Viver no fim dos tempos da política

Coluna Democracia e Política

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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Pensamento original, método instigante 

Como resistir a tentação de ver nossa época com o olhar do filósofo esloveno Slavoj Zizek como aparece na obra homônima do título deste artigo? “Viver no fim dos tempos”, publicado pela Boitempo em 2012 ainda permanece atual. Hoje, aos 68 anos, Zizek é considerado um dos mais célebres polemistas da atualidade, refletindo sobre psicanálise, marxismo, política, cinema, “tudo junto e misturado”, exemplo perfeito da nova geração de pensadores formados na Europa do século XX. Com inúmeras palestras disponíveis na internet, com documentários sobre sua obra circulando no You Tube, e livros disponíveis em sites de compartilhamento como 4shared, não há como negar: o conjunto de sua obra está hoje ao lado de grandes intelectuais como Zygmund Bauman, Pierre Bourdieu, Michel

Foucault, entre outros e “Viver no fim dos tempos”, talvez o melhor diagnóstico de nossa época.
Para o intelectual brilhante que é, causa surpresa que quem olha sua casa veja um homem que confessa que mal sabe o número de seu próprio apartamento, guarda as roupas na cozinha e convive com fotos de Stálin e copos de Coca-Cola possa ser o pesquisador hiperativo com mais de trinta obras como “Bem vindo ao deserto do Real”, “A Visão em Paralaxe” e “Primeiro como tragédia, depois como farsa”, só para citar as em português, já que as traduções em espanhol há muito tempo é que são responsáveis pela difusão de seu pensamento na América Latina. E o que sua obra tem de tão especial? É que somente ele é capaz de cruzar cenas de cinema, fatos pitorescos da política contemporânea e piadas em descrições que unem teoria social, tradição hegeliana, marxista e psicanalítica. Sua obra quer ser uma forma de intervenção direta, quase cirúrgica, denúncia das formas dominadas pela ideologia de mercado. Não há nada de banal mais no mundo, sentencia Zizek com a certeza de que somente o desmonte de nossas crenças é que mostra o quanto vivemos submersos na ideologia “A Matriz – a do filme – é aqui.

Mais. Quando um autor necessita de uma outra obra para introduzir seu pensamento é porque, ou estamos diante de um gênio ou diante de alguém que poucos entendem. Zizek é o exemplo do primeiro, enquanto que Bourdieu é do segundo. Claro, mesmo Bourdieu tem exceções, como clássico Questões de Sociologia ou mais recentemente, Sur L’Etat, mas grosso modo, qualquer estudante de Sociologia sente medo ao ouvir falar em Bourdieu, mais lido nas salas pouco habitadas da pós-graduação. Zizek não. Como um outsider, ele corre por fora, nem na graduação nem na pós-graduação nos tempos atuais – lugar a que esteve, por muito tempo, até ser digerido, outro grande pensador, Michel Foucault. Só em português já encontramos três obras sobre : Zizek Critico: politica e psicanálise na era do multiculturalismo (Hacker Editores, 2005), de longe a melhor apresentação do autor, uma coletânea de ensaios críticos que revelam o que há de melhor e pior em Zizek; Arriscar o impossível, conversas com Zizek, de Glyn Daly (Martins Fontes, 2006), uma extensa entrevista onde o próprio Zizek comenta os aspectos centrais de seu pensamento e, finalmente, Entendendo Slavoj Zizek – um guia ilustrado, de Christopher Kul-Want(Leya, 2012 – como é que eles escreveram “Focault” entre os próximos exemplares é ainda um grande mistério para mim. Se os dois primeiros são leitura fundamental para o estudante de graduação a partir do quarto semestre, o ultimo é recomendado para o estudante de primeiro semestre de nossos cursos de ciências humanas.Qualquer visita ao google books revelará inúmeros estudos em inglês. Não vem ao caso agora.

 

Faces do luto social

O que é importante aqui  em “Viver no Fim dos Tempos”a tese da psicóloga Elisabeth Kubler-Ross, que elaborou o esquema clássico das cinco fases do luto, que se sucedem quando um paciente portador de uma doença terminal toma consciência de seu estado. A primeira fase é a negação – isto não pode estar acontecendo comigo!; a segunda fase é a raiva – como pode isto me acontecer? ; a terceira é a negociação – só quero viver até ver meus filhos formados – a quarta é a depressão – vou morrer, não vou me preocupar com nada e a ultima fase, a aceitação – vou morrer, melhor me preparar. Zizek lembra que sua autora fez todas as mediações de praxe para facilitar uma importação teórica – defendeu que o esquema é extensivo a outras formas de catástrofes pessoais e que os cinco estágios nem sempre são os mesmos ou na mesma ordem, etc, etc, mas foi somente Zizek que ousou dizer que os cinco estágios de Ross são exatamente o modo como nossa consciência social tenda lidar com um apocalipse enunciado.

