Réplica ao texto “O grande FMI universitário. Como o colonialismo domina os estudos decoloniais” de Safatle. Revista Piauí. Edição 232, Janeiro de 2026.
Danilo Assis Clímaco[1]
O que gostaria com este texto é que quem haja lido o artigo de Safatle possa saber que tanto Aníbal Quijano a maioria dos pensadores “decoloniais” (Quijano nunca se denominou assim) são anticapitalistas e, também, marxistas, ainda que não exclusivamente. Seu pensamento sempre se preocupou em evidenciar que a crítica ao eurocentrismo e à modernidade realmente existente não deveria abdicar de amplas alianças que dessem conta do inteiro padrão global de poder, para o qual é, mais que indispensável, central a luta contra o capitalismo[2]. Dessa forma, devem ser considerados como aliados por quem, como é o caso de Safatle, acredite ser imprescindível “desintegrar esse sistema (o capitalista) porque ele não consegue funcionar sem discriminar raças, espoliar populações e precarizar povos”[3].
Admiro Safatle, por isso mais que indignado, fiquei triste e decepcionado com seu texto. Mais do que uma deficiente interpretação, a sua foi uma “não-leitura” dos autores. Indício disso é que ele escolheu iniciar a crítica aos “decoloniais” a partir da questão da “modernidade”, à qual Quijano –como também Enrique Dussel, outro notório marxista considerado “decolonial”– dedicou dezenas de textos. Alguém com uma aproximação mediana à teoria “decolonial” saberia das dimensões da tarefa e não iria se expor mediante uma crítica generalista de três ou quatro parágrafos. Na medida em que não está em dúvida a honestidade política e intelectual do Safatle, somente podemos pensar que, após um ano devendo o artigo para a Piauí, excessivamente “autoexplorado”[4] como todas nós, terminou ele por fazer um texto confiando nas leituras antigas que acreditava guardadas em sua memória, mas na verdade, estavam já perdidas, pelo qual tomou como verdadeiro o que eram estereótipos.
Segundo Safatle, para os “decoloniais”, uma “crítica verdadeira à colonialidade deve entender a própria modernidade como um empreendimento colonial, eurocêntrico e, por isso, incapaz de produzir coordenadas para um pensamento crítico”. Em troca, ele argumenta algo com o qual os “decoloniais” coincidiriam, por exemplo, que “não faz sentido algum transformar a “modernidade”, monoliticamente pensada, em um objeto de crítica. O mais correto seria recordar que lidamos, desde sempre, com modernidades em conflito”.
Não sou um exegeta da obra de Dussel, um dos maiores referentes do pensamento decolonial, mas é amplamente conhecido que seus trabalhos sobre “transmodernidade”, referem-se às formas como os diferentes povos do mundo interpretam a modernidade, e o faz de uma forma parecida a como Safatle interpreta (elogiosamente) o pensamento sobre a questão de Silvia Rivera Cusicanqui[5].
Quijano, por sua parte, tem uma leitura da modernidade a meu modo de ver sumamente original para quando a iniciou, em 1986. Seu objetivo era o de mostrar que o (unilateralmente) violento encontro de mundos ocorrido nas Américas levou a que todos os povos envolvidos fossem conscientes de que seus respectivos mundos, já indefectivelmente entrecruzados, deveriam ser reconstruídos a partir de um horizonte de futuro que até então não estava dado. Nos anos 80, talvez somente André Gunther-Frank (ainda que de uma forma excessivamente economicista), parecia interessar-se no que denomino uma construção não eurocêntrica da modernidade. Hoje, os pensadores indianos e ingleses que estão ao redor da corrente chamada “história mundial” e pensadoras/es independentes como Jack Goody, Josephine Queen e o mais conhecido David Graeber caminham em direção parecida[6]. Para Quijano –de forma parecida a Graeber- o acontecimento decisivo na transformação da perspectiva europeia foi a descoberta nas Américas de sociedades onde, sem negar a existência de exploração e opressão, existia, no entanto, pactos que permitiam que as populações internas tivessem uma vida digna. Quijano destaca principalmente a surpresa dos espanhóis ao descobrirem que inexistia memória de fome nos Andes[7], enquanto Graber e Wengrow ressaltaram o impacto sobre franceses e ingleses das práticas democráticas dos iroqueses[8]. Crucial aqui é o fato de que essas formas políticas democráticas foram valorizadas, por motivos óbvios, pelas populações exploradas nas Europas e não pelas elites. A questão racial foi, assim, crucial não somente pelo fato de legitimar a escravização e a servidão indígena, mas também para procurar obstaculizar as alianças espontâneas que surgiam nas Américas entre pobres e explorados de diferenças procedências. Desta forma, o intercâmbio entre os povos indígenas, afros e os povos explorados racializados como “brancos”, que Safatle com razão reivindica, sempre esteve presente no pensamento sobre a modernidade de Quijano.
