Entrevista com Moisés Gomes da Costa, diretor da Federação Nacional dos Petroleiros, sobre o lema “Mais ACT, menos acionista”, a política de dividendos da Petrobras e os impactos concretos da greve na vida dos trabalhadores

Moisés Gomes da Costa

Moisés Gomes da Costa

APRESENTAÇÃO

Moisés Gomes da Costa, dirigente do Sindipetro-RJ e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), trabalhador embarcado na plataforma P-75, no Campo de Búzios, recebeu a diretora do Jornal Estado de Direito, Carmela Grune, na sede do Sindipetro-RJ, no Rio de Janeiro, para falar sobre a greve nacional dos petroleiros, o lema “Mais ACT, menos acionista”, a política de dividendos da Petrobras e os impactos concretos da paralisação na vida dos trabalhadores e trabalhadoras.

SOBRE O LEMA “MAIS ACT, MENOS ACIONISTA”

Pergunta – Queria que tu falasse sobre o lema “Mais ACT, menos acionista”. O que simboliza esse lema e os desafios quanto à gestão da Petrobras?

Moisés Gomes da Costa –
Obrigado pela oportunidade. Eu sou Moisés, diretor do Sindipetro RJ e da Federação Nacional dos Petroleiros, e trabalho embarcado na plataforma P-75, que fica no Campo de Búzios.

O nosso lema desse ano, que é “Mais ACT, menos acionista”, expressa parte da frustração da classe trabalhadora petroleira, que depositou muitas esperanças no governo Lula. Todos os trabalhadores petroleiros, em sua maioria, votaram no presidente Lula no primeiro e no segundo turno, com a esperança de derrotar a extrema direita e frear os ataques neoliberais que a Petrobras vinha sofrendo desde o golpe contra a presidenta Dilma.

A Petrobras sofreu um processo de privatização muito grande. Fatiaram a empresa para vender: venderam refinarias, venderam a BR Distribuidora, venderam a TAG, que era a subsidiária dona dos gasodutos. Enfim, sucatearam a empresa. Nos anos Temer e Bolsonaro, a Petrobras trabalhou exclusivamente para gerar lucro e dividendos para os acionistas. Sofremos um ataque muito grande no ACT.

A vitória do Lula representou uma esperança. Esperávamos que o governo revertesse a privatização, que freasse ataques trabalhistas. Mas estamos frustrados, porque a política de dividendos da Petrobras hoje é quase tão abusiva quanto foi na época do Bolsonaro e do Temer.

Ano passado, a Petrobras distribuiu mais de 100 bilhões de reais em dividendos e apresentou um balanço dizendo que teve lucro de cerca de 36 bilhões, menos de 40 bilhões. Ou seja, distribuiu mais dividendos do que teve de lucro. Ao mesmo tempo, reduziu a nossa PLR a um terço, alegando que os lucros foram baixos. Isso é incoerente: para o acionista não há corte, para os trabalhadores há.

Hoje, no ACT, a Petrobras está oferecendo 0,5% de aumento real, o que chega a ser quase uma piada com a categoria petroleira porque acabou de anunciar 12 bilhões de reais em dividendos antecipados para os acionistas.


APOSENTADOS, OFFSHORE E OUTRAS PAUTAS

Não é só isso. Temos o problema dos aposentados, o PED, o Plano de Equacionamento do Déficit, no plano Petros 1. A Petrobras não quer pagar a parte dela da dívida.

Temos problemas muito grandes com os trabalhadores offshore. A Petrobras não paga nossas passagens aéreas do endereço até o Rio de Janeiro, onde embarcamos. Outras empresas próprias e até terceirizadas que operam plataformas da Petrobras pagam táxi, hospedagem e passagem aérea. A Petrobras não dá nenhum tipo de ajuda.

Às vezes, perdemos voo por causa do tempo e o trabalhador se vê obrigado a pagar dois, três mil reais numa passagem comprada em cima da hora. Entendemos que o ônus da operação tem que ser da empresa.

Além disso, temos a pauta do teletrabalho. Queremos garantir o teletrabalho para todos, especialmente para quem já está em teletrabalho integral, PCDs e pais de PCDs. Hoje o teletrabalho não está regulado em nenhum acordo, o que gera insegurança.


ULTRATIVIDADE E REFORMA TRABALHISTA

Outro ponto muito caro para nós é a ultratividade. A reforma trabalhista de 2017 retirou vários direitos da classe trabalhadora, e um dos piores foi o fim da ultratividade.