De que apocalipse cotidiano fala Zizek? Para ele, o sistema capitalista está se aproximando de seu apocalipse, de seu graund zero, para usar a expressão de Virilio. Diz Zizek: “Os seus “quatro cavaleiros do Apocalipse” são, respectivamente, a crise ecológica, as consequências da revolução biogenética, os desiquilíbrios internos do próprio sistema (os problemas suscitados pela propriedade intelectual, os conflitos vindouros em torno das matérias-primas, dos recursos alimentares e da água ) e o aumento explosivo das divisões e exclusões sociais”. Para Zizek, desde o colapso dos regimes comunistas, e a sucessão hegemônica do capitalismo a nível global só serviu para que as esperanças do “outro mundo possível” ruíssem junto com o Muro de Berlin.

Quer dizer, não foi apenas o sonho comunista que ruiu, mas também o sonho capitalista, sob a forma de uma esquerda democrática moderada, que perdeu terreno no centro europeu – França e Alemanha – e também na Itália. Quer dizer, somente agora, no século XXI, podemos ver que o preço que o capitalismo cobra, o preço a pagar pela liberdade econômica e politica é a expansão da miséria e a falta de um projeto para uma sociedade melhor. Mais, é a própria politica que fica sem alternativas – que ele busca encontrar na redescoberta de certa “ideia comunista”: “Na atual democracia pós-politica, a bipolaridade tradicional entre uma centro-esquerda social-democrata e uma centro-direita conservadora tem vindo a ser progressivamente substituída por uma nova bipolaridade entre a política e a pós-politica: entre o partido tecnocrático-liberal e multiculturalista-tolerante da administração pós-política e a sua contrapartida da direita populista, promotora de uma combatividade política – não é, por isso, supreendente que os velhos adversários centristas (os conservadores ou democratas-cristão e os social-democratas ou liberais) se vejam muitas vezes obrigados a conjugar forças contra o inimigo comum”.

 

A humanidade está chegando ao seu fim?

Fonte: pixabay

Fonte: pixabay

O fim dos tempos de Zizek é, primeiro, uma realidade física: é a nível geológico e biológico que a humanidade está chegando ao seu fim. Quatro são as suas razões: o crescimento populacional, o esgotamento dos recursos, as emissões de gás carbônico e a extinção de espécies maciças. Estas realidades estão a nossa volta, mas diz Zizek, teimamos em mobilizar mecanismos de dissimulação e auto-ilusão. Em 2008, dizia-se que, devido ao derretimento das geleiras do Polo Norte, o mundo terminaria. Mas o que se viu depois foi uma série de desculpas do tipo “não é bem assim”, até aqueles que chegaram a afirmar que, afinal, a catástrofe climática tornaria “os recursos mais acessíveis”, etc e tal. A citação célebre de Zizek: somos capazes de imaginar o fim do mundo – o cinema catástrofe – mas não imaginamos o fim do capitalismo. “Sabemos que a catástrofe (ecológica) é possível, provável até, e contudo, não acreditamos que realmente aconteça” , diz Zizek.

A forma pela qual Zizek vê o mundo está relacionada a sua história pessoal. Filho único, passou sua infância em parte da Ioguslavia comunista. Curiosamente, muitos dos antigos estados satélites da URSS consumiam cultura popular ocidental, filmes de Hollywood ao invés dos filmes do regime. Seu conhecimento de cinema vem da sua adolescência, enquanto que como estudante universitário, conheceu o pensamento de diversos filósofos, como Derrida e Lacan, ao contrário da ortodoxia comunista em voga. É essa formação psicanalítica lacaniana que Zizek utiliza para a análise dos temas de politica contemporânea. Aliás, Zizek, junto com Alain Badiou, Cornelius Castoriadis e Ernesto Laclau constitue o que se denominou de Esquerda Lacaniana, onde se misturam a análise dos afetos no campo político, a descrição do gozo politico como elemento da autoridade, bem como do próprio nacionalismo e dos fenômenos políticos ligados a democratização. Que o conceito psicanalítico de perversão cada vez faça mais sentido para a política atual, deve-se fundamentalmente, a uma leitura zizekiana da politica.

 

Uma inspiração para interpretar a política brasileira?

Decca Aitkenhead, em artigo no Guardian, classificou sua obra como impenetrável. Mas não é verdade. Ele apenas leva ao limite conclusões que Marx já havia apontado no século XIX, a de que a contradição está por todos os lados, fazendo-as girar sobre si mesmas, pois para Zizek, até o que se apresenta como uma forma de pensamento crítico “na verdade não muda nada”.É a nova face do capitalismo: se agora estamos mais conscientes da existência da pobreza mundial, então, dizem-nos os capitalistas, basta comprarmos daquelas empresas que dedicam uma pequena percentagem dos seus lucros para uma instituição de caridade mundial “quando você compra algo, seu dever anticapitalista – o desejo de fazer algo pelos outros e pelo meio ambiente – já foi incluído em sua compra” diz Zizek.Essa combinação de consumismo com dimensão ética é o próprio capitalismo cultural em seu estado puro, “no exato ato de consumo você compra sua redenção por ser consumista”, diz Zizek. Assim, fica mais fácil pensar que o capitalismo cuida das mazelas do mundo, e de uma vez por todas, desaparece a consciência social que deseja mitigar a pobreza e junto com ela, a esquerda radical oposta ao capitalismo.Ora, dar dinheiro para instituições de caridade não soluciona o problema da pobreza, só o esconde.

