Porto Alegre, passado e futuro da política

Coluna Democracia e Política

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Pensar o futuro da capital no aniversário de Porto Alegre

No próximo dia 26 de março é aniversário de Porto Alegre. Regra geral, a cidade fica em “festa”, com diversos eventos culturais pela passagem da data. Mas a data também é um bom motivo para  refletir e investigar as transformações pelas quais passa a capital na história recente. E isso é urgente.

Em “Mundos Possíveis”, capitulo introdutório de sua obra “O futuro não é mais o que era” (Editora Senac) Adauto Novaes coloca o dilema de um mundo em transformação que terminou por transformar o próprio espirito, com isto querendo referir-se ao fato de que as transformações técnico-cientificas transformaram não apenas os costumes, a ética, as mentalidades, mas todas as dimensões da vida e inclui-se nelas, a política. Se, o que cita para Santo Agostinho e para os estoicos sobre o tempo vale para a política, como seriam o futuro e o passado da política da capital? A resposta é que a política do passado não existe mais, e a do futuro, ainda não nasceu. Para Novaes, a saída encontra-se no pensamento do filósofo Paul Valery para quem “o que não existe mais está no coração do que existe”.

Pensar o que resta na política da capital no tempo é uma tarefa de filósofos que quer ensinar algumas ideias ao homem comum. Novais afirma que as coisas vagas, os ideais de futuro, como assinala Montesquieu nas Cartas Persas, fazem parte da estrutura de nossas sociedades. Mas ao contrário do que afirma o autor,  não é somente o desenvolvimento tecnocientífico que produzem os fatos, mas também a política. Enquanto os autores selecionados por Adauto Novaes tendem a nos trazer uma visão sombria sobre o futuro, como é o caso de Heidegger e Wittgenstein, Hannah Arendt em seu “O que é a política” defendeu a vitalidade desta dimensão da vida com grande entusiasmo. Para Arendt, a política” trata da convivência entre os diferentes”  e é importante saber que a “política organiza, de antemão, as diversidades absolutas de acordo com uma igualdade relativa e em contrapartida às diferenças relativas”.

Fazer o futuro a partir do presente

Novaes assinala que nos autores que refletiram sobre o futuro é constante a ideia de que o reinventamos sem cessar no presente. Mas se o fazemos sem medo, estamos diante de um problema. Adauto Novaes lembra que, para Paul Valery, a celebre frase “nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais”,  enuncia o fim da civilização ocidental, revela para o clássico autor já tinha a ideia de que tanta tecnologia era capaz de matar a humanidade. Parafraseando os autores citados por Novaes, da mesma forma, o mesmo acontece com a política, quer dizer, para que a política se transformasse em pano de fundo de nossa vida foi preciso que fosse arrasada por lideranças, projetos de governo, experiências políticas e instituições. Não é exatamente este o ponto em que estamos com a política? A política se tornou tão importante que vivemos justamente o fim…da política? O que é o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco se não o atestado de que nossas instituições fraquejaram em sua tarefa de representar a cidadania, agora substituída pelas gangues de plantão. O que Valery pressentia para seu tempo, podemos pressentir para o nosso. Não é o que acontece quando Porto Alegre vai as ruas, em seus grupos à direita e a esquerda em torno dos destinos do governo federal, estadual e municipal?

Foto: Joel Vargas/PMPA

Foto: Joel Vargas/PMPA

Os  problemas dos cidadãos porto-alegrenses não são diferentes dos problemas do pós-guerra: o que persiste em nossa cultura política é justamente o fim da faculdade de trocar experiências, de trocar ideias. Fim da negociação política por argumentos. Vence a emoção na política. A passagem retomada por Adauto Novaes de O Narrador, ensaio de Walter Benjamin a ilustra: “salta aos olhos: o valor da experiência caiu de cotação. E parece que a queda contínua indefinidamente. Basta abrir o jornal para constatar que, desde a véspera, uma nova queda foi registrada, não apenas a imagem do mundo exterior, mas também a do mundo moral sofreram transformações que jamais pensamos serem possíveis”. Ainda que Benjamim se referisse ao mundo do pós-guerra que evoluiu para a ameaça de conflito atômico, é interessante dar-mo-nos conta que, nos termos de Novaes, não ter filosofia é a filosofia que convém ao seu tempo, não ter política parece ser o que convém ao nosso.

