O cego e o assédio moral

Coluna Assédio Moral no Trabalho

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Diz o ditado popular: “O pior cego é aquele que não quer ver”.
Consta que, em 1647, na cidade de Nimes, França, na universidade local, o doutor Vincent de Paul D’Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imaginara era muito melhor. Pediu então, ao cirurgião que arrancasse seus olhos. A demanda foi acabar no Tribunal de Paris e no Vaticano. E, acreditem, Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não quis ver. (1)

Foto: Ryoji Iwata/Unsplash

Foto: Ryoji Iwata/Unsplash

Com efeito, está-se a falar da pessoa que não quer ver o que está bem na sua frente, negando-se a ver a verdade…
Tenho a oportunidade de seguir discutindo o tema assédio laboral em muitas palestras pelas mais distintas cidades, pessoas e locais de trabalho.
Muito me honra tais convites, sendo acima de tudo, uma forma de conscientizar a todos do devastador fenômeno do assédio moral.
Por outro lado, sempre existem nos auditórios pessoas que terminantemente negam a ocorrência do assédio moral.
Confundem propositadamente conceitos, reduzem a importância da dor das vítimas, desacreditam de suas palavras, ridicularizam suas queixas, postam-se de conhecedores empíricos do fenômeno titulados para refutar números, estudos científicos, pesquisas, jurisprudência… ou a óbvia realidade que lhes estampa a cara.
Não há linguagem que lhes acesse. Não há entendimento ou qualquer diálogo. Não há como atingir mente ou coração.
Não há artigo do cientista mais consagrado da atualidade que lhes convença. Não há cartilha da OIT ou da OMS que lhes retire os tampões dos olhos, do intelecto e do preconceito. Não há propostas legislativas suficientes para demonstrar a relevância do problema. Julgados então, esqueçam. Afinal, o que é mesmo Justiça?
Não sei o que lhes movem. E, sinceramente, talvez não goste da resposta…
Enfim, cegos!!!
De perniciosa espécie: cegos de alma!!!
Parafraseando uma espetacular guerreira, pergunto:
Quantos mais vão precisar morrer para que o assédio moral acabe? (2)

REFERÊNCIAS:

(1) Disponível em: https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/a-historia-do-cego-que-nao-quis-ver. Acesso em: 14 mai. 2018.
(2) Frase de Marielle Franco postada um dia antes de ser brutal e covardemente morta. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/quantos-mais-precisarao-morrer-postou-vereadora-um-dia-antes-de-ser-assassinada-no-rj.ghtml. Acesso em: 14 de mai. 2018.

 

Ivanira
Ivanira Pancheri é Articulista do Estado de Direito, Pós-Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2015). Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (1993). Mestrado em Direito Processual Penal pela Universidade de São Paulo (2000). Pós-Graduação lato sensu em Direito Ambiental pela Faculdades Metropolitanas Unidas (2009). Doutorado em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente é advogada – Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. Esteve à frente do Sindicato dos Procuradores do Estado, das Autarquias, das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo. Participa em bancas examinadoras da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo como Professora Convidada. Autora de artigos e publicações em revistas especializadas na área do Direito. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Penal, Processual Penal, Ambiental e Biodireito.

 

 

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