A esperança que vem de O Poço

Coluna (Re)pensando os Direitos Humanos, por Ralph Schibelbein*, articulista do Jornal Estado de Direito.

 

 

        Se 2020 virasse filme, teríamos um roteiro para uma bela produção cinematográfica de distopia. Em meio ao confinamento da quarentena, ao menos para os que querem e/ou podem respeitar, cresce a necessidade de consumo artístico. Penso que a pandemia do COVID-19 traz consigo uma reflexão sobre a importância da imprensa, da ciência e da arte. Três áreas, por sinal, que vem sofrendo muito pelo descaso do governo de Bolsonaro.

        A arte é um elemento fundamental para a sobrevivência. Sobretudo em momentos difíceis, ela pode nos fazer companhia e acolher. Ela é capaz também de nos fazer perceber aquilo que vemos, mas não enxergamos. A arte é a brincadeira do adulto. Arte é o que faz a vida valer a pena, ou ao menos, suportável. Pablo Picasso disse que a arte é a mentira que fala a verdade Segundo Martha Nussbaum, a arte auxilia no olhar interior e na empatia. Através de um desenvolvimento de sensibilidade a arte, segundo a autora, “deve estar relacionada à formação do cidadão do mundo, uma vez que as obras de arte costumam ser um modo inestimável para começar a compreender as conquistas e os sofrimentos de uma cultura diferente da nossa.” (NUSSBAUM, 2015)

        Desta forma, queria indicar uma produção da sétima arte. Atualmente o cinema, que tem vindo até nós, principalmente através das novas plataformas, como Netflix. E é lá que está disponível O Poço. Longe de representar uma opção leve e divertida para tentar esquecer o contexto pandêmico que vivemos, esse longa-metragem é um soco no estômago. Ele incomoda. Nos causa desconforto. Mas sobretudo, mexe conosco, com nossas sensações e pensamentos.

        Sendo assim, já teríamos motivos para ver que o filme vale a pena. Mas ele vai além. A produção espanhola, que é classificada como um terror dramático, não assusta tanto por alguma cena, monstros ou algo sobrenatural. Ele nos causa medo é de estarmos caminhando para uma realidade que a obra demonstra. Ou ainda, receio de encarar a realidade e enxergar nela muito do que o filme sugere.

        A história é toda ambientada em uma espécie de prisão vertical. (Um poço), onde separados em duplas, prisioneiros encontram-se divididos pelas centenas de andares. Ao centro de cada andar há um buraco por onde chega a alimentação. Comida que nos primeiros andares é um banquete, mas que conforme a plataforma desce, vai se transformando em restos A cada mês, misteriosamente as duplas trocam e você pode acordar em um novo andar. Mais alto e, portanto, com os privilégios da melhor alimentação; ou mais baixo e tendo que sobreviver com o que sobra.

        Para além de uma crítica à desigualdade e ao sistema capitalista, como parece ficar explicito em um primeiro momento, o filme nos faz pensar sobre o comportamento humano. Partindo dos nossos instintos, refletindo sobre os contratos sociais, os diferentes modelos de organização política, econômica e social, a obra nos convida para um profundo mergulho na humanidade. (com suas fraquezas, peculiaridades e possibilidades).

        Ao longo do filme, a partir de uma fotografia escura, cenas fortes, diálogos marcantes e excepcionais atuações, vamos pensando sobre a possibilidade de mudança. Somos convidados ao exercício da reflexão. De uma simples revolta ou de uma profunda revolução. Afinal, a solidariedade é espontânea e pode trazer consigo uma mudança? Ou somente podemos pensar em querer mudar algo a partir de estarmos em uma experiência traumatizante? Lutar a luta do outro também faz parte de nossa batalha?

        Em um momento que se debate a questão do lugar de fala, mas também a importância de se colocar no lugar do outro, questiona-se sobre o poder da empatia e alteridade. Ao longo do filme, a frase “existem três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem” vai ganhando diferentes significados. E nos estimula a pensar sobre as possibilidades da cooperação, da solidariedade e da interdependência.

        Embora tenha causado uma certa polêmica, me parece que a riqueza maior do filme está no final. Sem querer correr o risco de qualquer spoiler, o desfecho do enredo joga a responsabilidade para o expectador. No que pode parecer um pouco frustrante por não ser um fim confortável e didático, vai se transformando em uma inquietação que gera reflexões, debates, dúvidas e incertezas. Acreditando que essa é justamente uma das funções da arte, lembramos que na incerteza é que mais fortalece-se a esperança. E como diz Nussbaum, que a esperança seja uma escolha, mas também um hábito prático.

 

O Poço (The Platform/El Hoyo) é um filme espanhol de terror e ficção científica de 2019 dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia. – 1h 34min / 16 anos. O elenco do filme inclui Iván Massagué , Antonia San Juan , Zorion Eguileor ,

NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades, Martins Fontes, São Paulo, 2015.

 

 *Ralph Schibelbein é Professor, Mestre em Educação (UDE/ UI – Montevidéu- 2016), onde estudou a relação da educação e dos Direitos Humanos com o processo de (re)socialização. Pós-Graduado em História, Comunicação e Memória do Brasil pela Universidade Feevale (2010), sendo especialista em cultura, arte e identidade brasileira. Possui licenciatura plena em História pelo Centro Universitário Metodista IPA (2008) e pela mesma faculdade é graduado também em Ciências Sociais (2019). Atualmente é Mestrando em Direitos Humanos na Uniritter e cursa licenciatura em Letras/Literatura (IPA). 

 

 

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