A destruição da experiência política

Do que estamos falando? Da destruição da experiência política, catástrofe vista na existência cotidiana da capital. Uma olhada nas redes sociais é particularmente instrutiva. Diante das grandes questões da vida política que se apresentam ao porto-alegrense, a esmagadora maioria da população se recursa a discutir baseado em argumentos e prefere a experiência da vida coletiva emocional, prefere a festa entre iguais e o registro propiciado pelas máquinas fotográficas do que ter a experiência do debate com base em argumentos.

Que experiências politicas a Capital oferece a seus cidadãos? Quando seus cidadãos fazem sua rotina de forma acelerada, tomam as ruas em direção a seu serviço, transformando o seu presente em imediato, significa que somos capazes de fazer em poucos meses ou horas aquilo que levava décadas para os habitantes da capital no passado. Mas ao mesmo tempo, diz Novaes, o homem vive muito pouco o próprio instante. O porto-alegrense vive naquilo que seus antepassados lhe deixaram, desde os colonos açorianos que aqui viveram, o espaço urbano. A argumentação serve para buscar recuperar no passado a ideia de alma da cidade, o sentimento de que para ser feliz na capital é assumir nossas perdas, nossas esperanças, nossos erros, nossas vitórias. Não seria o caso de assumir os erros que foram denominar ruas com nomes militares? Nosso futuro permite que troquemos o detalhe do passado pelo que mais nos agrada no presente? Porque viver o aniversário da cidade exige um balanço sobre nossa identidade cultural e política.

Foto: Eduardo Beleske/PMPA

Foto: Eduardo Beleske/PMPA

É impossível criar uma imagem do futuro sem a lembrança do passado e sem perceber o presente de maneira critica. “Para ver o presente, precisamos, pois, recorrer as lembranças do passado e imaginar o futuro. Ver é rever e prever”. Para isso, Novaes enumera três eixos: o que é o tempo, qual a relação do homem com o futuro, qual a relação com o futuro quando a tecnociência quer substituir a esperança?

Fazer as perguntas corretas

Para os primeiros porto-alegrenses, o curso da história era imprevisível e incontrolado, daí recorrerem a religião para dar uma ordem em seu universo. Inúmeras capelas e igrejas foram construídas na cidade para dar conta deste sentimento. Hoje, ao contrário, para Novaes, para projetar nosso futuro, devemos nos perguntar: como vivemos o…hoje?

No campo da política, de maneira contraditória. Não apenas pelos conflitos políticos recentes, as bandeiras tomadas pela esquerda e direita na atualidade, mas porque, segundo Hannah Arendt “o passado não esclarece mais o futuro”: somos incapazes esclarecer nossos argumentos a esquerda e a direita; somos incapazes de perceber qualquer evolução política – que aconteceu, por favor – na sociedade brasileira dos últimos 40 anos. Não podem nos levar a conclusão de que vivemos a sociedade porto-alegrense decadente, com um governo neoliberal eu visa seguir as regras do mercado: ao contrário, vivemos pura atividade, principalmente política. Houve resistências ao projeto do prefeito municipal. Vereadores se rebelaram. A comunidade vem se manifestando e este texto, que se faz como ativo defensor da esfera política, vai no espirito de Eduard Gaed, leitor de Valery  para quem “o futuro é o tempo do possível, do poder em estado puro”.

Somos iguais em possiblidades de invenções políticas no futuro, eis a questão. A política é a dimensão que escapa a ordem da certeza cientifica, justamente o que limita o espirito. O que distingue, na acepção de Novaes, política de ciência é, que enquanto uma nos diz que não podemos mudar o futuro e nenhuma ação conta – já estão prometendo dizer o momento em que a pessoa vai morrer, o esforço da ciência é pela abolição do acaso, na dimensão política ocorre o contrário. É possível criticar a política, é possível não concordar com inúmeras ações dos agentes políticos, mas não é possível retirar da dimensão política o espaço que ela abre quando chama o cidadão a fazer algo para mudar o que acontecerá: não é assim no episódio da legalidade, que tomou a capital nos anos 60? Não foi assim anos antes, quando as manifestações operárias ocuparam as ruas da capital?E não é assim quando centenas, vão as ruas, inclusive em Porto Alegre, defender a memória de Marielle Franco?

