O que há em comum entre os jovens de 2013 e os caminhoneiros de 2018?

Coluna Democracia e Política

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2013/2018

Que há em comum entre os jovens que foram as ruas em junho de 2013 e os caminhoneiros que ocuparam as estradas em maio de 2018? No mês de junho de 2013, cerca de cem cidades brasileiras viram as ruas tomadas durante três semanas do mês de junho por centenas de jovens manifestantes que se seguiram no mês de maio de 2018 por centenas de caminhoneiros parados nas estradas do pais. Em ambas manifestações, reuniões, assembleias e ocupação de espaços públicos foram vistos nos dois movimentos. Para mim, os dois movimentos são comparáveis pelas formas de organização,  e ainda que haja diferença geracional, vejo semelhanças na notável horizontalidade do movimento, na pauta de reivindicações e no uso de recursos de comunicação.

Foto: Wikimedia commons

Foto: Wikimedia commons

As diferenças ficam por conta do fim das assembleias de jovens realizadas embaixo de viadutos, substituídas pelas realizadas no meio das estradas entre os caminhões parados. A prática da violência exercida pelos black blocs, presentes nos movimentos de junho, agora é substituída pela presença de “elementos infiltrados” (quem seriam, com que objetivos?), responsáveis pelo exercício de pressão aos caminhoneiros que queriam sair do movimento. Em ambos, os índices de popularidade dos governantes estavam abaixo da média e a presença dos partidos políticos foi reduzida. Uso aqui como referência de comparação a interpretação de Rudá Ricci e Patrick Arley ao movimento de jovens, presentes em sua obra “Nas ruas: a outra política que emergiu em junho de 2013” (Editora Letramento, 2014) para refletir sobre o movimento dos caminhoneiros em 2018.

Ruas substituídas por estradas

Em ambos os movimentos, a surpresa da nação: nada dizia que jovens em 2013 ou caminhoneiros em 2018 ocupariam as ruas ou estradas do pais com a intensidade feita. Os primeiros lutaram pela redução das passagens de ônibus nas ruas das metrópoles, os segundos, pela redução do preço do diesel nas principais estradas do país. Ambos tiveram, portanto, o transporte ou seus insumos como a base para início do movimento.

Ricci aponta duas lógicas para analisar este tipo de fenômeno. Ou se segue uma lógica racional, na qual a linearidade se confirma pelo cronograma dos acontecimentos, ou se segue uma lógica descontínua e polissêmica na qual nem todas as partes se encaixam com precisão. Pela primeira, enquanto o movimento dos jovens começa ainda em 2005, no Fórum Social de Porto Alegre e com o nascimento do movimento do passe livre, o movimento dos caminhoneiros começa no início do ano com os sucessivos aumentos do preço dos combustíveis. Em ambos, lutava-se por preços – preço da passagem escolar na luta pelo passe livre, preço do combustível para a prestação de serviços pelos caminhoneiros.

Mas há uma diferença na irrupção. Enquanto que dois meses antes, houve um precedente para a explosão social nas ruas com manifestações modestas dos jovens, os caminhoneiros foram as estradas com data marcada. Em ambos, os valores expressos, aparentemente tão pouco significativos, eram de extremo valor para os participantes: o preço de 20 centavos que havia subido a passagem em são Paulo para a deflagração do movimento dos jovens, ou o preço de 46 centavos na promessa de redução acordada entre caminhoneiros e o governo.

No movimento de expansão crescente da ocupação, tanto das ruas pelos jovens, como das estradas pelos caminhoneiros, vejo menos confrontos com a polícia militar com os caminhoneiros do que com os jovens, onde a força militar se exerceu com maior intensidade. A violência deixou de existir no movimento dos caminhoneiros? Aparentemente não, pois notícias dão conta de repressão de caminhoneiros pelos próprios caminhoneiros pelos relatos de implantação do medo e terror para aqueles que ameaçassem desistir ou furar os bloqueios.

