GUAYASAMIN – Continente Mestiço

Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito.

GUAYASAMIN – Continente Mestiço. Organização Editorial Wagner Barja. Museu Nacional do Conjunto Cultural da República/FLAAC2012. Brasília, 2012

Na edição desta Coluna Lido para Você, um registro muito especial. Referido a esta obra única. Única no sentido de raridade, de preciosidade. Trata-se do catálogo de uma exclusiva exposição da coleção Oswaldo Guayasamin – numa curadoria denominada Continente Mestiço – a primeira vez que o acervo foi exposto fora do Equador, completo.

A ocasião foi a celebração do jubileu da Universidade de Brasília – 50 anos. A distinção foi fruto da amizade e solidariedade do Embaixador do Equador no Brasil Horacio Sevilla, destacado diplomata que muito colaborou para que o aparato diplomático acreditado em Brasília, participasse do ano jubileu da UnB.

Imagine-se os esforços que foram coordenados para que o acervo Guayasamin pudesse ser deslocado do Equador e se instalar no espaço do Museu da República em Brasília. Basta ver o elenco de patrocinadores, co-patrocinadores, apoiadores e realizadores que se associaram para esse singular acontecimento.

Patrocinadores: Lei de Incentivo a Cultura, Petrobras, Banco de Desarrollo de América Latina, TacaAirlines, Global Transpot; Co-Patrocínio: UnB/DEX Casa da Cultura da América Latrina, Flaac2012. Apoio: UNHCR/ACNUR, Gracias Ecuardor.org; Realização: Fundación Guayasamin, Embaixada do Equador, Ministerio de Relaciones Exteriores, Comercio y Integración (Equador), Museu Nacional. Comissão Intergovernamental/Conjunto Cultural da República. Secretaria de Cultura GDF, Ministério das Relações Exteriores (Brasil), Ministério da Cultura (Brasil). Governo Federal (Brasil: País rico é país sem pobreza).

Quando me referi a preciosidade que caracteriza a edição do catálogo, não exagerei. De fato, fazia parte da curadoria a sua edição. E ela foi cuidadosamente organizada por Wagner Barja, o Diretor do Museu Nacional. Ocorre que preparada a boneca do catálogo, circunstâncias operacionais tornaram inviável a produção gráfica. Claro que a exposição e as mesas cerimoniais e as culturais se realizaram conforme o programa, mas do catálogo só restou a boneca, uma bela apresentação da coleção, um protótipo autêntico do que deveria ser o catálogo editado. A organização então me ofereceu essa boneca, cujo conteúdo espero poder partilhar, nesta Coluna.

O catálogo abre com uma epígrafe de Pablo Neruda:

Es bello porque nosostros lo bebemos

En estos temblorosos vasos de nuestro ser

Que nos niegan el goce para que lo gocemos

(ii) no “El estribillo del turco”,

Clama com o que está no seu subconsciente de jovem:

“Dulce hay que ser y darse a todos,

Para vivir no hay outro modo

De ser dulces. Darse a las gentes

Como a la tierra las vertientes.

Y no temer. Y no pensar.

Dar

Para volver a dar.

Que quien se da no se termina

Porque hay en él pulpa divina”.

 

Há prólogos na edição. Do Ministro de Relaciones Exteriores, Comercio y Integración Ricardo Patiño Aroca: “… Guayasamín não só pertence ao Equador, mas sim ao mundo. Com essa projeção, o mestre deixou plasmado aquele grande projeto que ele próprio não conseguiu ver acabado devido à sua partida em 1999, a Capela do Homem. Assim foi exposto pelo mestre: ‘Porra, sou índio! Chamo-me Guayasamín e quero pintar nesta Capela do Homem toda a tragédia que sofremos ao longo de toda nossa vida e história na América Latina’. Hoje, o projeto da ampliação da Capela do Homem, por meio da cooperação internacional, procura abrir melhores espaços para seguir divulgando o incalculável legado de sua arte…”.

            Do Chanceler Antonio de Aguiar Patriota, do Brasil: “… Obra de Guayasamín retrata uma época e suas batalhas. No momento em que a América do Sul colhe os frutos dessa luta, nada mais oportuno que lembrar o impulso inicial que nos trouxe até aqui, o impulso humanista da justiça social e da solidariedade”.

