Prevenção ao suicídio: o que fazer?

Coluna Assédio Moral no Trabalho

cabeçalho

Vou dormir (Alfonsina Storni)

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.

Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho

Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos

Para que esqueças… obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí… (1)

Vamos falar de um tema tabu: o suicídio.
Ao longo de todos os textos sobre Assédio Moral, o suicídio sempre foi versado.
Como um dos efeitos mais devastadores deste verdadeiro estupro emocional, o suicídio está presente no imaginário de qualquer vítima assediada, independente da modalidade de assédio.
Não importa idade, gênero ou atividade profissional. Todos chegam a um tal estado de agonia e desistência em que pensamentos de morte surgem.

Foto: Pixabay

Foto: Pixabay

Etimologicamente, a palavra suicídio deriva do latim e significa a morte de si mesmo ou a ação de matar a si mesmo (sui-si mesmo e caedes-ação de matar).
Assim, “chama-se suicídio toda morte que resulta mediata ou imediatamente de um ato positivo ou negativo, realizado pela própria vítima”. (2)
O suicídio por conseguinte, define-se como um ato pessoal com características da sociedade que o produz, através dos valores, das normas sociais que podem influenciar o nível de interesse do indivíduo pela vida. É um homicídio com intenção de matar a si próprio e também uma ação com desespero de uma pessoa que não deseja mais viver, ou seja, esta decide pôr fim a sua vida e a forma que ela encontra é através do suicídio. O suicídio pode ser causado por uma insatisfação interior e profunda na qual o indivíduo no momento não está encontrando solução para seus problemas. (3)

O suicídio em números e sua prevenção

Segundo a OMS, a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida no mundo. Em torno de 800 mil pessoas por ano no mundo dão fim à vida. O Brasil é o oitavo país com o maior número de suicidas. A taxa, porém, corresponde à metade da média mundial, se for levado em conta o tamanho da população no país. Este gravíssimo problema de saúde pública, de fato, impõe a prevenção como prioridade. (4)
E o que fazer?
Existem sim, algumas atitudes que podem ajudar a prevenir os suicídios.
Conforme a Psychological Harassment Information Association, entidade reconhecida na discussão sobre Assédio Moral, certas práticas poderiam auxiliar no enfrentamento ao suicídio. Transcrevo-as:
– Faça um plano de ação: Agir significa controle e autoconfiança. Ao estabelecer metas e realiza-las, valoriza-se a si próprio. Recompense-se. Manter-se ativo beneficia a saúde psicológica;
– Pense positivamente: Pode-se condicionar a mente a pensar positivamente ou esperar resultados positivos. Visualize sucesso e resultados positivos em vez de resultados negativos. Muitos atletas profissionais usam a visualização positiva para praticar um desempenho perfeito. Por óbvio, requer esforço, mas eventualmente pode tornar-se quase automático, afastando sentimentos de desesperança e desespero. Pessimismo, desesperança, desespero, desamparo, com efeito, são sinais de alerta comportamental;
– Aja feliz: Aja do jeito que você quer se sentir e logo vai sentir o jeito que você age. Comum em terapias de autoconfiança em que se solicita ao indivíduo agir tal qual uma pessoa confiante. Entende-se que você desenvolverá essa habilidade ou comportamento. Diz-se que, o ator Leonard DiCaprio desenvolveu um transtorno obsessivo-compulsivo enquanto interpretava Howard Hughes no blockbuster The Aviator. Frequente em atores que se envolvem no papel que desempenham ou mantêm muitos dos mesmos traços de caráter do papel que desempenham. Recordam-se de Heath Ledger, que interpretou o Coringa no filme Batman?
– Converse positivamente: Acabe com as autocríticas e autodepreciações. Os erros devem ser vistos como uma experiência de aprendizado, a lapidar-se. Usar afirmações positivas podem mudar o subconsciente;