Como também sou sobreexplorado, não vou entrar em outros argumentos maiores sobre os quais Safatle discorreu, pois acredito que já estão suas leitoras/es suficientemente alertadas. Limitar-me-ei a evidenciar alguns dos estereótipos sobre a “decolonialidade” em que ele, como numerosos outros, cai:
- O pensamento “decolonial” obvia ou minimiza a crítica ao capitalismo. Diz Safatle: “Certamente, a racialização é um dos dispositivos mais violentos da exploração capitalista, e nisso Quijano está totalmente certo. Mas há consequências distintas quando afirmamos que a raça é o dispositivo central de sujeição social e quando dizemos que é o dispositivo central da sujeição capitalista. O racismo desempenha papéis muito diferentes dentro e fora do capitalismo”. Para mim é difícil entender o Safatle aqui, pois para Quijano não há raça fora do capitalismo e, consequentemente, não há como lutar contra a raça sem lutar contra o capitalismo. O que para Quijano é fundamental é o fato de que a diferença racial supõe uma cisão entre as pessoas cujo trabalho é explorado, impedindo uma aliança que de outra forma seria factível. Da mesma forma, o racismo permitiu a emergência do caráter eurocêntrico da modernidade, supondo que os europeus em geral (inclusive e principalmente as/os exploradas) acreditassem que são superiores aos outros povos e que a dominação de suas elites sobre eles era legítima e benéfica. Assim, a centralidade da “raça” se deve ao fato de que ela é tanto material como intersubjetiva, tanto permitiu a escravização massiva e a posterior sobre-exploração de indígenas e afros, como favoreceu a construção de um imaginário mundial que desumanizou os povos não-brancos e usurpou sua participação na construção do mundo moderno, de forma que os povos empobrecidos racializados como “brancos” poderiam ser explorados dentro de condições relativamente dignas, sem perceber a relativa proximidade de sua condição com a dos povos não-brancos.
- Que o pensamento o “pensamento decolonial” é fruto da academia dos EUA. É verdade que uma parte importante do grupo informal “Colonialidade/Modernidade” está composto por docentes latino-americanas nos EUA, como Walter Mignolo, Maria Lugones, Arturo Escobar ou Agustin Lao-Montes, outros não, como o venezuelano Edgardo Lander, assim como os inspiradores do grupo, Dussel e Quijano, ainda que o último, por quase trinta anos, deu seis semanas de aulas anuais no (marxista) Centro Fernando Braudel. Porém, residiu quase sempre em Lima, com algumas estâncias na Venezuela, em São Paulo e em Porto Rico. Todos eles (também autoras que posterioramente se aproximariam ao grupo, como Rita Segato) participavam de redes latino-americanas muitos anos antes.
- O “pensamento decolonial” é despolitizado ou aplica o mesmo medicamento para todos doentes. É notoriamente conhecido que Lugones, Lao-Montes e Escobar participam em numerosos espaços políticos extrauniversitários, principalmente em seus países de origem, conscientes das enormes complexidades de cada caso. Dussel e Quijano oferecem dois exemplos muito diferentes de pensar a política. O filósofo argentino esteve profundamente ligado ao projeto político do Morena de López Obrador e Sheinbaum, tendo aceitado ser reitor da Universidad de la Ciudad de México, criada pelo primeiro e atuando de maneira direta na Constituição da Cidade do México, redigida em 2017. Ofereceu um importante apoio aos governos progressistas da América do Sul, especialmente os de Venezuela e Bolívia. Quijano, por sua vez, enfrentou-se a três ditaduras, tendo sido preso numerosas vezes, obrigado a se exiliar e abandonar sua docência na universidade pública. Participou de diferentes movimentos populares e até 1983 escreveu jornais que vendia nas portadas das fábricas. Quando o “intercambio terrorista” entre o exército e Sendero Luminoso esfacelou a esquerda peruana, sua participação política diminuiu, porém seus numerosos escritos contra o governo Fujimori, sua denúncia contra a continuação do neoliberalismo sob Todelo são exemplos de que sua atitude combativa e anticapitalista não se extinguiu. Acompanhou de perto o ressurgir dos movimentos populares a mediado dos anos noventa, principalmente na Bolívia, no Equador e na Venezuela, e foi muito crítico com os governos que se estabeleceram nestes países, não por anti-estatismo ingênuo, mas por seu centralismo crescente[9]. É importante aqui mencionar Edgardo Lander, que inicialmente apoiou e participou do governo de Chávez, mas que leva muitíssimos anos denunciando a centralização e corrupção da sua administração, mesmo antes da morte do tenente coronel presidente. Aqui, uma entrevista feita a ele após o ataque imperial e o sequestro de Maduro: https://youtu.be/_P18W5oHx7U?si=AmYWSmMBwEVRY5UD. Outros “descoloniais” são defensores acérrimos do processo venezuelano. Podem imaginar o nível das discordâncias internas ao grupo. Dizer que há aqui uma única receita de fazer política é outro indício de desconhecimento sobre o campo.
