O voo da coruja

Marcus Vinicius Martins Antunes. Advogado, professor de direito constitucional, pós-doutor pela UFRGS. 

 

Ao cair das sombras da noite é que alça voo o pássaro de Minerva”.

A tenta ver a frase como poesia, basta a beleza da imagem. Imaginamos a coruja levantando voo, no escuro, vendo o que não vemos. Na poesia ou na prosa, podemos emprestar ao real aquilo que ele não tem, podemos criar com certa margem de liberdade. O enigma da coruja fica preservado, com seu olhar misterioso, de 180 graus, e seus pios soturnos. Haveria uma bela dama perdida na floresta, ou um menino, alerta, ou com medo do pássaro. Podemos imaginar um desfecho alegre ou triste, dramático ou exuberante. É nossa escolha.

Mas há um outro lado do homem, inquisitivo, lógico, que exige respostas, e vai além da literatura e da metáfora psicanalítica.

Que ave é essa? Quem é exatamente Minerva, nome um tanto nebuloso? Trata-se mesmo de poesia? Entramos no terreno igualmente misterioso, o terreno das perguntas, que se chama filosofia.

A história ensina que Minerva é a equivalente mitológica de Palas Atena, a deusa grega guerreira da sabedoria, filha de Zeus, que mandou fender sua própria cabeça para que ela nascesse. O pássaro de Minerva é a coruja. Era a ave símbolo, que acompanhava e representava a deusa, especialmente em Atenas. Isso se deveria ao fato de enxergar no escuro, ver mais do que podemos, para caçar à noite.

E autor da frase?  É Hegel, no prefácio de Princípios da Filosofia do Direito, início do século XIX. Um importante filósofo idealista alemão, que restaurou o prestígio da dialética para interpretar o mundo e a história.

Hegel explica essa famosa e enigmática frase com outras que a antecedem na obra:

Para dizer, ainda, mais alguma coisa sobre a pretensão de ensinar como deve ser o mundo, lembramos que, em todo caso, a filosofia sempre vem muito tarde. Enquanto pensamento do mundo, aparece apenas quando a realidade completou e terminou seu processo de formação.(…). Quando a filosofia chega em sua luz crepuscular ao anoitecer, uma manifestação de vida acaba de envelhecer”. (…) (grifo meu).

É igualmente tolo supor que uma filosofia qualquer ultrapassará o mundo contemporâneo, como crer que um indivíduo saltará além de seu tempo, cruzará o Rhodus.”, escrevera antes. Em síntese, o filosofo não pode prever, nem prescrever. Somente descrever, depois que as coisas acontecem, no plano universal e no plano da história.

Algo que Marx, décadas depois, contestou dizendo, na tese 11 (Teses sobre Feuerbach, publicado em 1845): “Os filósofos não fizeram mais que interpretar de diversos modos o mundo, mas o de que se trata é de transformá-lo”. Deixemos de lado o debate, de momento. Um bom debate, aliás. E disfrutemos do prazer em apanhar esse encontro entre poesia e filosofia, que não raro ocorre.

Talvez a coruja de Minerva, em seu voo noturno, nos dê resposta para esse dilema entre razão e imaginação, sonho e realidade. O que é certo é que o autor da frase famosa, ao falar como poeta, tornou mais atraente a filosofia.

 

 

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