Karú Torres – “essa mulher preta que ensina”

Coluna Direito & Arte – (des)construções, por Eliene Rodrigues de Oliveira*,  articulista do Jornal Estado de Direito.

    

   

 

 Conversa com Karú Torres | @karubhbh | Belo Horizonte MG

 

    Abrimos as cortinas da coluna Direito & Arte – (des)construções com Karú Torres[i], produtora editorial, produtora e gestora cultural, mineira de Belo Horizonte e sócia da Napele Produções.

    Karú nos conduz às histórias das produtoras e gestoras culturais pretas; nos sacode sobre silenciamentos; nos convoca para a valorização (e valoração) da(o)s profissionais artístico-culturais preta(o)s e para olhares atentos sobre as raízes que gestaram (e gestam) a produção pulsante de Minas Gerais; nos sensibiliza para o capital cultural mais potente, a família. Falar sobre a produção artístico-cultural preta no Brasil é fundamental (e urgente). Em doses homeopáticas a conversa se estendeu de novembro de 2020 até 18 de janeiro de 2021. Em lua crescente, ao ar! Isso nos é caro e simbólico: o tempo das gestações no nosso idioma mineirês. Revela o contexto pandêmico que pede outros formatos de diálogos, registros e tempos: Karú conciliou casa, família e trabalho – escrita de projetos; bastidores das produções culturais em Belo Horizonte que acalentaram muitas almas – com essa prosa que, para olhares atentos, apresenta fios dourados para o campo dos direitos culturais, da produção cultural e historiografia musical mineira. A partir de memórias afetivas a conversa revirou os nossos sentidos: trouxe lágrimas, pausas, incômodos, dores, força, esperança e direções. É de costume Karú fazer cair os véus (não com palavras, mas com ações) com sua potência de solidificar e alastrar ensinamentos. Agradecemos a sua partilha e aspiramos que cada leitor(a) escute com o coração para conectar profundo aos fios de saberes de uma das mais respeitáveis produtoras/gestoras culturas d(n)o Brasil.

Foto: Paulo Oliveira

Aperte o play e se inspire em Karú!

https://soundcloud.com/conversando/conversa-com-karu-torres

Foto: Paulo Oliveira | Edição de áudio: Filipe Alves @filipealves_artistavisual

Foto: Paulo Oliveira

 

Transcrição:

Eliene (LN) – Boa noite! Quero te agradecer pela confiança e por nos dar a honra da sua participação, da sua contribuição e da sua luz nessa iniciativa junto ao Jornal Estado do Direito.  Não diria, somente, que você é nossa primeira convidada, mas que você é nossa grande parceira e grande inspiração.  Você está sempre presente (e contribuindo muito) nesse meu caminho de Direito e Arte que tem um marco no nosso curso, onde a gente se encontrou, no curso de Gestão Cultural. Quero sempre repetir esses agradecimentos e, agora, queria que você falasse: quem é Karú Torres?

 

Karú Torres – Oi, Eliene! Eu que agradeço pelo convite, mais uma vez. Eu fico muito feliz por ser inspiração, assim, pra você…isso é resultado que meu trabalho, o trabalho que eu faço, vem colhendo frutos, né? E semeando, plantando e dando certo. Como você disse a gente se conheceu na pós-graduação, na especialização em Gestão Cultural…a gente tinha muitos pontos que se cruzavam, muitos caminhos, né? que se encontravam e, por isso, nos aproximamos de cara, né? e isso vem acontecendo…essa aproximação vem acontecendo desde lá e cada dia mais. Karú é mulher preta, gestora cultural e produtora cultural com um olhar muito determinante em fazer cultura popular, tradicional, periférica, afromineira, afrobrasileira, africana e, também, assim… com um olhar de coletividade, de ensinar mais pessoas pretas a fazer… o fazer produção, o fazer cultural…Uma mulher preta que tem sempre o desejo de troca, o desejo de aprender cada dia mais e o desejo de trazer os meus pra perto e pra junto.

 

LN – Nossa, Karú! te ouvindo foi importante porque às vezes a gente não tem noção do quanto a linha do tempo faz parte dos nossos encontros. E eu voltei lá pra Beagá, voltei lá pras nossas primeiras aulas. Tudo isso que você diz (do olhar determinante, quando você fala da cultura periférica, da cultura negra), eu lembro que quando terminava a aula a gente descia a rua da Bahia (eu, você e Ícaro) e das coisas que mais marcaram, ali, perto do Maleta, o quanto você conversava com todas as pessoas e o quanto aproximavam de você moradores em situação de rua. Isso me marcou tanto! Era como se você pegasse nas minhas mãos e fosse me apresentando os lugares, os saberes e os fazeres. Eu me sinto muito privilegiada, sabe, Karú? Pra mim é como se fosse uma bênção…aquela menina que sai do interior, vai pra capital e encontra uma grande luz. E queria te ouvir:  antes da Karú em 2006 tinha uma Karú anterior, porque da nossa turma você já tinha uma bagagem que eu não via em nossos colegas, em nós. Você já tinha, a gente sentia, uma bagagem muito forte. Naquele momento eu buscava os direitos culturais e você, na prática, foi me ensinando o que eu tinha muita dificuldade de encontrar nos livros. Dentro de mim, eu sempre digo, você é um farol. Então, para a coletividade esse seu olhar de semeadora, de quem busca aprendizado e de quem troca é um farol. Fale um pouquinho da sua trajetória antes desse nosso encontro no lugar acadêmico.

