Os (des) caminhos rumo a uma identidade Latino-Americana

Coluna Latinitudes

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“Você jamais poderá cruzar o oceano, a não ser que tenhas em ti a coragem de perder a costa de vista”

Fonte: pixabay

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Solos Latino-Americanos

Certamente o medo de perder a costa de vista, embora uma constante das entrelinhas de seus escritos, funcionou mais como sentimento propulsor do que como um obstáculo para as conquistas de Colombo e seus sucessores, que há muito desfrutam das benesses, termo não exagerado, frutos da exploração dos recursos oriundos dos solos e subsolos Latino-Americanos.

Intempéries climáticas, dos tempos das cruzadas e pestes, bem como sociais, promovidas por levantes coloniais tímidos ou revoluções épicas, não se mostraram outrora, tampouco se mostram na contemporaneidade, óbices capazes de deter o ímpeto da exploração de riquezas tão sedutoras e abundantes, que parecem beirar o inesgotável. Senão, vejamos trecho do diário do conquistador pioneiro das Américas, precedido apenas por Vickings que não se ocuparam em se fixar ou registrar suas passagens por nossas terras:

Isolando nesta provação, doente, esperando a morte dia a dia, rodeado por um bando de inimigos selvagens e cheios de crueldade, e tão afastado dos Santos Sacramentos da Santa Igreja que esta alma será esquecida se separar do corpo. Que chore por mim quem ama a caridade, a verdade e a justiça. Não fiz essa viagem para obter honrarias e riquezas porque a minha esperança já estava completamente morta… Suplico-vos humildemente que, se a Deus aprouver tirar-me daqui, que haja por bem abençoar a minha ida a Roma e a outras romarias. Cuja vida e augusto estado guarde e engrandeça a Santíssima Trindade. Escrito nas Índias, na ilha de Jamaica, a 7 de julho de 1503.” (Ob. Cit. p. 159 – fim da 4ª viagem).

Muito mais do que a comprovação da forma esférica do planeta, a descoberta oficial e documentada das novas Índias, teorias conspiratórias e conjecturas históricas a parte, promoveu a ruptura brusca e definitiva do destino dos povos pré-colombianos, alterando o curso de sua história e influenciando no seu futuro.

Isto porque cada processo de colonização está ligado umbilicalmente à evolução histórica dos povos em algum momento colonizados, dominados, explorados ou simplesmente conquistados, definições que irão se encaixar a depender da abordagem conceitual.

Voltar ao passado

Assim, na busca pela compreensão dos movimentos político-sociais que hoje circundam as Américas, é preciso voltar ao passado; as respostas talvez estejam ali – onde erramos, se erramos ou tivemos a oportunidade real de acertar, as lacunas que precisam ser preenchidas para alcançarmos o nosso lugar de fato e direito numa sociedade globalizada, guardadas, todavia, as particularidades que todos os povos têm, com suas cicatrizes inclusive-. No mesmo sentido, de se reunirem esforços no intuito de sedimentar nossa posição como bloco sociocultural– e por que não econômico? – o cientista social Ailton de Souza, em estudo dedicado a formação da identidade Latino-americana:
(…) é necessário descobrir o lugar que cabe América Latina na sua história e além disso, buscar a projeção da região como unidade devendo-se assumir a totalidade do nosso passado e penetrar na civilização universal como ‘nós mesmos’.  (SOUZA, 2012, p. 10)

Neste diapasão, da pioneira colonização da ilha de Hispaniola em 1942 a revolução separatista de Cuba de 1895, do desembarque de Colombo, Pizarro e Pedro Álvares Cabral a fundação de Quebec por Champlain e a de Nova Amsterdam pelos Holandeses, onde hoje se encontra a “capital do mundo”, a “big apple” Nova Iorque, da resistência de Tupac-Amuru a Simón Bolívar; a história da América Latina, tão diversa, se confunde nos meandros contextuais; e é neste universo que pretendemos mergulhar. Assim, nossos caminhos se fundem como que num sincretismo, onde as diferenças de língua e herança da colonização não impedem de compartilharmos os mesmos dissabores e desafios.

Corroborando tal percepção, a academia:
Deste modo, aceitar as diferenças e problemas comuns da região reconhecendo suas potencialidades e sua identidade na história mundial auxilia o despertar do homem latino para sua riqueza enquanto, povo, cultura e língua. E reforça seu sentido de unidade e seu reconhecimento enquanto nação. (SOUZA, 2012 p. 10)

Fonte: pixabay

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A pluralidade de culturas da América Latina faz com que ela  se torne um laboratório  de experiências sociais, que por sua vez a coloca do lado oposto ao idêntico, embora  seja uma identidade enraizada em aspectos históricos e geográficos comuns. É bom  lembrar que o conceito de identidade pressupõe que se identifique  por algum critério ou  propriedade intrínseca que se mantenha ao longo do tempo. Assim, uma possível identidade latino-americana, produto da diferença e da pluralidade,  oposta a todo e  qualquer modelo, deve ser pensada, na atualidade, no âmbito de um  projeto que dissolva  a fragmentação e assegure, portanto, a integração e a permanência dessa totalidade.  Somente nesse contexto o uso de tal conceito ainda poderá se justificar. (ALVAREZ, – , p. 8)

Ademais, o cenário verde e rico, que desde os incas, maias e astecas já era palco de dominação de povos sobre outros, em que pese a identidade continental ter se dissipado em línguas e processos de colonização distintos, ainda guarda, entre rios e afluentes, ligações irrefutáveis, sendo a maior delas, talvez, a “maldição da abundância”, como citou certa o escritor Uruguaio Eduardo Galeano.

