O urbanismo aberto da América Latina

Gostaria de escrever um diário de viagem, mas a vida me invade e eu não tenho nem tempo nem fôlego nem verbo para descrever o que vejo, o que sinto, o que aprendo, o que apreendo. Há dez dias escuto espanhol como se fosse português e falo portunhol como se fosse espanhol e assim nos entendemos em nossas latinidades. Digo para os hermanos sul-americanos – e eles estão de acuerdo – que el portunhol és la verdadeira integración de los pueblos de la América Latina. Ensino-os a trocar o “b” pelo “v”, o “ue” pelo “o”, o “ie” pelo “e”, o básico dessa língua que nos une.
Compro aqui, recortado em papel cartão, um horizonte de Medellín e outro de São Paulo, de onde salta a mão sangrenta de Oscar Niemeyer. Estamos todos juntos, consertando erros. Estamos todos juntos, concertando soluções. Costa Rica me ensina que de uma coisa muito boa se diz pura vida. Estamos todos juntos e aqui é “pura bida”. No Museu do Ouro de Bogotá está nossa riqueza, o artifício exímio dos povos pré-colombianos, honrando o sagrado em joias minúsculas e grandiosas.
Os povos dos Andes, como os povos das florestas, sabiam que não há separações. As fronteiras são riscos num papel.
***
Escrevi esse texto em fevereiro deste ano, no caminho de Pereira a Armênia, cidades de médio porte localizadas no eixo cafeteiro da Colômbia. Quinze colegas de idades, formações e países diferentes, todos latino-americanos, engajados na resolução de problemas de suas cidades.
Saíamos de Cuba, bairro de Pereira ocupado inicialmente por “desplazados” da guerra civil, sem teto e sem nada, no período denominado “La Violencia”, depois oficialmente refundado em 1961, num projeto de lotes com moradias autoconstruídas, em substituição à precária ocupação original ainda improvisada em bambu e papelão.
A infraestrutura e os serviços públicos foram chegando aos poucos, a população crescendo, e hoje Cuba, uma cidade dentro da cidade de Pereira, é um grande colégio eleitoral do Departamento de Risaralda, detentor de força política que já se revela no nome de algumas de suas comunidades: Leningrado, Havana, Madres Solteiras, La Independencia.
Juntos, olhávamos para essa realidade e para realidades tão diferentes como Oruro, cidade árida a três mil metros de altitude nos Andes bolivianos; Tena, pequena cidade amazônica do Equador; La Paz, cidade do extremo sudoeste mexicano, na península do Pacífico, de lindas praias onde falta água doce para o consumo; da capital Cidade da Guatemala, da Guatemala; de Lima, no Peru, e suas cidades andinas; de São José, capital da Costa Rica, e de Upala, pequena cidade ao norte desse país, situada entre o lago Nicarágua e o vulcão Miravalles; da diversidade de cidades deste Brasil continental.
Olhávamos para o que a Colômbia vem fazendo. Olhávamos para as nossas origens. Olhávamos para onde estamos. Tudo muito irregular. Tudo muita pobreza. Tudo muito por fazer. Pensávamos em como poderíamos seguir. Pensávamos na força do nosso povo, um só povo, aparte a língua, a fisionomia. Pensávamos na força da nossa urbanização, uma só luta, aparte a aridez, os vulcões, os terremotos, as inundações. Pensávamos na força da nossa diferença, uma só diferença, que nos distingue dos europeus, dos japoneses, dos norte-americanos.
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Esses dias, Mujica nos dizia, no Rio de Janeiro, que “temos que começar a pensar como espécie, não apenas como país”; que “quando a maioria melhorar, melhorará tudo”; que “não há porque deixar de ser brasileiro, mas tem que ser latino-americano e depois humano”*.
Há duas semanas, nesta coluna, Wilson Levy chamáva-nos a pensar na nossa recusa simbólica ao ouro de Macondo – a cidade que Garcia Marquez inventou como palco de seus Cem Anos de Solidão – e no quanto temos importado conceitos e “soluções” sem aclimatação.
Há meio ano, depois de um mês de convivência, do meu primeiro terremoto e enquanto o vulcão de Upala entrava em erupção, eu saía da Colômbia com a impressão de que, em matéria urbanismo, nós, latino-americanos, somos titulares de uma linguagem a ser decodificada, de uma identidade a ser valorizada, de um modo de fazer a ser apropriado na solução dos problemas de nossas cidades.
Penso que, superadas as fronteiras da solidão local por um olhar de traço continente, talvez seja mais fácil encontrar a indelegável solução local, bem aqui, no mesmo chão onde mora a sabedoria de nossos ancestrais.

*Tradução: Mídia Ninja (https://www.facebook.com/midiaNINJA/videos/537965823028234/)

Ana Paula Bruno é Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Analista de Infraestrutura do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Gerente de Regularização Fundiária Urbana da Secretaria Nacional de Acessibilidade e Programas Urbanos do Ministério das Cidades. Professora de graduação e de pós-graduação. E-mail: apbruno@yahoo.com.br

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  1. Leticia

    Anita, me emocionei, tanta coisa boa esta coluna me fez lembrar. Tanta inquietação sobre formas de minimizar injustiças que a própria lei e o próprio “desenvolvimento” acarretam… a paixão pelas cidades e sobretudo por quem constroe e “é a cidade” nos move, só isso a dizer.

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