Este último aspecto não responde pela suposta irracionalidade presente no movimento no sentido da segunda forma de interpretação proposta por Ricci? É que no movimento dos jovens segundo  Ricci, o lado irracional se dá quando a narrativa que sustenta o movimento perde seu sentido, o que vemos acontecer também no movimento dos caminhoneiros. Para os jovens, a data dessa reviravolta é o dia 17 de junho de 2013, quando a lógica da organização das redes sociais aparentemente emergiu sobrepondo-se à herança dos movimentos sociais dos anos 80 presentes na organização dos movimentos de rua de 2013. Da mesma forma, para os caminhoneiros, a data da virada é o dia 28 de maio de 2018, quando após um acordo formado com o governo pelas lideranças do movimento, parte aceitou as regras do acordo e parte as rejeitou, preferindo manter-se em greve. Quem lidera o movimento dos caminhoneiros? Porquê a divisão?

A organização em rede ou grupos?

Entendo que a causa é a organização em rede, uma característica comum de ambos os movimentos. Elas estiveram presentes na organização e mobilização de ambos os atores, e como afirma Ricci, formaram os jovens e fomentaram para os caminhoneiros uma comunidade que não se deu por uma organização central ou indicação de lideranças, ao contrário, aparentemente, no caso dos caminhoneiros, promoveu uma organização no local onde estavam parados. Essa horizontalidade, essa reunião de grupos paralisados ao longo das mais diferentes rodovias que surgem como grupos autônomos parecia garantir, como no caso dos jovens, que cada caminhoneiro não seria um número no meio de uma multidão. Como se estivéssemos em “grupelhos” a maneira definida por Gilles Deleuze e Felix Guattari.

Essa presença dos recursos de redes entre os caminhoneiros está presente no relato de Rosana Pinheiro Machado que viralizou na internet. Em uma tarde com caminhoneiros, ela relatou que “O zap bombava, mas as notícias mesmo chegavam boca a boca, minuto a minuto. Eles estavam convictos que ninguém iria arredar o pé das estradas enquanto o Temer não caísse. Eles tinham a certeza de que se isso acontecesse, quem assumisse teria que negociar qualquer coisa com eles. Nós não parávamos de perguntar se não era pelo preço do combustível e eles insistiram que já não era mais: “É por corrupção, é por tudo”. Quer dizer, a redes de internet foram importantes, mas uma rede humana, de troca de informação, boca a boa, na leitura da socióloga também não pode ter sua importância negada. Ricci lembra que para Chico Whitaker, há uma distinção entre formação de redes sociais e trabalho em rede, e nesse sentido, nos termos de Rossana Pinheiro Machado, sua descrição sugere a mobilização dos caminhoneiros realizou-se muito mais como trabalho de rede das pessoas instaladas nas rodovias do que a baseada nas relações incentivadas pelas redes sociais, quer dizer, o que fomentou a organização foi as interpelações difusas, horizontais e sem lideranças  presentes no movimento dos caminhoneiros.

O caráter de provisoriedade, apontado por Ricci, para o movimento dos jovens repete-se para o movimento dos caminhoneiros. Mas dá-se da mesma forma? Para os jovens, aponta Ricci, essa característica implicava numa lógica aparentemente sem sentido, a da utopia no presente, a negação de qualquer forma de organização e estrutura do poder, fato que entendo parcialmente se repetiu no movimento dos caminhoneiros. Por que parcialmente? Por que houve dissensões após o acordo, nem todos acataram as determinações das lideranças.  Essa característica de fluidez, de abertura, parece-me presente nos dois movimentos. Ricci relaciona os jovens de 2013 aos “incluídos pelo consumo”, outra categoria social ligada aos jovens que emergiu naqueles beneficiários do aumento do salário mínimo, segmentos da classe trabalhadora em ascensão que, se não saíram as ruas,  apoiaram o movimento. Diversamente, o movimento dos caminhoneiros relacionou-se com outra classe e por motivo diverso: ao retirarem dos supermercados os produtos de consumo, a classe média apoiadora do golpe viu-se atingida diretamente e correu as compras. E ficou dividida entre apoiar os caminhoneiros pela critica ao governo, e ao mesmo tempo, rejeita-los pelos prejuízos imediatos que causavam aos digamos, seus hábitos…burgueses.

