Ariano Suassuna e a Justiça: um tributo em homenagem aos 95 anos do escritor

 

Autor Raique Lucas de Jesus Correia – Advogado. Mestrando em Desenvolvimento Regional e Urbano pela Universidade Salvador (UNIFACS). Membro do Grupo de Pesquisa Políticas e Epistemes da Cidadania (GPPEC/UNIFACS/CNPq). Autor da obra “Direito, Literatura & Sertão: Perspectivas Decoloniais a partir do Romance d’A Pedra do Reino de Ariano Suassuna” (Ed. Porta, 2022).

 

 

Neste mês de junho o escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna completaria 95 anos se ainda estivesse vivo. Em 2007, quando completou 80, Ariano foi entrevistado pelo apresentador e também escritor Jô Soares no já extinto “Programa do Jô”. Na ocasião, ao ser questionado pelo apresentador sobre o que estava achando das comemorações pela passagem do seu aniversário, respondeu de forma bem humorada, como, aliás, lhe era característico: “Estão fazendo um chamego tão grande, que estou preocupado quando completar 160”. Em outra oportunidade, desta vez em uma de suas aulas-espetáculo, Ariano levou toda a plateia às gargalhadas quando disse que o título de “imortal” outorgado pela Academia Brasileira de Letras não servia para muita coisa, ele queria mesmo era ser “imorrível”. Infelizmente, o seu desejo era tão inverossímil quanto o nosso de que algo assim fosse realmente possível — Ariano nos deixaria em 2014, um mês após o seu aniversário de 87 anos, embora nunca tenha morrido de fato, porque se é verdade que um autor vive por meio da sua obra, os seus livros, por tudo aquilo que tem de perene e eterno, conservam até hoje a plenitude da sua existência.

A paixão de Ariano pela vida e a maneira apaixonada como viveu, contrasta, por outro lado, com um passado cruel e fatídico. Quando ele tinha apenas três anos de idade, seu pai, João Suassuna, ex-governador da Paraíba, foi brutalmente assassinado com um tiro nas costas, vítima das conturbações políticas da época e da animosidade causada pela tragédia envolvendo seu arquirrival João Pessoa, também assassinado naquele mesmo ano sangrento de 1930.

A morte do seu pai despertou um sentimento irreprimível de perda e angústia, uma cicatriz profunda que o dilacerou por completo. A sua primeira peça, a tragédia Uma Mulher Vestida de Sol, de 1947, e também outras subsequentes, como Cantam as Harpas de Sião (1948), Os Homens de Barro (1949) e O Arco Desolado (1952), demonstram bem essa atmosfera obscura que rondava o imaginário do escritor. Ele mesmo, certa vez chegou a revelar que quando não sabia o que fazer com uma personagem, dava um jeito de matá-la. Essa tendência só passou a ser matizada quando Ariano conheceu o grande amor de sua vida, dona Zélia, com quem foi casado até o dia da sua morte. Zélia foi mesmo um divisor de águas na vida de Ariano, foi ela, como ele próprio admitiu, que “desatou o nó” e permitiu a irrupção do cômico e do sonho em sua escrita.

 

Apesar disso, a obra de Ariano nunca deixou de ser marcada pelo episódio da morte do pai, uma sombra que sempre o acompanhou, muitas vezes inconscientemente transfigurada em imagens e em situações vividas pelos seus protagonistas, como é o caso de Pedro Dinis Quaderna no Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971). O próprio Romance d’A Pedra do Reino retoma o momento político vivido no Brasil na década de 1930. Quanto a isso, vale ressaltar que A Pedra do Reino foi pensada como a primeira parte de uma trilogia, cujo segundo livro, História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão (1977), sequer chegou a ser completamente terminado, isso porque, como explica Carlos Newton Júnior[1], notável estudioso da vida e obra de Ariano, o autor já “não estava mais conseguindo manter o necessário distanciamento entre ele próprio e o personagem-narrador, Pedro Dinis Quaderna, sobretudo quando mergulhava nos traumáticos acontecimentos relativos à Revolução de 30 na Paraíba, diretamente ligados ao assassinato de seu pai, João Suassuna”.

