O Partido Progressista na encruzilhada

Coluna Democracia e Política

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Foto: Pixabay

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Sentimento de traição

O Partido Progressista está na encruzilhada. A notícia dada por Paulo Germano em Zero Hora da última terça-feira e que circulou nas redes sociais, transcrita até pelo jornalista Bibo Nunes, é mais ou menos a seguinte: Kevin Krieger, ex-Presidente da Fasc e todo poderoso presidente do PP à época que convenceu o partido a apoiar o candidato do PSDB nas eleições quando os seus integrantes queriam apoiar Melo, foi deixado de lado no governo. Krieger foi expulso do poder e podemos imaginar que no seu íntimo, sente que foi traído. Segundo o jornalista Felipe Vieira, em noticia desta quinta-feira, Krieger decidiu sair do governo. Mas engana-se quem pensa que se trata apenas do caso de um político ou que uma decisão pessoal altera o que aconteceu: na verdade, é uma situação que afeta todo o PP, que, se em nome de seus interesses fica no poder, mas agora, tem um conflito íntimo em nome da honra ferida que, para mim,  exige sair em bloco do governo. Minha posição é suspeita porque até o Monumento a Júlio de Castilhos sabe o quanto sou alinhado a esquerda, mas se uma opinião de fora pode ser útil, a questão é colocar a questão de que o PP não aceita o fato, mas foi traído. O partido jura que o caso não é tão grave assim, mas para mim é.

Charles Carson

O que é o sentimento de traição? No seriado Downton Abbey, série inglesa de grande sucesso, não são as vicissitudes da riqueza dos personagens centrais a questão que ronda as seis temporadas, é a honra e a lealdade entre senhores e empregados que marca o sucesso de audiência. Lady Mary Crawley , a filha da Condessa de Crawley , é fiel à chefe das arrumadeiras, Anne Smith, e a reciproca é verdadeira: mesmo em condições de aguda diferença social, ambas se respeitam, trocam confidências e estabelecem uma rede de ajuda mútua em momentos de dor. O mesmo ocorre com Charles Carson, o mordomo, que assim como John Bates, o valete, são fiéis à Richard, Lorde de Graham, compartilhando seus segredos. sobre esta base da confiança que garante a Downton Abbey enfrentar as piores crises da história do século XX. Nesse universo, a traição não pode existir e mesmo na política, um mínimo de confiança deve prevalecer.

Por isso que para mim a questão não se trata da imagem abatida do secretário Kevin Krieger vista nas redes sociais, se trata do abandono do próprio PP pelo governo, cena reveladora do sentimento de traição na política. A tristeza não é somente expressão de um sentimento de Krieger, equivalente local do desprezo sentido por Temer, ela deve ser tomada como sinal do sentimento de todo um partido na relação interpares, imagem que irá se somar aos casos trágicos de vítimas de traição ao longo da história: o partido entra na lista das vítimas de deslealdade. Em Downton Abbey, o PP seria Charles Carson, o mordomo que é vítima da traição de John Bates, o valete.

Abandono

Esse sentimento que o PP oculta é pior do que o de Dilma Rousseff, porque sequer o partido foi vitima de um ato, de uma interferência, ao contrário, existe por seu simples abandono visando a prejudicar sua influência política, o que lhe causa dano. O PP, como Dilma, foi traído porque um de seus integrantes tem posição em relação a determinados temas que diferem da administração municipal. É provável, por exemplo, que o conflito com os professores fosse menor se Krieger estivesse na condução do processo – para isso era o seu cargo. Esse perfil político, de tomada de decisão, de negociação, enfrentou o boicote, o contrário do que ocorreu com Dilma, pois sequer se trata de persegui-lo, ao contrário, o PP sequer foi digno de uma ação, de um enfrentamento, foi simplesmente abandonado. É como se ele não existisse. Isso é muito pior: é que a figura icônica do PP no governo sempre foi  Kevin Krieger e não o vice-prefeito Gustavo Paim. Votaram em Paim em 2000 cerca de 1.069 eleitores. Em 2014, Krieger conquistou 24 mil votos para deputado estadual: se não era suficiente para elege-lo, era 24 vezes mais que o vice de seu partido conquistou no passado. Para se ter uma ideia, o vereador Mateus Ayres teve em 2016, 8152 votos, Mônica Leal, 7.254, João Carlos Nedel teve 5.346 votos e Cássia Carpes, 4.964 votos.