            Do Embaixador Horacio Sevilla Borja (Equador): “…Graças à solidariedade generosa de muitos amigos comprometidos, tanto no Brasil como no Equador, foi possível inaugurar em 10 de agosto de 2012 em Brasília, a deslumbrante capital da imaginação e da modernidade, esta mostra representativa das diversas etapas e técnicas que a obra do mestre, conformada por umas 400 peças, que denominamos ‘Guayasamín: um Continente Mestiço’, para significar a originalidade de nossa cultura e história comuns…”.

Do Embaixador Horacio recomendo a contundente entrevista que ofereceu para a Revista FLAAC2012, na qual pode-se fazer uma síntese da apoteose que foi em Brasília, a realização do Festival Latino-Americano e Africano de Arte e Cultura, em 2012, no ano jubileu da UnB.

Sobre a edição dessa revista, cf. https://estadodedireito.com.br/registro-arquitetonico-da-universidade-de-brasilia-unb/ SOUSA JUNIOR, José Geraldo de Sousa Junior…[et al.]. Revista FLAAC 2012. Brasília: Reitoria/Decanato de Extensão/Comissão UnB 50 Anos, 2012, 67 p. Nela ponho em relevo que “o meu mandato reitoral na UnB (2008-2012) foi marcado por alguns acontecimentos de grande simbolismo. A começar pelos eventos de dois jubileus: 50 anos de Brasília (2010) e 50 anos da UnB (2012). Nas efemérides dessas ocorrências fatos notáveis, como a inauguração do Memorial Darcy Ribeiro – Beijódromo (http://estadodedireito.com.br/22047-2/)  e a realização do Festival Latino-Americano e Africano de Arte e Cultura (FLAAC2012).

            Na entrevista do Embaixador Horacio, ele expõe aspectos marcantes da vida de seu amigo Guayasamín e como surgiu a ideia de trazer a exposição para Brasília. Ele anota que sua arte se destaca, não só por retratar o Equador, mas toda a América Latina, política e socialmente: “Guayasamín reescreve a história do país, resgatando as lutas dos povos indígenas, dos povos afro equatorianos, dos trabalhadores e a história da América Latina”. O Embaixador fala também da relação de Guayasamín com a UnB e com Brasília:

Guayasamín esteve aqui na fundação de Brasília e ficou admirado pela maravilha e audácia de se construir essa cidade. Ele se tornou amigo de Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e de Juscelino Kubitschek, de quem pintou um retrato que estará exposto na exposição. Como Guayasamín é parte da fundação de Brasília, queremos que ele esteja aqui nos 52 anos. E há algo mais, muito importante para nós: os 50 anos da universidade, da UnB. Ele tinha uma admiração extraordinária por Darcy Ribeiro. No Equador, vemos com muita admiração a luta pela qual passou a UnB na época da ditadura militar. Esta exposição, coincidindo com os 50 anos da UnB e com a retomada do FLAAC é uma oportunidade extraordinária para comemorar-se a aliança entre Equador e Brasil”.

A Revista do FLAAC2012 dá destaque também ao Grupo Impacto Negro, expressão do ritmo tradicional do Equador. O Grupo veio ao Brasil para comemorar o Dia Nacional do Equador e para encantar Brasília com os ritmos da tradicional bomba del chota. Sua primeira apresentação foi na abertura da exposição Guayasamín – Continente Mestiço.

Ao comentar aqui neste espaço Lido para Você (a edição dessa revista, cf. https://estadodedireito.com.br/registro-arquitetonico-da-universidade-de-brasilia-unb/ SOUSA JUNIOR, José Geraldo de Sousa Junior…[et al.]. Revista FLAAC 2012. Brasília: Reitoria/Decanato de Extensão/Comissão UnB 50 Anos, 2012), aproveitei para combinar os dois acontecimentos: a memória do FLAAC2012 e nele a exposição Guayasamín.

