Tempos Intolerantes

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Fonte: pixabay

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As redes sociais e os discursos de ódio 

“A postura de ódio e censura é baseada em medo, medo de mudança, medo de deixar os outros viverem de uma maneira diferente da sua. Mas é essa habilidade de viver com a diferença entre nós que vai nos sustentar no longo prazo”.

Judith Butler

Admiro aqueles amigos, cada vez mais raros, que não tem um perfil em uma das diversas redes sociais ou que nunca entrou em uma sanha virtual. Em outro sentido, carrego uma grande curiosidade, na verdade admito, uma inquietação, para entender as motivações daqueles que, constantemente, participam de acalorados debates nas redes sociais, que não se desconectam e que transformaram seus perfis em espaços contínuos de polêmicas e discussões.

Apesar de em alguns momentos desejar, não me enquadro no primeiro caso, tenho perfis em diferentes mídias sociais e posto regularmente, quase diariamente, textos, fotos e vídeos que considero relevantes ou interessantes para os meus ‘amigos virtuais’. Da mesma forma, confesso que em alguns momentos, faço afirmações e provocações que, inevitavelmente, me levam a debates virtuais que parecem intermináveis.

Realizado este prólogo, posso afirmar que tem sido um grande desafio permanecer com um perfil ativo nas principais redes sociais. Apesar de valorizar e compreender o seu grande potencial de interação e a capacidade de enriquecimento cultural que elas apresentam, uma vez que a participação em alguns debates, grupos e páginas são enriquecedores, é inegável que, atualmente, as redes sociais se transformaram em espaços de propagação do ódio, da ignorância e da desinformação.

A hegemonia do pensamento imbecilizado

O pensamento rasteiro e sem fundamento encontrou nas redes sociais um terreno fértil para prosperar. Ao contrário do esperado, o resultado da ampliação do uso das redes sociais não produziu um aumento do conhecimento e do enriquecimento cultural. Apoiado em textos curtos e, sobretudo, em ‘achismos’, agressões verbais e xingamentos, o pensamento acrítico, imbecilizado, raso e vazio tem proliferado nas mídias sociais. Aspecto que tem levado ao surgimento de discussões sem sentido, carentes de coerência cientifica e, sobretudo, de discernimento crítico. Infelizmente, a maior parte dos debates travados nas redes sociais, empobrece e não enriquece culturalmente seus participantes.

Fonte: pixabay

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No passado, bastava não sentar na mesa daquele cara chato e inconveniente. Hoje, não. As redes sociais potencializaram o contato com os ‘palanqueiros de plantão’, com os bufões e com os especialistas em generalidades. O que, inevitavelmente, tem levado a debates indesejados, com indivíduos que não desejamos debater e a discussões rasas e sem profundidade. Para nossa desgraça, seguindo a afirmação do escritor e filósofo italiano Umberto Eco, as redes sociais garantiram o direito a palavra a uma ‘legião de imbecis’, indivíduos que antes proferiam suas boçalidades e seus preconceitos apenas em uma mesa de bar, que atingiam um público limitado e que não apresentavam a capacidade de prejudicar a coletividade.

Infelizmente, nosso problema não é mais o simples ato de sentar ou não em uma mesa de bar, nosso problema não é mais o de discutir com aquele ‘amigo’ que faz comentários indevidos, sem sentido ou carente de coerência. Atualmente, como reflexo de um tempo confuso e contraditório, os comentários indevidos e sem criticidade passaram a interferir na coletividade, impedindo a liberdade de expressão e o direito ao livre pensar. É, impressionante, como o pensamento raso e acrítico tem servido de base para o surgimento de um patrulhamento sem sentido e ignóbil. As redes sociais foram colonizadas pela imbecilidade.

Habitada por perfis fakes, trolls e haters, um mecanismo que carrega um potencial fantástico de democratização da informação, transformou-se em um meio de propagação do ódio e de desenvolvimento e proliferação do pensamento rasteiro, sem reflexão, do mimetismo ideológico e do surgimento de aberrações analíticas. O ódio, de maneira semelhante a um vírus, tem produzido manifestações raivosas em assuntos diametralmente opostos.