Você pode não concordar com as ideias de Krieger ou suas ações, mas ele tem capital politico que merecia respeito. O que significa seu abandono? O abandono de Krieger representa o abandono do seu partido, o PP, e  de certa maneira, desrespeito a sigla. Como é possível que o homem que empenhou seu patrimônio político para a articular a vitória do candidato do PSDB possa ser abandonado? Como é possível que o partido que apoio o prefeito em sua vitória seja agora esquecido? Está se tratando o orgulho ferido e a posição humilhante, como algo individual, mas isso só minimiza o problema, não é só do político, é do PP como um todo, que é o partido que a figura de Krieger encarna que é afastado do poder, pois é ele, ao contrário de Paim,  representa a síntese da sigla, o poder do partido no governo. Como Dilma, o PP sofre a imensa carga psíquica de seu desalojamento do poder, essa expulsão do poder: o abandono nunca é individual, ele é sempre coletivo, e nesse sentido, mesmo estando lá, é o partido que deixa de existir no governo.  O PP precisa expressar solidariedade, através de manifestações no plenário de seus integrantes, de notas do partido, etc porque o PP não é Temer: ele até pode ver o começo do fim do seu espaço no governo mas não arquiteta nenhum  plano de vingança; ele não conspira como Brutus, porque aqui, a deslealdade, tem apenas uma direção. Mesmo para o PP, com todos as suas características, por mais que sejam criticados pela esquerda, seus membros são políticos, e como tais, compartilham de não entenderem como é possível a traição na parceria politica,  pois eles sabem que esta deve ter como base a lealdade.

Convenção Nacional do Partido Progressista – PP Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Momento de reflexão

O momento é, portanto, de reflexão dos pepistas sobre o futuro do PP. Se a eleição foi um sonho do partido que se tornou realidade, com o abandono de sua principal liderança,  sua posição no governo dá sinais de estar ruindo como um castelo de cartas. Veja bem mais uma vez: ninguém teria considerado possível, às vésperas das eleições, que isso pudesse acontecer com o poder que o partido detinha, mas  aconteceu. Quem, as vésperas das eleições municipais, poderia ter imaginado o lugar  – ou não-lugar, na expressão do antropólogo Marc Augé –  que hoje ocupa o PP? O partido tornou-se o nosso Lech Walesa, o mesmo que na Polônia, depois de ter liderado eleições, terminou por ser marginalizado por seus parceiros num tipo de reviravolta típica da política. Em ambos os casos, o que o exemplo coloca em discussão é:  o que sobra, mesmo para os poderosos políticos, da confiança politica nos momentos de crise? É quase como se o PP tivesse de morrer duas vezes: primeiro, por ser um partido pequeno no poder e segundo, por ser rapidamente afastado do palco do poder. Não se trata sequer de luta de partidos onde o PP é  colocado pelos estudiosos tradicionalmente no espectro da direita: o que o exemplo ensina é que na atual fase da democracia (sic) da politica local, sequer há espaço para dois partidos de direita no poder: contra a extrema-direita, a direita perde feio. Sequer está em conta para o espectro da direita no poder lutar contra um inimigo comum, é a própria direita que perde seu espaço frente a extrema-direita, algo que nem em sonho a direita poderia imaginar que ia acontecer.  Situação extrema do liberalismo politico em coligações:  que partido de direita vai realmente mandar?

O PP vive o pesadelo da direita:  se conquista o poder com uma coligação de direita, a desordem agora é que a direita descobre que não pode confiar…na direita! Embora visse o governo como um espaço de divisão de poder, o PP não poderia imaginar que a prefeitura seria objeto de um tipo de guerra política interna de outro tipo, por isso o sentimento de abandono é vivido como seu luto, exatamente como definido pela psicóloga de origem suíça Elisabeth Kübler-Ross. Para a autora, as cinco fases do luto, como quando alguém descobre que tem uma doença terminal e que estruturam cada vez mais a nossa vida, são: negação, onde a pessoa recusa-se a aceitar o fato (isto não pode estar acontecendo comigo!); cólera, pela raiva da situação (como isso foi acontecer comigo!); negociação na esperança de ser possível, de adiar o fato de alguma forma (só quero viver até ver meus filhos formados!); depressão,  reconhecimento do fim (vou morrer, para que preocupar-me!) e aceitação, uma escolha racional (não posso lutar, mas posso me preparar!).

Aprender com os inimigos

Foi o filósofo esloveno Slavoj Zizek que lembrou que o mesmo esquema que Kubler – Ross já tornava extensivo a outras formas de perda pessoal – podia também ser aplicada a nossa consciência social e política. Não é exatamente isso que está ocorrendo com o PP neste exato momento? A primeira reação do partido não é a negação ideológica, de que o PP não aceita o fato que foi expulso simbolicamente do governo porque seu líder o foi em seu nome, o partido não nega isso, ele não afirma que não houve uma alteração assim tão fundamental, quando na verdade houve? Não há certa raiva contida expressa no olhar de sua liderança afastada, retratada nas matérias que divulgam o lugar a que ele foi relegado, quase que revelando um politico que deseja explodir de raiva mas engole em seco perante o que considera injustiça da ordem política? Não é evidente que nos bastidores ocorreram tentativas de negociação, onde se cogitou, quem sabe, uma nova função para Krieger no governo ou outro lugar para Paim, forma de dizer que na coligação política tudo continua como antes? E não é possível imaginar, quando em breve, a negociação fracassar, que irá se instalar a depressão, a mesma que já acomete o político, mas agora em  todos os integrantes do partido? Hoje, um político do PP está isolado, ele precisa do apoio dos demais, mas amanhã, será a vez do vice-prefeito e depois de todos os integrantes do PP. O partido pode colocar as mãos no fogo agora? Acredito que não.