- O pensamento “decolonial” ignora ou minimiza o pensamento anterior. É verdade que, ao afiançarem uma crítica ao eurocentrismo mais sutil e profunda do que se poderia imaginar no século XX e ao terem realizado uma revisão histórica ampla, não economicista, da modernidade capitalista/colonial, os “descoloniais” acreditam participarem de um momento novo no pensamento mundial e latino-americano. No entanto, as referências prévias estão sempre aí. Mignolo, por exemplo, recupera Rodolfo Kusch e Sergio Bagú, Aníbal Quijano, em particular, se refere constantemente a Mariátegui e a José Maria Arguedas, aos debates sobre a dependência, à crítica à noção de “indígena” de Guillermo Bonfil Batalla ou à amplitude da capacidade analítica de Florestan Fernandes[10].
Para terminar, gostaria apenas de mencionar que o grupo “Modernidade/Colonialidade” nunca foi um grupo como tal, mas um espaço de discussão entre pesquisadoras/es em igualdade formal, cada quem com suas linhas próprias de pesquisa. Porém, reconheciam que Quijano e Dussel tinham uma trajetória maior e eram considerados como mestres. O termo “decolonial” foi usado por alguns deles, mas muitos, como Quijano, Escobar ou Lander, não o usam. No entanto, não somente todo o grupo “Modernidade/colonialidade” é amplamente conhecido como decolonial, como também o são quase todos os intelectuais latino-americanos contemporâneos, incluindo alguns que são muito críticos aos “decoloniais”, como a própria Silvia Rivera ou Bolívar Echeverría. Minha ideia é que deve primar aqui a autodenominação, pelo qual mantive entre aspas o termo.
Agradeço às conversas que tive, a partir de uma versão preliminar do texto, com Paula Balduino de Melo, Salvador Schavelzon, César Baldi e Deni Alfaro.
PS: todos os artigos do Quijano aqui citados podem ser encontrados nesta pasta de livre acesso, que consta de cerca de 200 arquivos: https://drive.google.com/drive/mobile/folders/1llypaN-3QeoP-nIYpklJM7Po3wJhkbjg?usp=sharing_eil&ts=5cdf0cb0&pli=1
[1] Professor de antropologia na Universidad Nacional Autónoma de San Marcos (Lima). Organizou junto com Raphael Hoetmer uma antologia de textos de Aníbal Quijano, a ser publicada no Brasil em breve pela editora Elefante. Não se considera “decolonial”. Poderia ser, em todo caso, descolonial ou anti-colonial, assim como latino-americanista, anticapitalista e profeminista. Está terminando um livro sobre a história das políticas de masculinização nas Américas e desenvolve trabalhos de educação popular com movimentos sociais sobre masculinidades.
[2] Para estes temas, na obra de Quijano, ver especialmente: “La nueva heterogeneidad estructural de América Latina”. En ¿Nuevos Temas, Nuevos Contenidos?. Heinz R. Sonntag (comp.)UNESCO-Nueva Sociedad, 1989. Caracas, Venezuela, “Colonialidad del poder y Clasificación Social”. En Festschrift For Immanuel Wallerstein. En Journal of World Systems Research, vol. VI, No. 2, Fall/Winter, pp.342-388. Special Issue. Giovanni Arrighi and Walter L. Goldfrank, eds. Colorado, 2000 e “Colonialidad del Poder, Globalización y Democracia”. En Tendencias Básicas de Nuestra Epoca, Caracas, Instituto de Altos Estudios Internacionales Pedro Gual, 2001. Todos os textos aqui citados estão na seguinte pasta: https://drive.google.com/drive/mobile/folders/1llypaN-3QeoP-nIYpklJM7Po3wJhkbjg?usp=sharing_eil&ts=5cdf0cb0&pli=1
[3] Todas as citações de Safatle se referem ao texto mencionado que, no formato ao que tive acesso, carece de paginação.