O futuro da politica

Refletir sobre o futuro da política, é neste sentido, ir a política do espirito, buscar esclarecer os mitos, as “coisas vagas”, entendendo aí os ideais políticos e utopias “Não há política sem mitos”, diz Adauto Novaes citando Valery. A estrutura social é fundada sobre a crença: não são as crenças que opõem os portoalegrenses que no passado dividiram-se entre o Partido Republicano Rio-Grandense e o Partido Liberal, não é a confiança que fez os porto-alegrenses reelegerem Otávio Rocha ou o PT como Prefeitos?

Pensar o futuro da política de Porto Alegre exige que se entenda o mundo político como um mundo fundamentalmente mítico, o que significa que sua organização não tem apenas bases nas leis da política, mas tem razão na expressão de forças, de sua capacidade de impulsão e repressão. Esse exercício quer recuperar o papel humano da política.

A exposição Cidade Maldita, produzida pelo Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre, reconstitui os aspectos da vida da capital a partir do pensamento da historiadora Sandra Pesavento. Esses aspectos são fundamentalmente porque trazem elementos das classes populares, suas zonas de boemia, prostituição e moradia. Através da reconstituição podemos ver os limites da pobreza e da marginalização de uma camada social. A forma como são reconstituídos seus estilos de vida pelos jornais, pelas classes dominantes, revela que a essas populações são associadas a ideia de decadência da cidade, uma ideia que tinha força no século XIX e conquistara a imaginação de redatores de jornais e políticos. O futuro da cidade do passado passava pela reforma de suas amplas avenidas, da construção de novos viadutos e praças. Não este o tema da exposição Planos Diretores de Porto Alegre, se não a forma precisa como a administração local previu o futuro da cidade? Que é o Plano Geral de Melhoramentos se não esta visão de futuro, se faz a partir de uma visão reformista e excludente da sociedade?

Foto: Luciano Lanes / PMPA

Foto: Luciano Lanes / PMPA

Metafísica do futuro

Segundo Jean Pierre Dupuy, este Plano de Melhoramentos é o equivalente do que o autor denomina de metafisica do futuro, dando significado aos novos profetas da atualidade. A ideia de Dupuy é a seguinte: a profecia assumiu um sentido técnico diferente do laico. Hoje, por todo o lado, vemos profetas que tomam a ciência, e também a política, como base para fazerem emergir vozes autorizadas que dizem o que será nosso futuro da previsão do tempo ao resultado eleitoral. Isso é um problemas, quer dizer, estamos cercados de agentes que prevêem o futuro. Se não podemos compreender a vida sem olhar o passado, também só podemos vivê-la projetando-a no futuro. Mas se a política assume um papel importante, e se ela se deve menos a racionalidade da política, mas outras  forças e isto significa: o que é feito do espirito. Novaes, retomando Valery, afirma que no capitalismo, voltado para o presente, o espirito torna-se impossível, impossível porque supérfluo.

Gostaríamos que Porto Alegre do futuro fosse Masdar, a eco vila de Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos concebida em 2008 para ser concluída em 2020, a primeira cidade sem emissões de C02, sem desperdício, sem carros: a capital do desenvolvimento sustentável. O que Porto Alegre fez nessa direção? Ciclovias, corredores de ônibus mas que encontram-se em péssimo estado. Temos sistemas de orientação de rua funcionando com energia solar, mas nada se compara a eletricidade de uma cidade inteira planejada para ser com energia solar. Mas o futuro também se relaciona com nossos medos: em Masdar, o temor da poluição e do aquecimento climático, em Porto Alegre, o temor da incapacidade de terminar qualquer ato público político com a violência, mas então o que será de nossos sonhos políticos? No passado, queria-se o fim da exploração do homem pelo homem, uma sociedade sem classes e a vitória do socialismo. Mas as desigualdades perseguem-nos e o socialismo fracassou, e a democracia parece viver um grande risco com a emergência de postura conservadoras na política.

Novaes ensina que uma parte do futuro é previsível, ainda que outra não o seja. Há muita incerteza no futuro, mas ainda temos algum poder quando podemos dominar a evolução física do mundo. A conduta humana e política escapam ao indeterminado e essa diversidade de possíveis deveria fazer-nos acreditar mais na política e não o contrário.

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Jorge Barcellos é Articulista do Estado de Direito, responsável pela coluna Democracia e Política – historiador, Mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. É autor de “Educação e Poder Legislativo” (Aedos Editora, 2014), coautor de “Brasil: Crise de um projeto de nação” (Evangraf,2015). Menção Honrosa do Prêmio José Reis de Divulgação Científica do CNPQ. Escreve para Estado de Direito semanalmente.

 

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