“A Sensatez me Absurda”. LBS/Lado Advogadas e Advogados Loguércio

Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito

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Título Original – “A Sensatez me Absurda”. LBS/Lado Advogadas e Advogados Loguércio – Beiro – Surian. Calendário de 2026 da Rede Lado

Acabo de receber, como cortesia de LBS Advogadas e Advogados, a edição 2026 do calendário concebido para a Rede Lado e os escritórios que a formam, engajados, para esta edição 27 deles, incluindo o LBS dirigido pelos advogados José Eymard Loguércio, Nilo Beiro e Eduardo Surian.

A Rede Lado é um coletivo de advocacia trabalhista com atuação em 15 estados brasileiros, focado na defesa da democracia, dos direitos trabalhistas e dos movimentos sociais. Criada para unir escritórios de forma horizontal e cooperativa, assessora sindicatos e confederações com compromisso ideológico e atuação conjunta. O coletivo assim formado se reconhece em suas principais características e focos, na atuação jurídica centrada no Direito do Trabalho (coletivo e individual) e Previdenciário, presença em diversos estados, consolidando uma rede de escritórios de advocacia e, sobretudo, pelo compromisso social de uma atuação sempre na defesa dos direitos humanos, da cidadania e das organizações sindicais.

Também é notável a articulação da Rede para ativar instrumentos de reflexão e de intervenção político-intelectual por meio de seus vínculos com organizações que se incumbem da agenda de estudos, encontros e seminários, como o Instituto Lavoro (que organiza e realiza encontros, diálogos, debates, cursos, treinamentos técnicos, seminários, congressos, bem como promove a participação dos associados em conferências e fóruns nacionais e internacionais e estabelece intercâmbio com associações culturais, universidades e escolas, institutos e fundações congêneres nacionais e estrangeiras) e o Instituto Declatra (que tem como finalidade a produção de conhecimento científico nas áreas social, de educação, cidadania e na defesa dos princípios democráticos. Articulado em uma rede de advogados, acadêmicos, políticos, jornalistas, entidades da sociedade civil, visando uma sociedade mais justa e igualitária com desenvolvimento econômico e social).

Eu próprio tenho tido a oportunidade de contribuir nesse campo articulado, com escritos e com participações em seminários e encontros, com registros aqui neste espaço Lido para Você, conforme https://estadodedireito.com.br/relacoes-indecentes/; meu texto Resistência ao Golpe de 2016: Contra a Reforma da Previdência, in O Golpe de 2016 e a Reforma da Previdência. Narrativas de Resistência. Gustavo Teixeira Ramos et al (coord). Bauru: Projeto Editorial Praxis/Instituto Defesa da Classe Trabalhadora, 2017; 4º Seminário presencial da Rede Lado, com a temática “Crise de Hegemonia e Mundo do Trabalho: criticar o excludente, construir o inclusivo”, São Paulo, 2024.

Em todas essas incidências, sempre em interlocução com José Eymard Loguércio, da LBS que me ofereceu, aliás, o calendário, em sua concepção tendo tudo a ver, com o Manifesto do Coletivo de Advogadas e Advogados que o formam, e que respondem ao seu escopo, segundo o qual, “o trabalho, ao se assumir como dimensão fundante do ser humano em ser social, torna-se vetor estruturante da integridade da pessoa humana, em suas múltiplas relações e direitos que devem ser defendidos, ampliados e garantidos, tanto individual, quanto coletivamente. Todo aquele que vive do seu trabalho, independentemente da forma jurídica, tem direito a uma vida digna e decente e a um futuro menos desigual, que seja mais solidário, com respeito às culturas, às diferenças e ao meio ambiente”.