Instrumentos no confronto com a ordem

Tanto os jovens de 2013 como os caminhoneiros de 2018 tiveram como característica de suas mobilizações o confronto com a ordem. Mas, numa notável inversão, enquanto que os primeiros se aproximaram de um ethos de esquerda pela defesa da igualdade social expressa no desejo do atendimento público para todos, os segundos aproximaram-se de um ethos de direita pela defesa da intervenção militar.  Ruas e estradas foram utilizadas como meio de expressão e protesto contra o governo, mas enquanto os primeiros negavam a tradição e a ordem, os segundos, as defendiam. É que os caminhoneiros, ao contrário dos jovens, tinham um ideário político pautado pela defesa da ordem, característico do pensamento de direita. Isso não significa que não houvessem no primeiro grupo dos jovens de 2013, grupamentos de direita. Diz Ricci: “Foi perceptível a presença de pequenos agrupamentos de extrema direita, que, inspirados na tradição fascistas (aquela que redefiniu os princípios do anarcosindicalismo de Mussolini) e nacional socialista, também marcaram posição na ocupação das ruas a partir do uso da força. Foram, contudo, minoritários e marginais”, diz o autor.

Esse ponto é importante: no confronto com o poder, os movimentos foram explorados pela direita ou extrema direita? Ricci aponta que vários intérpretes caminharam nesta interpretação, como Marilena Chauí para quem, ao final, os jovens revelam-se ingênuos e infantis politicamente. Mas Ricci aponta que os manifestantes de junho de 2013 – como os de maio de 2018 – não adotaram um discurso político único. Uma forma usada pela autora para provar isso é o modo de uso das redes sociais, que, no entendimento da autora, incentivaria o pensamento mágico. Ora, aqui Chauí tem em mente as redes sociais tipo Facebook, enquanto que no movimento de caminhoneiros, a rede dominante era do WhatsApp. Isso faz diferença? Transcrevo a interpretação de Igor Suzano Machado, professor da Universidade do Espírito Santo:

“ A atual greve dos caminhoneiros tem um componente tecnológico importante interessante: o famigerado WhatsApp. Acredito que sem essa ferramenta de alta tecnologia a greve não teria o mesmo poder de organização e desorganização. E o WhatsApp sempre foi, quando comparado com outras redes sociais como facebook, a rede mais regressiva quanto aos nossos marcos civilizatórios. Enquanto o facebook ainda pode oferecer algo de esfera pública e de maior controle por via de algum nível de “interesse público”, não vejo essa possibilidade no WhatsApp – pode-se criticar as atuais agências de fact-checking buscadas pelo facebook, mas como instaurar algum fact-checking no WhatsApp? O WhatsApp, por vezes, parece ser apenas uma amplificação tecnológica da lógica da fofoca e do boato. É uma rede que serve, por exemplo, sem filtros, ao homem que quer circular o vídeo íntimo que gravou da parceira, ou ao entusiasta dos “direitos humanos para humanos direitos” que quer circular o vídeo de execução de algum criminoso (ou suposto criminoso). De um lado, essa greve é a cara da nova tecnologia que utiliza, com todo o seu poder e toda a sua afronta aos valores da sociedade moderna, expressa em pautas como pedidos de intervenção militar. De outro, isso não deixa de ser a cara do Brasil, com a alta tecnologia servindo à baixa humanização. Afinal, estamos naquele país, para lembrar Luiz Werneck Vianna, caracterizado por mais e mais e mais modernização, e nada de modernidade. ”