[4] É uma ironia. O mundo capitalista condicionada toda nossa vida e a “autoexploraçao” não é mais do que o fruto de um estado de angústia permanente ligado à imposição sobre nossas subjetividades da autovalorização do valor. O equatoriano-mexicano Bolívar Echeverría, pouco conhecido no Brasil, é quem tem as reflexões mais enriquecedoras ao respeito, a meu modo de ver, superiores às do também grande Robert Kurz, crítico do valor mas conhecido no Brasil. A UNAM tem uma página web dedicada a seus escritos: https://bolivare.unam.mx/
[5] Sou consciente que Silvia Rivera não tem nenhum respeito por Dussel, o que quero ressaltar aqui é que aquilo que Safatle elogia na obra da socióloga boliviana, também aparece na de Dussel.
[6] Os títulos dos livros já são evocativos da radicalidade do giro na compreensão da história mundial que, de alguma forma, Quijano prefigurou: GUNDER FRANK, André. Re-orientar: la economía global en la era del predominio asiático. España: Universidad de Valencia, 1998. GOODY, Jack. El robo de la historia. Ediciones Akal, 2023. QUINN, Josephine. Cómo el mundo creó Occidente: 4.000 años de historia. Madrid: Crítica, 2025. GRAEBER, David. El Estado contra la democracia. Errata Nature: España, 2021. GRAEBER, David. WENGROW, David. El amanecer de todo. Una nueva historia de la humanidad. Barcelona: Ariel, 2022 (há versão em português).
[7] Desde os trabalhos de Murra nos anos 50 se sabe que, ao contrário do que pensaram os espanhóis, não foram os incas os responsáveis pela fantástica política alimentícia andina, mas sim os ayllus, as grandes comunidades, cujos territórios dispersos permitiam o cultivo de uma vasta gama de produtos que nunca eram simultaneamente alcançados por desastres naturais. Da mesma forma, o resguardo de tubérculos desidratados nos tambos permitia um estoque nutricional alternativo. O Império Incaico teve, para alcançar o controle territorial, que negociar e permitir uma ampla autonomia aos ayllus, a pesar de que, sim, poderiam destruir de forma impiedosa aqueles que procurassem se insurgir. Graeber y Wengrow também tocam esta questão. Ver: MURRA, John V. La organización económica del Estado Inca. México: Siglo XXI, 1978 e, do Quijano, Modernidad, Identidad y Utopía en América Latina. lima: Sociedad y Política Ediciones, 1988.
[8] GRAEBER, David. WENGROW, David. El amanecer de todo. Una nueva historia de la humanidad. Barcelona: Ariel. 2022 (há versão em português).
[9] Nós brasileiros vimos os governos do PT serem sempre acompanhados de parlamentos conservadores. Não foi esse o caso dos países andinos. Rafael Correa, Evo Morales e Chávez contaram sempre com amplas maiorias parlamentárias, no entanto, suas propostas de transformações econômicas e políticas foram tímidas e a concentração de poder, notória. Vejam, por exemplo, o papel conservador do governo de Evo no processo constituinte no livro de Salvador Schavelzon: El nacimiento del Estado Plurinacional de Bolivia. Etnografía de una Asamblea Constituyente (La Paz/Buenos Aires: Plural/CLACSO, 2012): https://libreria.clacso.org/publicacion.php?p=754&c=1.
[10] Ver especialmente os seguintes textos de Quijano: “”Raza”, “Etnia” y “Nación” en Mariátegui: Cuestiones Abiertas”. En José Carlos Mariategui y Europa: La otra cara del descubrimiento. Lima: Ed. Amauta. 1992, “Mariátegui contra la Expropiación de la Utopía” (com Gustavo Gutiérrez). En Cuestión De Estado, año 2, Nos. 8-9, 1994. Lima, “Florestan Fernandes: una biografía completa”. En Estudos Avançados, 10 (26), 1996, Instituto de Estudos Avançados, Universidade de São Paulo, São Paulo, “El nudo arguediano”. En Centenario de José María Arguedas: sociedad, nación y literatura. Lima: Universidad Ricardo Palma, Editorial Universitaria, 2011.