           Conforme anotei, em 1987, 25 anos após a fundação da Universidade de Brasília, um evento, também ousado, povoou as cabeças e animou a sensibilidade de jovens brasilienses que viviam época de grande conturbação política, econômica e social. O Festival Latino-Americano de Arte e Cultura (FLAAC) trouxe estudantes, artistas e gente de cultura de toda a América Latina a Brasília, com o objetivo de promover o diálogo e a aproximação entre povos distintos de nossa América.

Muito além de um encontro de arte e cultura dos países envolvidos, o FLAAC foi um momento para o autoconhecimento da juventude latino-americana. Em meio a realidades angustiantes que o desgaste da década provocou nas nações latino-americanas, com as liberdades sufocadas, os jovens que aqui estavam puderam entrar em contato com as condições políticas, econômicas e sociais dos demais países participantes e encararam a compreensão e vontade de mudança da situação de seus países pela cultura e pela arte.

De certo modo, eles puderam encarnar aquela disposição preconizada por Martí, para caracterizá-los: Os jovens da América arregaçam a camisa ao cotovelo, afundam as mãos na massa e a levantam com o fermento de seu suor. Criar é a palavra de senha desta geração (Nuestra América). O FLAAC, como exortou o reitor Cristovam Buarque da UnB naquela ocasião, constituiu-se em um espaço fecundo para uma rica experiência de criação.

Em 2012, ao completar 50 anos, a UnB retomou as atividades do FLAAC, como centro de celebrações de seu jubileu, em uma produção, coordenada pelo Decanato de Extensão (Decano Oviromar Flores) com a curadoria do produtor cultural Zulu Araújo, em uma produção que envolveu toda a comunidade acadêmica e o público brasiliense em geral, em um debate cultural intenso, contando com o patrocínio e parcerias cuja significação mais amplifica o sentido de relevância que esta forma de celebração pretendeu realizar. O FLAAC 2012, contemplou manifestações artísticas e culturais não só da América Latina como do continente africano e dialogou com as influências que esses dois continentes tiveram na formação cultural do Brasil.

Tratou-se responder, como se pode ver do sofisticado e caleidoscópico catálogo desses eventos, com Darcy Ribeiro que a América Latina existe acima das linhas cruzadas de tantos fatores de diferenciação para edificar sociedades étnico-raciais cujas populações querem continuar fundindo-se com o amálgama cultural forjado na riqueza desses próprios fatores de diferenciação.

Por ocasião do jubileu da UnB, um tanto desse amálgama se forjou no cadinho representado pela Exposição GUAYASAMIN Continente Mestiço, que o Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, o Ministério das Relações Exteriores, O Governo do Distrito Federal, a Embaixada do Equador e a Universidade de Brasília, sob a curadoria de Wagner Barja, instalaram em Brasília, para celebrar a UnB.

Cuidei de designar Guayasamin: a arte que grita o sofrimento dos nossos povos. De fato, para mim, há entre a África e a América Latina uma infinita comunhão de interesses e preocupações derivadas de suas heranças coloniais e de suas atuais lutas políticas por emancipação. Essa consanguinidade sócio-histórica impele nossa busca pela intensificação do diálogo entre nações visando o seu enriquecimento mútuo. O Festival Latino-Americano e Africano de Arte e Cultura surgiu para atender a esta necessidade de comunicação e estabelecer a arte e a apreciação estética como linguagens comuns de tradução entre os diversos saberes e práticas. Foi uma iniciativa da Universidade de Brasília e instituições parceiras, e contou com o apoio de todos aqueles que compreendem esta proposta de intercâmbio como uma aliança entre povos para a superação de suas questões sociais.

Duas edições do festival já ocorreram anteriores a 2012, em 1987 e 1989. Na ocasião de sua estreia, celebrava-se o vigésimo quinto aniversário da UnB e o desabrochar da redemocratização brasileira. Em 2012, ano de jubileu da universidade, foi mister reconhecer a atualidade dos propósitos originais do FLAAC. Não se tratava de uma simples exposição em vitrine das diferentes expressões artísticas latino-americanas e africanas, mas sim de uma oportunidade para promover o encontro e o autoconhecimento entre os vários povos destas regiões. A definição das identidades culturais se fortalece a partir do contato entre semelhantes e permite a reunião, sob uma mesma bandeira, das diversas reivindicações por emancipação política e cultural.

