Pastel e guaraná: a absolvição dos PMs

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Foto: Luiz Chaves/Palácio Piratini

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Eu e a menina estagiária

Era um dos raros dias ensolarados do outono gaúcho. Saíamos de uma atividade de grupo em uma Delegacia na região Metropolitana de Porto Alegre. Eu e a menina estagiária. A menina estagiária trazia o frescor da juventude, a doçura e os traços de inocência que perdi ao longo de 15 anos trabalhando na segurança pública. Era bom tê-la ao meu lado. Ela me ajudava a olhar. Olhar, pra mim, não é ver, nem enxergar. Olhar é molhar a vida. Deixá-la mais líquida, menos pronta, menos óbvia. Os jovens, que são forasteiros num território, ajudam nisso.

A cena

A Delegacia tinha 3 metros de pé direito e era toda revestida em azulejo branco. Provável que doação de empresários da cidade. Já é de praxe nas polícias do Brasil contar com a “rede local”, diante das constantes precariedades do Estado. Andávamos pelo longo corredor branco com a sensação de dever cumprido. Ao atravessar a porta pra rua, em direção ao nosso carro, vislumbramos a cena: um menino, com no máximo 16 anos, comia um pastel e tomava um guaraná dentro de uma viatura da Brigada Militar. A porta da viatura estava aberta, o menino bem sentado no banco da frente, mordia o pastel com educação, limpava os farelos com um guardanapo, um típico “menino com bons modos” como diria minha vó. Por alguns segundos virou o rosto e posso jurar que nos cumprimentou, ao menos com os olhos. Eu e a estagiária respondemos, com os olhos e uma ponta de alma. Não sei por que, ele nos pareceu familiar.
Na outra ponta da cena, dois policiais militares conversavam eufóricos ao telefone. Os PMs riam alto, um riso terapêutico. Enquanto passávamos, eles não viraram em direção à viatura. Seguiram de costas, envolvidos em suas vidas mundanas, sem a presença do Estado, por segundos revigorantes. Em seguida nos demos conta, com surpresa: o menino na viatura era um homem preso. Talvez não tenhamos percebido a algema que unia uma das mãos ao volante da viatura. Nem que a face juvenil já era digna do destino dos adultos pobres e pretos do Brasil.
Ele era um daqueles “sem vaga”. Um “embretado”. Provável que capturado à pouco tempo pelos policiais militares que procuravam entregá-lo na Delegacia. Era esse o fluxo normal da ocorrência criminal, pelo menos até 1 ano atrás no Rio Grande do Sul. Hoje, diante da superlotação em várias prisões, criou-se uma espécie de “brete governamental”: o lugar dos sem-lugar. Pode ser nas carceragens das Delegacias, dentro de um ônibus-cela apelidado de Trovão Azul ou nas próprias viaturas da PM. Enquanto não surge a tão desejada vaga, o preso é de quem capturou, logo os dois PMs teriam que “dar conta” do dito cujo!

O pastel e o guaraná

Creio que o estopim para o momento de descontração dos PMs tenha sido o pastel e o guaraná. O Estado não prevê recursos de alimentação para presos “em trânsito”, como são chamados aqueles que ainda não foram recebidos pelas instituições de custódia e que, portanto, não constam nos sistemas de dados.  Ao receber a noticia da ausência de vaga para o “seu preso” os PMs chegaram ao fim de sua jornada Estatal, dali pra frente tinham algumas escolhas individuais a fazer: reagir violentamente, manter-se em “posição de sentido” até o sinal do Estado ou ceder a empatia humana, localizada nas brechas da farda. O pastel e o guaraná foram as decisões de dois indivíduos diante do “brete” criado pelo próprio Estado. De alguma maneira se sentiram absolvidos diante do caos Estatal e puderam então fazer aquilo que meninos fazem para  aguentar o tranco da segurança pública: ligar para amada e marcar um encontro pra logo mais.

Texto: Fernanda Bassani

Psicologa da Segurança publica do RS e Doutoranda em Psicologia Social UFRGS.
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