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

– Ria e sorria: Seguramente, o riso é um ótimo remédio, que o digam os defensores da terapia do riso. Alguns estudos mostram que as pessoas que estão deprimidas têm músculos mais fracos e pugnam a terapia sorridente na qual a pessoa se exercita fazendo a expressão facial sorridente com os olhos bem abertos e colhe os mesmos benefícios de um sorriso normal. Também, o sorriso é contagioso. Quando você sorri para alguém, ele geralmente retribui com um sorriso e isso está associado à aceitação e à conexão com alguém. É o oposto da rejeição;
– Socialize-se: Não se isole. Socializar é terapêutico, estimula o cérebro, tornando-o mais ativo. Tente participar de atividades e eventos sociais que contenham comédia e risos. O isolamento é, seguramente, sinal de alerta comportamental do suicídio;
– Estimule o cérebro: Muitos estudos indicam que ouvir músicas clássicas ou quaisquer outras calmas e edificantes instam o cérebro de muitas maneiras positivas. Isto também vale para o estímulo visual;
– Exercite-se: O exercício físico libera substâncias químicas que podem ajudar a combater os efeitos do estresse, da ansiedade e da depressão, sinais de alerta comportamentais. Contraria pois, os efeitos do hormônio do estresse, liberando endorfina, oxitocina, dopamina e serotonina – hormônios da felicidade –, queimando a adrenalina e o cortisol, empurrando o sangue para o cérebro e devolvendo o corpo a um estado relaxado;
– Coloque-se sob o Sol: O Sol e a terapia da luz são medidas para combate da depressão sazonal, por exemplo. Também fortalecem o sistema imunológico;
– Durma: O estresse pode acarretar insônia e insônia liga-se à depressão. A privação do sono ainda aumenta o hormônio do estresse, o cortisol. Recordando-se que se exercitar é uma das formas de gerenciamento/neutralização do estresse. Também, tomar um banho quente com óleos perfumados – aromaterapia – relaxa o corpo e deve proporcionar uma excelente noite de sono. A insônia como uma das formas de perturbação do sono é, em verdade, sinal de alerta comportamental do suicídio;
– Receba uma massagem terapêutica: Uma massagem terapêutica estimula a pele e está ligada ao afeto. Também, libera substâncias químicas em seu cérebro, endorfinas, fortalecendo sistema imunológico. Relaxa os músculos, aumenta a circulação sanguínea e o fluxo linfático e pode aliviar dores de enxaqueca e outras;
– Tome Ômega 3: O Ômega 3 tem efeitos benéficos no cérebro e muitos artigos de pesquisa também afirmam que ele pode prevenir na depressão. Encontrado em algas, óleo de linhaça e canola, nozes, feijões, ervilhas, lentilhas, grão de bico e soja é indicado além disso para o bom funcionamento do coração, prevenindo o câncer e ajudando a perder peso;
– Coma bem: Uma boa nutrição também é muito importante afinal, deficiência em minerais e eletrólitos, como cálcio, magnésio e potássio, pode afetar o cérebro. O corpo usa eletrólitos que participam da regular função dos nervos e músculos e mantém o equilíbrio ácido-base e o equilíbrio de fluidos;
– Sexualize-se: O sexo está ligado ao afeto e prazer e libera endorfinas no cérebro. Muitos estudos indicam que ele pode proteger contra a depressão, tornando-o mais feliz. (5)
Enfim, caso estas medidas não surtam melhoras, busque ajuda profissional multidisciplinar imediata. Afinal, depressão e ideações suicidas não se confundem com “falta de força de vontade”, sendo o suicídio um verdadeiro e preocupante assunto de saúde pública a ser compreendido apenas a partir da complexidade do comportamento humano a demandar cuidados especializados. E, principalmente, no que nos interessa, sendo o suicídio o resultado mais destrutivo do Assédio Laboral.

Referências:

(1) O poema é da grande poetisa argentina Alfonsina Storni (tradução por Héctor Zanetti). Em 1937, o suicídio de um amigo, o também escritor Horacio Quiroga, abala-a profundamente. Em 1938, três dias antes de se suicidar, Alfonsina Storni envia de um hotel de Mar del Plata para um jornal o soneto “Voy a Dormir”. Consta que se suicidou andando para o mar — tudo poeticamente registrado na canção “Alfonsina y el Mar”, gravada por Mercedes Sosa. Tinha 46 anos.
(2) Durkheim, E. O Suicídio. Estudo de Sociologia. Martins Fontes, São Paulo, 2000.
(3) Ob. cit.
(4) OMS, 2018.
(5) Disponível em: http://www.psychologicalharassment.com/depression-suicide-prevention.htm. Acesso em: 01 jun. 2018.

 

Ivanira
Ivanira Pancheri é Articulista do Estado de Direito, Pós-Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2015). Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (1993). Mestrado em Direito Processual Penal pela Universidade de São Paulo (2000). Pós-Graduação lato sensu em Direito Ambiental pela Faculdades Metropolitanas Unidas (2009). Doutorado em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente é advogada – Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. Esteve à frente do Sindicato dos Procuradores do Estado, das Autarquias, das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo. Participa em bancas examinadoras da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo como Professora Convidada. Autora de artigos e publicações em revistas especializadas na área do Direito. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Penal, Processual Penal, Ambiental e Biodireito.

Comente

Comentários

  • (will not be published)

Comente e compartilhe