafios diversos de infraestrutura, manutenção das atividades culturais e cuidado com as pessoas”, destaca o fotógrafo, que em 2018 já havia produzido uma grande reportagem sobre o movimento de ocupação cultural do local em sua graduação em jornalismo, intitulada ‘Retomar para Reinventar’.

No recorte narrativo do fotolivro, passado, presente e futuro se atravessam a fim de circular a memória para as novas gerações. Ana Noronha, que pesquisou na sua graduação (UnB) a relação entre Estado e Sociedade Civil em processos de patrimonialização, destaca o forte poder de criação de conhecimento e de fortalecimento de vínculos que o Mercado Sul tem. “Este livro celebra as pessoas que estiveram aqui, valoriza quem permaneceu e segue movimentando atualmente e incentiva todos a construírem um futuro”, comenta a antropóloga.

Todo esse acervo foi suporte para uma exposição fotográfica e distribuição dos livros. O projeto Chão de Cores também lançou uma exposição fotográfica com múltiplos olhares sobre as práticas culturais presentes no território, como teatro popular, artes visuais, cultura ballroom, capoeira, samba, entre outras. Com curadoria de Webert da Cruz e Rick Paz, a mostra traz registros de 13 artistas do movimento cultural do Mercado Sul: Angel Luis, Davi Mello, Diana Sofia, Ester Cruz, Ivaldo Cavalcante, Matheus Alves, Nara Oliveira, Raissa de Oliveira, Ramona Jucá, Rick Paz, Thiago S. Araújo, Webert da Cruz e Yuri Barbosa.

A pesquisa para a produção do fotolivro e da exposição incluiu rodas de conversa, mediações e visitas guiadas, catalogação de cerca de 200 imagens históricas, ensaio fotográfico com moradores e agentes culturais locais e uma intervenção artística nos muros do beco, através de pinturas, grafites e lambes. “Essa é mais uma oportunidade de fortalecer a memória, o pertencimento e a permanência desse território cultural periférico que vem transformando a cidade de Taguatinga há muito tempo”, completa Webert.

A exposição ‘Chão de Cores – Mercado Sul: memória, cultura e movimento’ segue aberta ao público até o dia 27 de março, no Espaço Okupa. As visitações têm entrada franca e podem ser realizadas às quartas e quintas, das 9h às 12h, e às terças e sábados, das 13h às 18h. Escolas, educadores e projetos pedagógicos podem solicitar mediação pedagógica coletiva, através de agendamento prévio pelo whatsapp: 61 9.8530.2049 (Garnet).

Penso que os organizadores atinaram com o núcleo seminal de iluminação do projeto: demarcar décadas de luta pelo direito à cidade e à cultura. O Mercado Sul foi construído e inaugurado em Taguatinga no final da década de 1950, antes mesmo de Brasília, como um dos primeiros centros comerciais do DF. Desde a década de 1970, superando especulações imobiliárias e abandono governamental, passou a ser revitalizado continuamente por moradores e movimento cultural. Em 2015, sua comunidade criou a Ocupação Cultural Mercado Sul Vive, dando mais um passo na luta pelo direito à cidade. A articulação transformou lojas abandonadas em novos espaços vivos de arte, cultura e resistência, reivindicando também o reconhecimento do território como Patrimônio Cultural Imaterial do DF.

Por isso, “Contar a história do Mercado Sul é também disputar narrativas sobre a cidade, a cultura e o direito de permanecer”, resume o texto de apresentação do fotolivro Chão de Cores.