Nessa interlocução com Eymard, que remonta a seu tempo de estudante em Campinas (PUC), prossegue com o estreitamento de vínculos na condução do Projeto O Direito Achado na Rua (Eymard é autor no volume 2, da Série O Direito Achado na Rua: Introdução Crítica ao Direito do Trabalho, Organizadores José Geraldo de Sousa Junior e Roberto A. R. de Aguiar, Brasília: Editora UnB, 1993, com o artigo Liberdade Sindical: Construindo Novos Direitos e Reafirmando a Força Simbólica dos Direitos Adquiridos (p.214-224) e depois na UnB, sobretudo entre 1995 – 1999, quando elaborou e defendeu sua dissertação de mestrado PLURALIDADE SINDICAL: DA LEGALIDADE À LEGITIMIDADE NO SISTEMA SINDICAL BRASILEIRO, que orientei, resultando no livro Pluralidade Sindical – Da Legalidade à Legitimidade No Sistema Sindical Brasileiro, editado pela LTR, que prefaciei, destacando no trabalho a investigação das “possibilidades de atuação dos atores sociais nas porosidades das normas constitucionais, em perspectiva de superação do modelo corporativo e de estruturação de um sistema pluralístico. Analisa a convivência pluralista na cúpula do sistema sindical e as consequências da interpretação constitucional aberta à leitura e prática dos diversos atores: Judiciário, Sindicatos e Empresários. A abertura hermenêutica estabelece novo parâmetro de avaliação para a estruturação do sistema sindical brasileiro no caminho da pluralidade e da legitimidade”, num percurso ainda motivado, marcado por seu doutoramento em andamento no Programa de Direitos Humanos e Cidadania, do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da UnB. De Eymard vale conferir também, na playlist do Canal YouTube de O Direito Achado na Rua (https://odireitoachadonarua.blogspot.com/p/canal-no-youtube.html), relevo para https://expresso61.com.br/impactos-do-golpe-de-16-nos-direitos-trabalhistas-e-sindicais-jose-eymard-o-direito-achado-na-rua/.

Volto ao Calendário. Todo ilustrado com criações de Aurelino dos Santos (1942-2026), a escolha artística ganha significado, registra a Rede Lado, quando “Aurelino dos Santos se foi. De todos nós, da Rede Lado, um grande muito obrigado! A Rede Lado teve o prazer de contar com a generosidade da arte de Aurelino dos Santos em seu calendário anual de 2026. Conhecer e distribuir, em cada canto do Brasil, um pouco das suas pinturas e poder se aproximar de um artista com tamanha presença em vida foi, para nós, um grande privilégio. Aurelino tem uma história marcante, uma contribuição imensurável à arte baiana e nacional. Sem dúvidas, deixará saudades aos que conviveram, amavam e compartilhavam sua existência. A todos, nosso abraço e condolências. Agora, Aurelino deixa sua marca à eternidade! Todo reconhecimento à equipe e ao artista!”.

Luara Dias, sócia de LBS, me esclarece que a seleção das imagens é coletiva, todo ano há uma votação para definição das imagens. Já é uma tradição no escritório e, de uns anos para cá é feita em conjunto com outros escritórios da Rede Lado.

Antes, o texto de apresentação, assinado por Denise Arantes e Lara Luedemann, tomando da poesia de Manoel de Barros a estrofe A SENSATEZ ME ABSURDA, com ela e com a arte de Aurelino, roteiriza a proposta do calendário:

 

Para além do que os olhos veem, ao nos envolver em uma multiplicidade de traços, formas e cores, a obra de Aurelino dos Santos, de pronto, nos entrega o inconsciente lúdico de quem observa o cinza e o traduz surpreendentemente em fractais de um caleidoscópio de formas modestas e cores diversas que despertam bem mais que o evidente nas páginas do Calendário de 2026 da Rede Lado.

Entre linhas e transversais, lados se apresentam e coletivamente formam figuras e palavras que nos conectam com o sentir, com o imaginário firme e colorido de grandes metrópoles, como Salvador, cidade pela qual persistem em passar os pés, os pinceis e a inquietude artística de Aurelino.

Ao vibrar na dicotomia entre a brutalidade das cores densas e intensas e a suavidade das linhas e traçados que delimitam e limitam uma infinitude de formas, a subjetividade única e o olhar singular do artista sobre o mundo, nos resgata do cotidiano das massas cinzentas e nos transporta para o universo imaginado e encantado daquilo que muitas vezes é encoberto.