Ela já não é o reino das maravilhas em que a realidade superava a fábula e a imaginação era humilhada pelos troféus da conquista, as jazidas de ouro e as montanhas de prata. Mas a região continua trabalhando como serviçal, continua existindo para satisfazer as necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, de cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos… (Ob. Cit. p. 10)

Não obstante, também correm nas nossas hermanas veias a miscigenação racial, a síndrome de “casa grande e senzala” e, o que seria para muitos um verdadeiro vício das nossas gentes, a dependência do sistema paternalista de poder.

Destarte, outrora o ouro, a prata, o açúcar e a borracha, hoje; a droga. Outrora resistência de quilombos e índios, hoje; guerrilhas e facções paraestatais alimentadas pelo mesmo combustível de sempre: a miséria. Outrora submissão à metrópole colônia, hoje; aos blocos econômicos dominantes e a cotação do câmbio.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Diante disto, impossível não surgir a indagação: qual o nosso lugar no contexto da globalização?

Neste diapasão, o intuito precípuo da coluna é justamente adentrar as entranhas das problemáticas contemporâneas da América Latina, buscando identificar a origem daquelas e promover a reflexão, discussão e a proposição de soluções, sobretudo destacando aquilo que jamais deveria subjugado: a nossa identidade comum, fruto do sangue – e suor – mesclados na jornada da colonização; nossa terra sem nome, sem América, mas nossa, em alusão ao Chileno Pablo Neruda em Amor América, cujo trecho remete à reflexão neste capítulo inicial, e ilustra o sentimento motivador para com aquele que será o proscênio da caminhada que ora se inicia,  e que o (a) leitor (a) está convidado (a) a participar.

Yo estoy aquí para contar la historia. Desde la paz del búfalo
hasta las azotadas arenas  de la tierra final, en las espumas  acumuladas de la luz antártica,  y por las madrigueras despenadas  de la sombría paz venezolana,  te busque, padre mío,  joven guerrero de tiniebla y cobre o tú, planta nupcial, cabellera indomable,  madre caimán, metálica paloma.
Yo, incásico del legamo,  toqué la piedra y dije:  ¿Quién me espera? Y aprete la mano  sobre un punado de cristal vacío.  Pero anduve entre flores zapotecas  y dulce era la luz como un venado,  y era la sombra como un párpado verde.  Tierra mía sin nombre, sin América,  estambre equinoccial, lanza de púrpura,  tu aroma me trepó por las raíces  hasta la copa que bebía, hasta la más delgada  palabra aún no nacida de mi boca. (Ob. Cit.)
Enfim, é com esta ambição precípua que a coluna Latinitudes nasce; como na cruzada de Colombo, perdendo a costa de vista num caminho inverso, em busca da dominação de nós mesmos pois, como deixou brilhantemente registrado Darcy Ribeiro, “somos, em consequência, um povo síntese, mestiço na carne e na alma, orgulhoso de si mesmo… “(Ob. Cit, 1986).
Amicus autem protinus te videre*.

*Nos vemos em breve, amigos. (latim).

Referências bibliográficas

ALVAREZ, Maria Luísa Ortiz. (Des) Construção da identidade Latino-Americana: heranças do passado e desafios futuros. Universidade de Brasília – UNB. In Revista Intercâmbio. Disponível em: http://unb.revistaintercambio.net.br/24h/pessoa/temp/anexo/1/231/427.pdf
COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América – as quatro viagens e o testamento. E –book. Tradução por Milton Persson. 1986. Ed. LPM. Disponívelem:http://www.lpm.com.br/livros/Imagens/diarios_da_descoberta_da_america.pdf
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. E-book. Tradução por Sérgio Faraco. 2010. Ed. LPM. Disponível em: http://politicaedireito.org/br/wp-content/uploads/2017/02/As-Veias-Abertas-da-America-Lat-Eduardo-Galeano.pdf
NERUDA, Pablo. Amor América. Disponível em: https://www.poemas-del-alma.com/amor-america.htm.
RIBEIRO, Darcy. América Latina: A Pátria Grande. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986.

SOUZA, Ailton. América Latina, conceito e identidade: algumas reflexões na história. PRAC – Periódicos UNIFAP. Vol. 4, nº 4. Universidade Federal do Amapá.2012.Disponívelem:https://periodicos.unifap.br/index.php/pracs/article/view/364.

 

foto da coluna
Olívia Ricarte é  Articulista do Estado de Direito. Servidora pública em Boa Vista-RR. Bacharel em Direito pela UNIFENAS/MG, foi bolsista do CNPQ em programa de iniciação científica. Foi advogada, é ex membro da comissão da mulher da OAB/RR. É especialista em Direito Constitucional pela Escola Superior de Direito Constitucional e em Filosofia e Direitos Humanos pela PUC. Integrou a Câmara de mediação e arbitragem Sensatus/DF. É graduanda em ciências sociais pela UFRR, é presidente regional da Rede Internacional de Excelência Jurídica. É coautora da obra “juristas do mundo”, lançada em 2017 em Sevilha, Espanha. Foi condecorada com as medalhas de mérito pela contribuição a ciência pelas universidades de Bari, na Itália e Porto, de Portugal.

 

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