Hannibal Lecter organizacional ou Medíocre inoperante: Perfil do assediador

Coluna Assédio Moral no Trabalho

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Hannibal Lecter organizacional ou Medíocre inoperante: Perfil do assediador

Principiando assunto tão sério de uma forma mais jocosa, tem-se a seguinte classificação do perfil dos assediadores:

a) Pitt-bull: É o chefe agressivo, violento e perverso em palavras e atos. Demite friamente e humilha por prazer;
b) Troglodita: É o chefe brusco, grotesco. Implanta as normas sem pensar e todos devem obedecer sem reclamar. Sempre está com a razão. Seu tipo é: “eu mando e você obedece”;
c) Tigrão: Esconde sua incapacidade com atitudes grosseiras e necessita de público que assista seu ato para sentir-se respeitado e temido por todos;
d) Garganta: É o chefe que não conhece bem o seu trabalho, mas vive contando vantagens e não admite que seu subordinado saiba mais do que ele. Submete-o a situações vexatórias, como por exemplo: colocá-lo para realizar tarefas acima do seu conhecimento ou inferior à sua função;
e) Tasea: “Ta se achando”. Confuso e inseguro. Esconde seu desconhecimento com ordens contraditórias. Começa projetos novos, para no dia seguinte modificá-los. Exige relatórios diários que não serão utilizados. Não sabe o que fazer com as demandas dos seus superiores. Se algum projeto é elogiado pelos superiores, colhe os louros. Em caso contrário, responsabiliza a “incompetência” dos seus subordinados;
f) Profeta: Sua missão é “enxugar” o mais rápido possível a “máquina”, demitindo indiscriminadamente os trabalhadores/as. Refere-se às demissões como a “grande realização da sua vida”. Humilha com cautela, reservadamente. As testemunhas, quando existem, são seus superiores, mostrando sua habilidade em “esmagar” elegantemente;
g) Mala-babão: É aquele chefe que bajula o patrão e não larga os subordinados. Persegue e controla cada um com “mão de ferro”. É uma espécie de capataz moderno. (1)
Destarte, ultrapassado o bom humor, de fato, dependendo do especialista em Assédio Moral no Trabalho, o assediador pode ser diversamente categorizado: perverso narcisista para Hirigoyen; psicopata organizacional para Zabala; “Hannibal Lecter organizacional” para Abajo Olivares ou mero indivíduo medíocre para Leymann e González de Rivera, dentre outros.

Em verdade, é de suma importância estudar as características psicológicas do assediador. Assim, repele-se a insistente e impertinente indagação à vítima para que ela explique o que houve e joga-se luz na única figura que com seus traços psicológicos pode esclarecer, de fato, o porquê dos ataques. Ademais, insere-se o fenômeno em sua dimensão ética, ou melhor, na ausência desta.

Leymann, um dos mais respeitados estudiosos sobre a matéria, parte da premissa que o assediador é, na realidade, um indivíduo inexpressivo, insignificante, anódino e vulgar. Esta pessoa intelectualmente pobre pretende eliminar a vítima que a ameaça, que desencadeia sentimentos de insegurança profissional, evidenciando sua mediocridade. Com profundo e recalcado complexo de inferioridade, responde violentamente contra qualquer um que lhe possa recordar de seu mediocrismo.

Define-se prioritariamente por uma inveja da capacidade do outro que procurará destruir com todos os meios dos quais disponha. O “Hannibal Lecter organizacional” também é um analfabeto, porém, desprovido de inteligência emocional. Justifica indefinidamente todas suas ações a partir de suas verdades absolutas.

Sente-se infalível. Não se importa com as consequências de seus atos e nem com a opinião das demais pessoas. Mente e manipula e seduz. Visualiza os demais como fracos a serem dominados e escravizados. Possui invejável marketing pessoal e, ao mesmo tempo, desprestigia todos em seu entorno. E, maneja a clássica técnica “dividir para vencer”. Por fim, lembre-se o mito grego de Narciso, origem da palavra narcisismo.

 

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Narciso, um belo jovem, era filho do Deus-rio Cephisus e da ninfa Liriope. No entanto, apesar de despertar ninfas e donzelas, Narciso preferia viver só, pois não havia encontrado ninguém que julgasse merecer seu amor. E foi o seu desprezo pelos outros que o derrotou. Na região havia uma fonte límpida de águas cristalinas da qual ninguém havia se aproximado. Ao se inclinar para beber água da fonte, Narciso viu sua própria imagem refletida e encantou-se com sua visão. Fascinado, Narciso ficou a contemplar o lindo rosto e apaixonou-se pela imagem sem saber que era o seu próprio retrato refletido no espelho das águas.

Por várias vezes, Narciso tentou alcançar aquela imagem dentro da água mas inutilmente; não conseguia reter com um abraço aquele ser. Esgotado, Narciso deitou na relva e aos poucos seu corpo foi desaparecendo. No seu lugar, surgiu uma flor amarela com pétalas brancas no centro que passou a se chamar, Narciso. Megalomaníaco, esse assediador move-se obedecendo sentimentos de raiva, ressentimento, medo e inveja. Ostenta fantasias de poder ilimitado e necessita ser admirado e elogiado. Verdadeiramente carente, pensa que pode empregar seu poder para controlar outras pessoas que, sob seu distorcido ego inflado, possam ameaça-lo. (2)

Seja qual for o transtorno que o assediador possua, importa ressaltar que, continua absolutamente responsável pelo “assassinato moral” e pela dor de suas vítimas.
Enfim, encerro com a frase de um querido amigo, crítico e estudioso entusiasta do tema, Rubens Rossetti:

“Escolha seu tipo e procure quem o preencha…” (3)

Referências:
(1) Disponível em: http://www.assediomoral.org/spip.php?article43. Acesso em: 04 ago. 2017.
(2) ZABALA, I. P. y. MOBBING: Como sobreviver ao assédio psicológico no trabalho. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
(3) GONCALVES, R. R. Os Perfis do Assediador. São Paulo: 01 ago. 2017. Disponível em: pge-debate@yahoogrupos.com.br. Acesso em: 05 ago. 2017.

 

Ivanira
Ivanira Pancheri é Articulista do Estado de Direito, Pós-Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2015). Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (1993). Mestrado em Direito Processual Penal pela Universidade de São Paulo (2000). Pós-Graduação lato sensu em Direito Ambiental pela Faculdades Metropolitanas Unidas (2009). Doutorado em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente é advogada – Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. Esteve à frente do Sindicato dos Procuradores do Estado, das Autarquias, das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo. Participa em bancas examinadoras da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo como Professora Convidada. Autora de artigos e publicações em revistas especializadas na área do Direito. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Penal, Processual Penal, Ambiental e Biodireito.

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