A perspectiva de realização desse festival resgatou aquela de Darcy Ribeiro, segundo a qual a América Latina e, acrescentei atrás, a África, existem acima das “linhas cruzadas de tantos fatores de diferenciação”. Irmanadas por suas trajetórias de colonialidade e por suas origens étnico-raciais, estas sociedades encontram-se em permanente estado de edificação e desejam continuar fundindo-se no amálgama cultural forjado na riqueza de sua própria diversidade.

Na abertura do segundo ciclo da edição de 2012 do FLAAC, foi, portanto, dadivoso receber a obra de Oswaldo Guayasamin, cujo poder de síntese sobre a condição humana segue impressionando ao longo das décadas. A América Latina é seu ponto de partida para a compreensão do mundo, e sua experiência pessoal orientará seu olhar e sua paleta de cores. O alto conteúdo biográfico, todavia, não representa obstáculo para a universalização dos significados expressos em suas telas.

Certamente, não fosse a acolhedora e criativa direção da área de cultura no Distrito Federal, na ocasião, referindo-me à gestão do querido amigo Hamilton Pereira (Pedro Tierra), e esses eventos não poderiam ter se realizado.

De Hamilton, no catálogo, recorto suas poderosas palavras inscritas em seu texto de apresentação Guayasamín: um continente mestiço:

… A assombrosa potência criadora do índio Guayasamín, nos assalta os sentidos. Produz lágrimas e maravilha. Produz o que deve produzir toda grande obra de arte: comove. Para nos conduzir a outras percepções, impossíveis antes do impacto avassalador de suas mãos. Comove para gerar consciência. De classe, de raça, da intolerável condição que cerca os índios, os pobres do continente. Arrasta todos os sentidos, como uma força que brota da alma dos vulcões, para denunciar de forma aterrorizante a opressão, a ferocidade das Ditaduras e dos Ditadores ou para banhar com azul-ternura o rosto lunar dessas crianças que anunciam com seus olhos enormes de amanhecer e orvalho que a raça de cobre emergirá um dia dos rios subterrâneos dos nossos pesadelos…

Coordenador-Geral do FLAAC2012, Zulu Araújo, em quem depositei todas as minhas, e por ele ser quem é, superadas expectativas de uma experiente, sensível e consciente condução do projeto, lembra, na apresentação do texto, conforme a ilustração acima – As Cores, os traços e as dores da América Latina, que Guayasamín era um comunista. A fome, a miséria, a exploração do homem pelo homem e as ditaduras na América Latina, para ele, eram motivo de contestação. As reivindicações vinham através das pinceladas.

            No catálogo ele traduz a obra como uma demonstração de gracias a la vida, uma vez que “só os segredos e mistérios da vida são capazes de explicar a existência deste continente imaginário, chamado de latino-americano. E um desses mistérios é a obra de Oswaldo Guayasamín, equatoriano de origem mestiça (indígena/europeia), que fez da pintura seu modo de vida. Vida, vivida e dividida entre a genialidade dos seus traços e pincéis e a indignação com o modo tosco, cruel e violento sobre os povos indígenas de nosso continente quanto sobre os povos africanos para cá trazidos pela via da escravidão”.

Guayasamin registra seu testemunho sobre a fragilidade humana nos vários continentes por onde passou sem remeter exclusivamente a um único espaço ou período no tempo. Sua arte de protesto denuncia a desigualdade social como violação da própria condição de humanidade. “Quando Guayasamin grita o sofrimento dos sujeitos de todos os povos, sua voz é mais poderosa e incontida que a do rio Apurimac”, define o literato peruano José Maria Arguedas, em ode ao artista.

A exposição “Guayasamin – Continente Mestiço” coroou a realização do FLAAC2012 tanto pela magnificência da produção plástica do artista equatoriano como por sua estreita relação com a proposta do festival em atuar como um motor de transformação política. Guayasamin personifica a força criativa do sangue mestiço da América Latina, e o conjunto das obras selecionadas especificamente para essa ocasião nos desvela um panorama evocativo de nossa responsabilidade sobre o bem viver de latino-americanos e, extensivamente, de todos os sujeitos sócio-historicamente violados em sua soberania.

José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil,  Professor Titular, da Universidade de Brasília,  Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.55

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