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Chauí finaliza seu argumento com a ideia de que o movimento de 2013 apresentou um risco a democracia pela crítica ao sistema partidário sem uma alternativa a ele. Ora, da mesma forma, podemos imaginar que o movimento dos caminhoneiros representou um risco a democracia? A minha resposta é não. Porquê? Por que o único risco possível seria a aceitação pelos militares da convocação feita pelos caminhoneiros , o que de fato, na expressão dos próprios, não iria ocorrer. Nesse sentido, segundo matéria do site G1, de Guilherme Mazul o próprio ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, afirmou na terça-feira (29), no Palácio do Planalto, que falar em intervenção militar é “assunto do século passado”. A reportagem assim registrou a manifestação: “É um assunto do século passado, uma pergunta que, do ponto de vista pessoal, não vejo mais nenhum sentido. […], mas ainda existe alguém, algumas pessoas que acham que essa alternativa é possível”, disse o ministro em entrevista à imprensa após reunião do gabinete que monitora a greve dos caminhoneiros. (…)”Não vejo nenhum militar, não vejo Forças Armadas pensando nisso, não conheço absolutamente”, declarou.

Os protagonismo dos atores

Tanto os jovens de 2013 como os caminhoneiros de 2018 foram as ruas e estradas motivados por sua oposição a política econômica, mas também a forças políticas determinadas. Ambas se deram conta que não tinham nada a perder em se opor ao status quo, ainda que houvesse intenções políticas difusas no movimento que defendiam, no caso dos caminhoneiros, o rebaixamento do preço do diesel apenas. Essas intenções, como foi criticado neste caso, baseava-se no fato de que o movimento não soube incluir cláusulas trabalhistas ou sociais em sua agenda. Nesse sentido, ambos movimentos tiveram capacidade de capilarização dos demais grupos sociais, pois foram capazes de atrair a indignação de maioria com o governo mas não foram suficientes para propor mudanças sociais de fundo. Usando as redes sociais, “antes conectam emoções, micronarrativas, comentários sobre situações cotidianas. Forjam uma comunidade de intenções, quando muito, constroem uma escalada de indignação ou admiração coletiva”, diz Ricci a respeito dos jovens de 2013 mas cuja descrição também pode ser aplicada aos caminhoneiros. Não é esta a razão porque,  mesmo com elementos de direita em seu discurso, atraíram a simpatia da maioria da população brasileira?

Tanto a juventude de 2013 como os caminhoneiros de 2018 trouxeram novidades ao cenário político. Eles mostraram o poder das ruas e das estradas, o poder da mobilização, da construção de comunidades dinâmicas de manifestação e mesmo que seu diálogo com o campo institucional seja difícil, tenham uma posição ideológica mais semelhante a bricolage de ideologias, apontam novos horizontes da política que ultrapassam os partidos políticos tradicionais: agora, fazer político é algo encarnado, é algo constituídos pelos próprios atores sociais. Voltamos, de certa forma, ao universo dos trabalhadores do ABC nos anos 80, e isso é interessante.

Trata-se de ver na emergência dos movimentos sociais, de categoria, de gênero e classe como sinais de novas formas de lutas que passam pelos acampamentos em praças, ruas e estradas e menos pelos partidos. Isso significa o fim da politica institucional? Creio que não, mas uma exigência a esta para repensar o seu lugar. Esses novos grupos criam poder para si por ficarem parados em um lugar, fazerem assembleias quase legislativas ao mesmo tempo que usam as redes, tuitam e trocam informações. O que os politicos perderam? A capacidade de gerar emoção entre si e nos outros. De agora em diante, ruas e estradas fazem parte de uma forma de participação política, direta e em tempo real. Eu denominaria de streetativismo que eu definiria como o aparecimento do ativismo das ruas e estradas como o ciberativismo foi o ativismo do campo das redes e internet. A guerrilha mediática chegou ao fim? Claro que não, ela se tornou sócia de uma guerrilha dos mapas, dos fluxos, das ruas e estradas, que acontece na contramão da política tradicional. A guerra não é mais de informação, é de posição (Paul Virilio).

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Jorge Barcellos é Articulista do Estado de Direito, responsável pela coluna Democracia e Política – historiador, Mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. É autor de “Educação e Poder Legislativo” (Aedos Editora, 2014), coautor de “Brasil: Crise de um projeto de nação” (Evangraf,2015). Menção Honrosa do Prêmio José Reis de Divulgação Científica do CNPQ. Escreve para Estado de Direito semanalmente.

 

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