 

Contudo, se num primeiro momento, a morte de João Suassuna desencadeou em Ariano uma violenta sensação de ausência e tristeza, num segundo momento, a memória associada ao curto período de convivência que teve com seu pai, fez despertar um ímpeto desesperado por Justiça, fazendo da sua obra, ao mesmo tempo, uma tentativa de reconstrução heroica desta figura paterna e um protesto contra a sua morte. É o que o próprio escritor confessa em um fragmento retirado do seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: “Posso dizer que, como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo, oferecendo-lhe esta precária compensação e […] buscando recuperar sua imagem, através da lembrança, dos depoimentos dos outros, das palavras que o pai deixou”[2].

 

Essa busca incessante por Justiça é que encaminharia toda a sua obra para a conclusão daquilo que ele mesmo batizou de “A Ilumiara”. Inicialmente utilizado por Suassuna para se referir aos anfiteatros e monumentos arquitetônicos do passado rupestre do Brasil, o neologismo “Ilumiara” passou a servir também para designar qualquer local, espaço ou mesmo conjuntos artísticos que servissem como marcos sagratórios e de síntese da cultura de um povo. Nesta acepção mais ampliada, conforme elucida o já citado Carlos Newton Júnior[3], “na visão de Suassuna, até mesmo certos livros, como A Divina Comédia e o Dom Quixote, poderiam ser classificados como Ilumiaras, pela capacidade de sintetizarem os anseios universais do homem a partir de realidades locais e pelo vínculo que mantêm com a tradição”. O seu último livro, publicado postumamente e finalizado dias antes da sua morte, Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores (2017), cristaliza esta perspectiva, ele mesmo pensado não só como súmula das suas ideias e ideais, mas, acima de tudo, como marco de exaltação do Brasil real (em oposição a imagem “caricata e burlesca” do Brasil oficial).

 

Essa distinção entre “Brasil real” e “Brasil oficial” que Suassuna resgata de Machado de Assis, nos ajuda a entender não apenas as suas posições políticas, como também, mais a fundo, a sua própria visão de Justiça — tanto aquela que nasce em resposta a morte do seu pai, como aquela que, somando-se a esta, aparecerá em sua obra sob influência do evangelho de Jesus Cristo e do messianismo revolucionário de Antônio Conselheiro. Ariano acreditava que o Brasil real, o Brasil autêntico e verdadeiro, era representado pelo sertão; enquanto que o Brasil oficial, o Brasil dos ricos e poderosos, era representado pela cultura urbana do litoral, falsificada e cosmopolita, a “civilização emprestada” como ele mesmo aludia citando Euclides da Cunha.

 

Esse ponto de vista se aguçava ainda mais dado o fato de que a família de Ariano era proveniente do patriciado rural, grupo este que rivalizava com a recém-surgida aristocracia urbana das primeiras décadas do século XX e que, na Paraíba, era representada pela família Pessoa. Nesse sentido, Ariano culpava o “urbano” pela morte do seu pai e também pelas perseguições que sua família sofreu, passando a apresentar a cidade como o “mal” na guerra contra o “bem” — o sertão. Só depois, após um exame de consciência, é que percebeu que a luta entre os Suassuna e os Pessoa era, na verdade, uma luta entre os “privilegiados do campo” contra os “privilegiados da cidade”. Ademais, Suassuna também pôde constatar que “[…] o Brasil real teria, na verdade, não um, mas dois emblemas, pois os arraiais do sertão tinham seus equivalentes urbanos nas favelas da cidade”[4], superando assim a visão dicotômica que herdara do autor de Os Sertões.

 

Posteriormente, no ensaio Canudos, Nós e o Mundo publicado originalmente em 1999 em sua coluna na Folha de S. Paulo, Ariano aprofundaria esse exame. Para ele, assim como sucedeu em Palmares e no Contestado, em Canudos, como era de esperar, a “justiça dos poderosos” iria, mais uma vez, cortar a cabeça do Brasil real, confrontando-se ali, no caso, duas visões opostas de Justiça. A “Justiça real” do nosso povo pobre, negro, índio e mestiço e a “Justiça oficial” dos burocratas, ricos, brancos e poderosos. Essa oposição, conforme entende Suassuna, persiste até os dias atuais e os acontecimentos de Canudos continuam a se repetir a cada instante. Diariamente, incessantemente. Assim, “quando, no interior do país, uma milícia de poderosos, governamental ou não, assassina um pobre posseiro e sua família, é o Brasil dos que incendiaram e arrasaram Canudos que está atirando no Brasil real e matando seu povo”[5]. De igual modo, “quando, numa grande cidade, a polícia invade uma favela ou destrói uma ‘invasão’, são outros tantos dos nossos inumeráveis ‘arraiais de Canudos’ pertencentes ao Brasil real que estão sendo destruídos e assolados pelo país oficial, que, para isso, consegue recrutar, a seu serviço, outros pobres integrantes do Brasil real”[6].