Brasília - Deputados do Partido Progressista durante reunião da bancada na Câmara dos Deputados. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Brasília – Deputados do Partido Progressista durante reunião da bancada na Câmara dos Deputados.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Este é o momento da encruzilhada do PP do título: a se ver numa situação ameaçado, o que deve o partido fazer?  É que o PP  foi confrontado com o cinismo político em estado puro. Em Viver no Fim dos Tempos, Zizek sugere que para sair do impasse deve-se sempre aprender com os inimigos. O filósofo conta a história do encontro de Mao com Nixon e Kissiger, quando ele teria dito: “gosto de negociar com pessoas de direita. Dizem o que pensam realmente – não são como as pessoas de esquerda que dizem uma coisa e querem dizer outra…”. Nesta observação, há uma verdade às avessas que se dirige ao PP: a lição de Mao ao PP é de que o partido pode aprender muito analisando o modo de se comportar da extrema-direita.  A extrema direita, como a extrema esquerda caracterizada por Mao, “dizem uma coisa e querem dizer outra”. Não foi o que aconteceu ao  PP na coligação,  de que acreditou numa coisa quando seu aliado queria dizer outra?

No pensamento de Zizek,  embora a fé cega e o inesperado possam ter vitimado o PP no poder, o partido deve, apesar de tudo, insistir que ainda tem alguma verdade a defender, algo que só o integrante do PP é capaz de ver para libertar-se do peso da mentira em que o próprio foi vítima. Para mim o ato de revolta seria a saída de um governo, mas ela é sempre um desfecho doloroso, mas honroso, a saída, ao contrário do que está agora ocorrendo, não pode ser de um individuo somente, mas de todo um partido. Ela traz uma grande vantagem para os seus integrantes: assumir publicamente que algumas medidas de governo não lhes passava pela boca do estômago. Mesmo que o partido fique condenado a perder tudo o que conquistou no desfecho, a luta não terá sido inútil porque a até a direita ainda está para descobrir o que pode substituir realmente a lealdade na política. Ainda há algo de sua identidade partidária, algo fundamental entre pares que por sí só já vale para o futuro político de cada um como uma pequena vitória: significa a afirmação da identidade pepebista como valor, que mesmo que a esquerda não acredite que exista, mostra para seus eleitores que eles são capazes de fazer algo em defesa de sua própria história.

Senadora Vanderberg

Não foi o que aconteceu no episódio 16 da 1ª temporada de Designated Survivor? No seriado, Kiefer Sutherland é o Presidente dos Estados Unidos Thomas “Tom” Kirkman, ex-Secretário de Habitação de Desenvolvimento Urbano, que aceitou ficar na Presidência após um ataque sem precedentes ao Capitólio. Neste episódio, o Presidente Kirkman tem um importante desafio a frente: fazer aprovar pelo Senado um importante projeto que exige antecedentes para a compra de armas. Kirkman está numa situação delicada, os votos estão no limite e a qualquer momento ele pode ter um revés. A tensão aumenta  quando ele perde um voto decisivo e tem um empate, e lá, como não há vice-presidente, não há como definir a votação e projeto perdido. Mas eis que uma senadora desconhecida, senadora Vanderberg, cujo voto já era previsto, muda sua posição e favorece Kirkman. Ele vence e curioso por saber suas razões, convida-a para uma reunião na Casa Branca  “Porque mudou de posição?” pergunta Kirkman, ao que a senadora responde “Eu não concordava em tudo com meu marido, e questão das armas era uma dessas coisas. Mas mudei meu voto ao ver sua esposa enfrentar Bowman (o autor do projeto) ontem, isso me lembrou que eu também podia enfrentar”. O PP é a nossa senadora Vanderberg: existirá um momento em que a bancada do PP na Câmara terá que contar apenas com a sua coragem para votar contra as expectativas do governo, nos instantes que terá de ouvir a sua voz interior para ele ser o que ele é. Há muitas coisas no pacotaço do governo que o PP não concorda, mesmo integrando sua base.  Como a senadora um dia próximo o PP terá de ter coragem de defender sua posição para honrar a memória de Krieger, mesmo que isso signifique votar contra as expectativas do Prefeito.

 

downloadJorge Barcellos é Articulista do Estado de Direito, responsável pela coluna Democracia e Política – historiador, Mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. É autor de “Educação e Poder Legislativo” (Aedos Editora, 2014), coautor de “Brasil: Crise de um projeto de nação” (Evangraf,2015). Menção Honrosa do Prêmio José Reis de Divulgação Científica do CNPQ. Escreve para Estado de Direito semanalmente.

 

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