A arte que retrata o inconsciente e a história das lutas sociais brasileiras se encontram na proposta comum de tornar visível o que normalmente permanece oculto. De um lado, o mergulho subjetivo nas camadas profundas da mente humana; de outro, a reconstrução da memória coletiva, feita de resistência, rupturas e conquistas. Ambas as expressões — a artística e a histórica — desafiam o silêncio e a invisibilidade, trazendo à superfície aquilo que, muitas vezes, foi esquecido, negado ou reprimido.

A conexão entre essas duas linguagens reside na potência da expressão: tanto o artista quanto as lutas sociais revelam algo essencial, mas frequentemente silenciado — nossas dores, nossos desejos, nossas batalhas. Ao colocar lado a lado a subjetividade íntima e o enfrentamento coletivo, abrimos espaço para um olhar mais complexo sobre quem somos.

Que as andanças e vivências de Aurelino nos sirvam de combustível para seguirmos andando e vivendo, saboreando as cores do caminho e aproveitando traços, linhas e lados que a vida nos apresenta.

 

Essa modelagem, que abrange folhinhas, agendas, com sua forma narrativa, configura o que se denomina Agenda-livro (https://estadodedireito.com.br/agenda-latino-americana-mundial-2024/ ), uma combinação do sensível e do racional, do social e do político. Assinala os dias, seus eventos, seus vestígios, o simbólico, lembra histórias, faz a memória resgatar compromissos, marca as alianças.

Acabo de receber a Agenda Latinoamericana mundial – Educação Política. Ela dá a continuidade a seu conceito de agenda-livro, no seu propósito de Projeto Político Pedagógico Popular urgente, necessário e possível. Guarda fidelidade à metodologia do ver, julgar e agir, para articular temas e análises (artigos), que traduzam a denúncia, a análise da realidade dos sistemas desumanizantes para orientar ações que permitam tecer outros mundos possíveis, dentro do mesmo mundo e ainda oferece um roteiro para estudos dos artigos (preparação de ambiente, leitura atenta, partilha de ideias em rodas de conversa, aprofundamento coletivo ou reflexão pessoal e síntese de compromissos). Recupera a memória pelo registro dos aniversários maiores em 2026 do martirológio latino-americano mundial, não deixando de ser calendário.

Todas elas, em sua modelagem, revelam o exercitar do político e também do jurídico com engenho e arte (Lutero: “jurista que é só jurista é uma triste e pobre coisa”); longe do vaticínio de Bartolo da Sassoferrato: “i meri leggisti sono puri asini” (os meros juristas são puros asnos):“Fazemos da Advocacia Inclusiva a Nossa Primordial Missão: exercê-la para ocupar o espaço jurídico, de forma a instrumentalizar o protagonismo da classe trabalhadora, dos movimentos sociais, das comunidades originárias, das entidades de classe e quaisquer outros sujeitos coletivos de direito, na defesa de suas causas, individuais e coletivas”, indicou Cezar Britto, coerente com o sentido de compromisso do que depois ele assimilou como conceito de sua banca de advocacia, segundo ele, com minha sugestão, por se constituir uma advocacia de inclusão (ver https://estadodedireito.com.br/agenda-2021/).

Retiro dessa resenha, a indicação de que ao examinar a agenda de Cezar Britto Advogados, já pudera encontrar nessa peça inesperada, material para referências a agendas e anuários e o seu alcance reflexivo, por exemplo, do Anuário LBS ADVOGADOS & INSTITUTO LAVORO.  O Anuário 2020 me pareceu um acervo, ao estilo dos repositórios acadêmico-profissionais, com conceito. Apontar para o futuro que quer disputar (2021) mas avaliar o caminho percorrido, com a lucidez de que aqui e lá são “Estranhos Tempos. Tempo único”: “Foi um ano em que nos ajudamos, nos solidarizamos, buscamos construir e ter mais conhecimento. Este Anuário 2020 retrata o trabalho de todas e todos da LBS”.

Lucidez aparece, pois, como amalgama de inconexidade ao jeito de Manoel de Barros marcador do Calendário:

 

Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.

Sou formado em desencontros.

A sensatez me absurda.

Os delírios verbais me terapeutam.

Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).

(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrava um título para os seus poemas. Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)

As antíteses congraçam.

 

 

|Foto Valter Campanato
José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil,  Professor Titular, da Universidade de Brasília,  Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.55

 

 

 

 

 

 

 

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