 

Por conseguinte, essa oposição, segundo Suassuna, também pode ser observada no plano da geopolítica global entre, de um lado, os países ricos e poderosos e, de outro, o chamado Terceiro Mundo, pobres e injustiçados. Dessa forma, “quando os Estados Unidos ameaçam a Líbia, Cuba, ou o Irã; quando, por si ou por seus prepostos, invadem Granada e o Panamá; quando a Rússia e a França se impõem ao Afeganistão ou ao Chad; e quando todos os grandes se juntam para invadir o Iraque — em todos estes casos são outros tantos ‘arraiais de Canudos’ que estão sendo esmagados ou humilhados”[7].

 

Finalmente, para não sermos hipócritas, é preciso reconhecer que também em casa todos nós temos nossos “arraiais de Canudos” particulares. Por isso, “quando na casa de qualquer um de nós, brasileiros brancos e privilegiados, um casal rico ou de classe média oprime e explora uma empregada doméstica negra e pobre, é o Brasil oficial que está humilhando o Brasil real e violando a dignidade de seu direito”[8].

 

Não obstante, o Brasil real existe, resiste e persiste incansavelmente por sua dignidade. A obra de Suassuna, por sua vez, demonstra a força e o vigor dessa gente e também aponta um caminho para a sua libertação. No Auto da Compadecida (1955), por exemplo, peça que o consagrou como um dramaturgo, Chicó e João Grilo, dois personagens populares, representantes do “quarto estado” como ele mesmo dizia, enfrentam e conseguem vencer os integrantes dos outros três: o clero mesquinho e corrupto (representado pelo o bispo e pelo padre), a burguesia capitalista (representada pelo padeiro e por sua esposa) e a classe política dominante (representada pelo major Antônio Moraes). Em tudo isso fica claro que a Justiça do Brasil real pode superar as injustiças do Brasil oficial. “A Ilumiara” é a encarnação deste sonho: “Sonho com o dia em que o Sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo”.

 

É, pois, nesse sentido que, em Suassuna, a busca por um sentido pessoal de Justiça se confunde com a crença maior de que a Justiça divina se realizará sobre todos, sendo a Justiça social a primeira etapa a ser concretizada em direção a esse ideal profético. Só assim a Justiça se tornará verdadeira, anulando-se de uma vez por todas e de uma vez para sempre essa terrível dilaceração de opostos que é, em si, a causa primeira do sofrimento do nosso povo.

 

Por meio da sua obra, Suassuna que, como muitos de nós, também era formado em Direito, procurou fazer jus a essa causa, dedicando-se a missão que, agora, todos nós — advogados, promotores e juízes — temos o dever de levar fraternalmente adiante para o melhor e mais fiel cumprimento da Justiça, não da Justiça amorfa dos manuais empoeirados e da velhacaria dos tribunais, mas da Justiça viva do nosso povo pobre e honesto do Brasil real.

[1] NEWTON JÚNIOR, Carlos. A Pedra do Reino e A Ilumiara. In: SUASSUNA, Ariano. Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017, p. 20.

[2] SUASSUNA, Ariano. Discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. In: NEWTON JÚNIOR, Carlos (Org.). Almanaque Armorial. Recife: Editora José Olympio, 2008, p. 237

[3] NEWTON JÚNIOR, Carlos. Dom Pantero e sua Ilumiara. In: SUASSUNA, Ariano. Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017, p. 12.

[4] SUASSUNA, Ariano. A Favela e o Arraial. In: NEWTON JÚNIOR, Carlos. Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2018, p. 55.

[5] SUASSUNA, Ariano. Canudos, Nós e o Mundo. In: NEWTON JÚNIOR, Carlos (Org.). Almanaque Armorial. Recife: Editora José Olympio, 2008, p. 275.

[6] Ibidem.

[7] Ibidem, p. 276.

[8] Ibidem.

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