De minha parte, foi com uma ponta de orgulho que encontrei no livro o prefácio elaborado por Paíque Santarém, reconhecido por seus estudos e incidência nos temas de mobilidade urbana não apenas como tecnologia de transporte, mas como um mecanismo técnico e histórico de controle social da população negra e periférica, configurando o que se compreende como “mobilidade racista”. Ele faz parte de meu intercâmbio com os irmãos Santarém – Paíque e principalmente Paulo, este mais próximo do meu campo de pesquisa – O Direito Achado na Rua – que nos anos 2005 a 2008 na UnB levou à criação do Observatório da Constituição e da Democracia, conduzido por pesquisadores dos Grupos de Pesquisa O Direito Achado na Rua e Sociedade, Tempo e Direito (Sobre o OCD ver https://estadodedireito.com.br/observatorio-da-constituicao-e-da-democracia/), e, ao mesmo tempo trilhando um caminho próprio ancorado nos pressupostos de O Direito Achado na Rua (cf. para seguir essa trilha Thais Chaves – https://estadodedireito.com.br/constitucionalismo-achado-na-rede-um-repensar-sobre-o-direito-humano-a-comunicacao/ – : no que a abordagem da Autora expressa na acepção de um constitucionalismo achado na rede, tal como se expressa no título de sua dissertação, vem se encontrar com esse movimento transformador que vai de O Direito Achado na Rua ao Direito Achado na Rede. Ela, de fato, menciona esse encontro ao fazer citação da entrevista do professor Paulo Rená, num dos programas da playlist O Direito Achado na Rua. Conforme se poderá confirmar, para esse percurso e conceitos apropriados pela Autora em – https://www.youtube.com/watch?v=aVgqu53dEic&list=PLuEz7Ct3A0Uj9NU2BYmgSIM0rWv7IRAjK&index=67. Trata-se do programa O Direito Achado na Rua que entrevista o professor Paulo Rená sobre seu projeto Direito Achado na Rede, uma derivação de O Direito Achado na Rua, o grupo de estudos da Universidade de Brasília (UnB), do qual Paulo Rená faz parte. Direito Achado da Rede é plataforma desenvolvida para instituir espaços críticos constituídos pelas comunidades de informação e de conhecimento, da questão das fake news e do “monopólio da verdade” e temas correlatos. O projeto do professor Paulo Rená derivou das pesquisas que ele empreendeu para sua dissertação de mestrado. Escrita em 2010, o livro “O Direito Achado na Rede: a concepção do Marco Civil da Internet no Brasil” (acessível em formato e-book e em papel (no site da @editoradialetica).

Volto ao prefácio de Paíque Santarém: “A obra aborda, como se verá a seguir, personagens, estórias, crônicas, reatos e avaliações, de um processo construído coletivamente desde pelo menos doze mil anos atrás – quando temos registros dos primeiros parentes que chegaram por Taguá. Daí entendermos que o Beco é um dos portais para conexão com diferentes camadas de nossa história, motivo pelo qual ele é definitivamente um Patrimônio Cultural. Ao dar dimensões de como a vida coletiva sobrevive ativamente aos tempos, impropérios. Ataques, crises e fins de mundo, aprendemos sobre nosso futuro. Observar o Mercado Sul por meio de um livro construído pela própria coletividade que o habita nos ensina a fortalecer todas as nossas outras comunidades, territórios, lutas. Ou seja, o Mercado Sul é um destes, lugares especiais onde se combate a terceira, quarta ou quinta guerra mundial por meio de uma trama de mamulengos”.

A resistência narrada em Mercado Sul Um Chão de Cores ganha sua densidade teórica e política justamente ao posicionar o direito à cidade não como uma concessão institucional, mas como uma prática de cidadania ativa e insurgente. O capítulo 4 especialmente – “Ocupação Cultural Mercado Sul Vive” – articula com clareza que o enquadramento dessa luta no horizonte do direito à cidade é, em essência, uma resposta direta e necessária ao avanço da especulação imobiliária, que enxerga o território urbano apenas através da métrica do lucro e do valor de troca. Ao ocupar o Beco da Cultura, o movimento interrompe a lógica do vazio planejado — aquele abandono estratégico que aguarda a valorização do solo — e o preenche com o valor de uso, devolvendo ao Mercado Sul sua função social e humana.

Essa contraposição à especulação se materializa de forma poética e programática no mote “ainda viro este mundo em festa, trabalho e pão”. Essa tríade sintetiza uma visão de mundo que recusa a fragmentação da vida imposta pela metrópole moderna, onde o lazer é mercadoria, o trabalho é alienação e a subsistência é incerteza. A “festa”, no contexto do Mercado Sul, deixa de ser um evento isolado para se tornar a própria estética da convivência e do encontro; o “trabalho” assume o caráter de fazer criativo, artesanal e solidário; e o “pão” simboliza a garantia das condições materiais de existência, asseguradas pela rede de apoio e economia comum que a ocupação sustenta.