A outra forma de interpretar sua obra sobre o fim dos tempos é percebe-la em pleno andamento na politica atual. Na tese da psicóloga Elisabeth Kubler-Ross, as cinco fases do luto podem ser também aplicadas a nossa política? Os servidores públicos, de norte a sul do país, não são este “paciente portador de uma doença terminal”? Não estaremos aos poucos, tomando consciência deste estado? Primeiro negamos, não acreditávamos que os governos fizessem o que fizeram: não podiamos imaginar a queda de Dilma, nem as medidas de Sartori com as fundações ou Nelson Marchezan para com os servidores públicos: é o “isto não pode estar acontecendo comigo!”. Depois não veio a fase da raiva, “como pode isto me acontecer?”, contra os governos? Depois não veio a negociação, que , como o “só quero viver até ver meus filhos formados” significou estar disposto a aceitar, no governo José Ivo Sartori, processos de demissão voluntária, ou no governo municipal, junto as propostas de Marchezan, que frente aos projetos de desestruturaçaõ da máquina, retirar por algum tempo é uma vantagem? E a quarta, não é aquela da depressão, a do “vou morrer, não vou me preocupar com nada” razão pela qual os movimentos de rua, como os de 2013, não se repetiram mais? E a  última fase, que para Zizek é a da aceitação – “vou morrer, melhor me preparar” não está em pleno andamento, quando reportagens valorizam o empreendedorismo como alternativa ao trabalho eventual?  Ora  Zizek , se o esquema é extensivel como afirma a autora, , então o que acontece na política também pode ser entendido como catástrofe, e os cinco estágios não correspondem somente  aos estágios de nossa consciência social tenda lidar com um apocalipse enunciado, mas também de nossa consciência política. E ela está cada vez mais próxima de seu fim.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Apocalipse da política brasileira

De que apocalipse político falamos? Para nós, o sistema politico brasileiro está se aproximando de seu apocalipse, exatamente o seu “graund zero”, da mesma forma, para usar a expressão de Virilio. Mas quais são os quatro cavaleiros do apocalipse da política? Para mim, são, respectivamente, a crise de representação politica, consequência da descrença nos políticas; as consequências da revolução da internet no espaço público, e o afastamento do campo do debate respeitoso que provoca;  os desiquilíbrios internos do próprio sistema politico,  suscitados pelo presidencialismo de coalizão, os conflitos vindouros em torno do desejo de poder como único desejo possível, e a consciência de que a política é insuficiente para superar as exclusões sociais”. Para nós, desde a ascensão do governo FHC, e a sucessão hegemônica do projeto político neoliberal nos 3 níveis de governo, só serviu para que as esperanças em um regime democrático de bem estar social ruissem junto com a democracia brasileira.

Quer dizer, não foi apenas o sonho democrático que ruiu, mas também o sonho republicano, sob a ascensão de uma direita autoritária que venceu embates importantes contra a esquerda no século XX.  Esse caminho, finalmente, leva ao mesmo destino previsto por Zizek em “O fim dos tempos”: o preço da liberdade política e das conquistas sociais da Constituição de 1988 confunde-se com o preço que o capitalismo cobra pela liberdade econômica e politica: de qualquer perspectiv que se olhe, seja econômica ou política,  é sempre da expansão da miséria e da falta de um projeto para uma sociedade melhor que se fala.  Mas estariamos diante da pós-politica de que fala Zizek, pois se quer se trata da ascensão de uma centro-direita conservadora, é sim a ascensão de uma extrema direita reacionária, o que é muito pior.  É nesse contexto que é urgente um pacto entre as diversas esquerdas.

Qual o papel da crítica política contemporânea? A de denunciar que a democracia está em proceso de corrosão, que não se trata do correspondente super-estrutural do capitalismo de uma face humana, o problema é que no capitalismo atual, não há face alguma que não lembre a de um monstro. Concordamos com Zizek de que a econômia de mercado está na base do fim dos tempos, mas ela tem um componente político poderoso. Precisamos nos questionar se, frente a esse estado geral, ainda tempos tempo para transforma nosso próprio destino.

 

downloadJorge Barcellos é Articulista do Estado de Direito, responsável pela coluna Democracia e Política – historiador, Mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. É autor de “Educação e Poder Legislativo” (Aedos Editora, 2014), coautor de “Brasil: Crise de um projeto de nação” (Evangraf,2015). Menção Honrosa do Prêmio José Reis de Divulgação Científica do CNPQ. Escreve para Estado de Direito semanalmente.

 

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