Como reflexo deste cenário, questões importantes correm o risco de não serem pensadas e debatidas com a seriedade que deveriam. A gritaria histérica, as frases mal pensadas ou oportunistas e os xingamentos, afugentam do debate os indivíduos que, efetivamente, poderiam enriquecer as discussões.

Um exemplo da imbecilidade com diferentes matrizes

Recentemente, presenciamos um exemplo de como a sanha virtual gera problemas no mundo real. Com a chegada da renomada pensadora Judith Butler, uma das mais importantes filósofas dos Estados Unidos e referência em diversas áreas de estudo, formou-se uma verdadeira ‘guerra’ entre apoiadores e opositores. Um cenário de amor e ódio, de aplausos e apupos.

O cenário conflituoso que a sua presença provocou, gerou uma série de reflexões e questionamentos. Será que todos os envolvidos nos apupos e aplausos conheciam as obras da pensadora estadunidense? Quantos dos envolvidos nos debates virtuais discutiram suas ideias e deglutiram suas propostas de maneira séria e profunda? Ouso afirmar que poucos dos envolvidos conhecem as obras de Judith Butler.

Judith Butler I Fonte: commons wikimedia

Judith Butler I Fonte: commons wikimedia

Além de despertar a atenção para a profunda ignorância que cerca os debates nas redes sociais, a presença da pensadora americana nos relegou um grande legado, uma vez que chamou atenção para o risco que corremos quando o ‘ódio virtual’ se materializa no mundo físico.

Os grupos intitulados como conservadores despertam uma maior atenção, especialmente, por destilarem seu ódio de maneira mais perceptível em ações e postagens. No entanto, igualmente, chamou atenção que, em alguns casos, os defensores da liberdade de expressão apoiassem a defesa da pensadora estadunidense com procedimentos semelhantes. Independentemente da matriz ideológica, poucos são aqueles que conseguem perceber que a defesa ou o ataque apoiado no ódio, na desqualificação rasteira do diferente e no preconceito quanto a pensamentos que fogem ao seu espectro ideológico são expressões similares, frutos de uma mesma árvore, cujas raízes se nutrem na intolerância.

Os raivosos parecem não se importar com a coerência, assim como, não conseguem perceber as similaridades dos discursos, uma vez que buscam nos ‘likes’ um sentido para suas formulações e postagens. Para eles, não importa se as expressões de ódio, o desrespeito, ou no campo inverso, a exaltação desregrada ou a idolatria cega sejam condenáveis, nada disso importa, desde que estas estejam coadunadas com a sua visão de mundo.

Neste conflituoso cenário, alguns grupos têm capitaneado o ódio a seu favor e demonizado os seus opositores de maneira ‘mais eficiente’. Penso que foi isso o que aconteceu com a pensadora americana. As manifestações contrárias à sua presença no Brasil não envolveram críticas reais as suas ideias e formulações, muito menos uma oposição aos assuntos discutidos no evento para o qual ela foi convidada, em sua maioria, ela envolveu uma avalanche de ódio, preconceito e crítica infundada e rasa.

Para aqueles que despejam o ódio nas redes sociais, sair delas significa perder visibilidade, reduzir o alcance de seus gritos e urros, abrir mão de um espaço disponível para depositar suas frustrações e, em alguns casos, deixar de ganhar dinheiro. Para aqueles que buscam construir uma sociedade plural, diversa e aberta manter-se nas redes sociais, debatendo e discutindo com aqueles ‘amigos’ indesejados, tornou-se um desafio necessário, imprescindível e fundamental.

 Leonardo MarinoLeonardo Freire Marino é Articulista do Estado de Direito – Mestre e Doutor em Geografia. Professor Adjunto da UERJ  e Pesquisador do Grupo intitulado Geografia Brasileira: História e Política, localizado no Instituto de Geografia desta mesma Universidade. Tem experiência em diversos níveis de ensino e linhas de pesquisa, merecendo destaque os estudos que envolvem temas ligados as dinâmicas de ordenamento territorial urbano, os conflitos sociais emanados da violência e a promoção de Direitos Humanos.

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