Portanto, o enquadramento dessa luta em nome do direito à cidade é um ato de soberania popular sobre o destino do espaço comum. O capítulo demonstra que, ao transformar o beco em um território de “festa, trabalho e pão”, a comunidade do Mercado Sul Vive não está apenas preservando um conjunto de lojas, mas está, de fato, “virando o mundo”. Trata-se de uma ação de cidadania que desafia a homogeneização urbana e afirma que a cidade deve ser o palco da realização da vida em sua plenitude, e não um ativo financeiro. A ocupação cultural revela-se, assim, como a ferramenta política que traduz o desejo lírico de transformação social em uma geografia concreta de resistência e esperança no coração de Taguatinga.

Penso que essa é uma chave de leitura do processo de luta comunitária vivenciada pelo Mercado Sul Vive. Ela se recorta, desde a perspectiva de O Direito Achado na Rua, tal como se recalca nas lutas gerais de Brasília e de Taguatinga, a ver em SOUSA, Nair Heloisa Bicalho, MACHADO, Maria Salete: e JACCOUD, Luciana da Barros. Taguatinga: uma história candanga. In PAVIANI, Aldo (org). Brasília: moradia e exclusão. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1996, citadas na obra, referência principalmente a Nair Bicalho que integra o Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua. Essa linha de aferição do protagonismo de sujeitos coletivos de direito, se aninha na concepção mais geral de Direito à Cidade e Direito Urbanístico, quanto mais seja seu fundamento perceber a passagem da condição de urbs e de civitas, referência a beleza e funcionalidade, a de polis, como construção social e luta político por direito e emancipação (ntrodução crítica ao direito urbanístico [recurso eletrônico] / organizadoras e organizadores, José Geraldo de Sousa Junior… [et al.]. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2019. 496 p. – (Série O Direito Achado na Rua; vol. 9) – Livros Digitais de Acesso Aberto (http://livros.unb.br/index.php/portal/catalog/book/17). Para mais: https://estadodedireito.com.br/introducao-critica-ao-direito-urbanistico/.

No capítulo 4, com anotação sobre a mobilização para reconhecimento de direitos,  há a consciência ilustrada pelas alianças de assessoramento jurídico, no viés de concepção de direito emancipatório, ao entendimento potencializado pelas organizações de apoio –  Candanga Assessoria Popular (citada) e AJUP- Assessoria Jurídica Popular Universitária Roberto Lyra Filho, da UnB (não mencionada) – de que, “No caso do Mercado Sul Vive, o que se colocou em prática foi o uso social da propriedade, conceito amplamente reconhecido na legislação urbana brasileira, gerando impactos diretos e positivos na comunidade local”.

Referi-me a essa construção crítica de enunciados jurídicos emancipatórios, no sentido, eu o disse em minha coluna O Direito Achado na Rua (Jornal Brasil Popular),de instituir Espaços de Cidadania, como sustenta Milton Santos, que formam “cidades educadoras”, enquanto compreendem territórios como lugares em disputa na construção das cidades, quando se envolve relações humanas e suas produções materiais, formando uma geografia cidadã e ativa, conforme lembram Sara da Nova Quadros Cortes e Cloves Araújo, em belo texto – “Dialética Social no Rastro dos Pensamentos de Roberto Lyra Filho e de Milton Santos: aportes teóricos no campo do direito e da geografia” – também publicado nesse dia 1º de setembro, na Revista Direito.UnB (volume 6, número 2 – maio/agosto 2022), com um dossiê em homenagem a O Direito Achado na Rua e a Contribuições para a Teoria Crítica do Direito. Aí aonde bebe, teórica e politicamente, o agir interpelante e comprometido com a emancipação, dos jovens militantes da Assessoria Jurídica Popular Universitária Roberto Lyra Filho e da Assessoria Jurídica Popular Candanga que promovem a causa do Movimento Ocupação Cultural Mercado Sul Vive. (https://brasilpopular.com/mercado-sul-fica/).

 

|Foto Valter Campanato
José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil,  Professor Titular, da Universidade de Brasília,  Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.55

 

 

 

 

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