Antes de 2017, um acordo coletivo continuava valendo mesmo após o vencimento, até a assinatura de um novo. Isso garantia uma correlação de forças diferente. Se a empresa apresentasse uma proposta rebaixada e não aceitássemos, os direitos do acordo anterior permaneciam.

Hoje, quando o acordo vence, é como se tudo acabasse. Temos que renegociar do zero. Por isso lutamos por mais ACT e menos acionista: queremos que a Petrobras distribua menos dividendos e invista mais.

E não é só salário para os trabalhadores. Queremos investimentos reais, recuperação da PBio, investimentos de fato na matriz energética verde. A Petrobras deveria ser uma das empresas mais importantes do Brasil, mas está sem concurso, sem investimento. Isso é muito triste.


A GREVE E SEUS IMPACTOS DESIGUAIS

Pergunta – Como a greve impacta de maneira diferente os trabalhadores?

Moisés –
A greve foi deflagrada à meia-noite de domingo para segunda-feira. Ela impacta de forma diferente porque a Petrobras tem várias escalas de trabalho. Tem muita gente no administrativo, grande maioria, que trabalha de segunda a sexta, o teletrabalho, o híbrido, o confinado, as áreas operacionais.

Por exemplo, quem está nas plataformas de petróleo ou em campos como Urucu, no meio da Amazônia, embarca para ficar 14 dias. Quando deflagramos a greve, pedimos o desembarque imediato, já que a Petrobras se recusou a negociar contingência.

E, com isso, não é como numa refinaria, onde se declara greve e se sai do local. No offshore, dependemos de helicóptero. Muitos trabalhadores ficaram dias a bordo, mesmo em greve. No meu grupo da P-75, desembarcamos só na quinta-feira, três dias depois.

Ficamos três dias a bordo, em greve, privados do nosso direito de ir e vir, esperando voo. A empresa alegou que não tinha como atender todos os voos. Outros colegas que estavam de folga puderam se apresentar em hotel provido pelo sindicato.

O sacrifício é diferente para cada trabalhador. Alguns estão de férias ou de folga. Outros estão presos na plataforma.


CONTINGÊNCIA, JUDICIALIZAÇÃO E RESISTÊNCIA

Estamos enfrentando agora um problema no Boaventura. A Petrobras apresentou um plano de contingência pedindo 11 operadores, número que todos reconhecem ser excessivo. Há grupos que já operaram com menos pessoas em produção máxima.

É uma hipocrisia a empresa exigir contingência maior do que a operação normal. A Petrobras conseguiu uma liminar obrigando os trabalhadores a cumprir essa contingência. Eles estão sendo obrigados a trabalhar, render turno, cumprir jornada normalmente, mesmo em greve.

É um momento que exige resiliência e solidariedade com os colegas que estão passando por uma situação delicada. Unidos, vamos conseguir nos fortalecer e alcançar uma vitória.


A IMPORTÂNCIA DA GREVE PARA A SOCIEDADE

Pergunta – Qual a importância da população conhecer o movimento grevista da classe trabalhadora petroleira?

Moisés –
Essa política de recompensar ao máximo os acionistas é muito prejudicial ao país. Até meados de 2014, a Petrobras sempre investiu muito. Nunca distribuiu tantos dividendos como agora.

Ela distribuiu mais do dobro do que teve de lucro. Isso remunera o capital, grande parte estrangeiro, fazendo o dinheiro sair do Brasil em vez de virar investimento aqui.

Defendemos a primarização das atividades, geração de empregos de qualidade, investimento em energia verde, biodiesel e biocombustíveis. Isso gera combustível mais barato, meio ambiente mais sustentável com menos poluição, mais empregos, renda e melhora a vida do brasileiro.

Defendemos preços mais acessíveis, o retorno da Petrobras à distribuição de combustíveis. Hoje, mesmo quando a Petrobras reduz preços, isso não chega à bomba porque no meio tem um intermediário, como a Vibra, que não repassa ao consumidor.

A população brasileira precisa criar consciência de que serviços privatizados não é nada bom, são serviços mais caros e, geralmente, de pior qualidade.


ENCERRAMENTO

Muito obrigada, Moisés, e cumprimento pela mobilização. Seguimos vibrando pelo êxito das reivindicações.

O Jornal Estado de Direito informa que encaminhou e-mail ao setor de Imprensa da Petrobras, colocando-se à disposição para garantir o espaço de manifestação da presidente Magda Chambriard, caso assim entenda pertinente.

Foto de Estado de direito

Estado de direito

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