 

Karú – Minha mãe é neta de índio, né? Meu pai é filho de homem negro, né? de uma família de herança africana. E aí, minha mãe sempre ensinou a dividir, né? a gente sempre teve muita dificuldade, a vida não foi fácil…eu lembro que nos meus aniversários fazia-se bolo…mamãe fazia o bolo, mandava pra escola e pedia pra voltar a metade pra cantar o Parabéns em casa. E, também, a gente morou no Marajó (no bairro chamado Marajó) num conjunto habitacional onde tinham, iam, muitos pedintes. Né? E aí batiam muito na nossa porta, porque sabiam que minha mãe era uma pessoa que ajudava. E aí, eu lembro que ela falava assim “olha! vocês vão comer sem carne hoje, porque vocês comem carne todo dia.  Então, a gente vai dar essa carne pra quem tá pedindo”. Então, o bife ia pro prato dessas pessoas que pediam e a gente comia sem a carne. Então, a gente cresceu muito com esses ensinamentos, né? E aí eu lembro que a gente…minha mãe foi convidada pra participar de um grupo, a Campanha do Pãozinho – O Amigo Presente, que é um grupo de amigos que fazem um trabalho com moradores de rua e aí onde eu fui com ela. Isso, na época da minha faculdade, né?  Na minha faculdade eu também era…na minha sala eu era…eram três pessoas pretas. Né? E eu estudava de manhã. O meu curso só tinha de manhã onde a sala era muito cheia de filhinhos de papai, né? de pessoas com condições melhores que as nossas e que eu tinha que estudar de manhã e estagiar à tarde e à noite eu chegava em casa pra estudar…e os meninos, né?…e esses meninos que os pais tinham mais condições financeiras eles matavam muita aula, eles não faziam trabalhos, né? e pediam a gente pra fazer, né?…então, assim…eu quis aproveitar ao máximo essa oportunidade, primeiro, porque eu fui na formatura do meu pai, né? Com seis anos de idade eu fui à formatura do meu pai (onde meu pai se formou em Administração de Empresas, ele só conseguiu fazer faculdade depois de casado, né?). E o sonho dele era ver os filhos formados. Coisa que o pai dele não conseguiu dar pra ele. Então, a gente aqui em casa aprendeu muito que era importante a gente aproveitar essas oportunidades, né? Então, a minha vida foi muito pautada nesse sentido mesmo: do olhar ao próximo, de ajudar o próximo, de dividir. Do coletivo. Minha mãe é uma pessoa que ensinou muito pra gente isso, né? Ela vem de uma família também com muitas dificuldades. E a mãe dela pegava…minha avó pegava pessoas com tuberculose, por ela ser indígena, né? e fazia remédios, botava dentro de casa. Então, a gente cresceu muito com esses ensinamentos. E eu sempre fui muito nesse olhar, então eu sempre gostei muito de frequentar –  mesmo não morando dentro de uma favela –  de frequentar a favela, de conhecer as pessoas que moram lá, de poder trocar com essas pessoas. E de aprender e ensinar, né? Então, a Karú antes da especialização é essa pessoa que vai nesse rumo mesmo, né? de poder contribuir e somar pra essas pessoas menos favorecidas do que eu, né? Então, é isso que eu sempre busquei na minha vida…assim…desde que eu me lembre, né? lembro, assim, de fazer alguma coisa.

 

LN – É tão importante pra academia (que às vezes não oferece) isso que você traz, essa essência humanizadora. Na teoria jurídica “Direito e Arte”, por exemplo, uma das buscas é humanizar o Direito, entende? isso de humanizar o humano é tão triste (paradoxal)! Me fala um pouquinho, Karú, sobre as pessoas (além da sua mãe e do seu pai), os produtores, as produtoras, os artistas e as artistas que te inspiraram e te inspiram e que você jamais encontraria nos livros. Da mesma forma que eu tive a sorte de encontrar a partir de você o que eu não encontrei (e jamais encontraria) nos livros quem, da classe artística e cultural, você considera importante partilhar ao público que são os livros vivos?

 

Karú – Então, Eliene, eu sou uma mulher, uma pessoa, privilegiada nesse sentido. Eu me esbarro e reencontro muitas pessoas assim… Então, desde que eu escolhi ser produtora, né? – porque foi uma escolha, eu escolhi essa profissão – eu esbarrei com o Ibrahima[ii], né? me reencontrei com ele…é um cara que me ajudou muito no meu fortalecimento enquanto mulher negra…assim, né?…eu falo no sentido de me redescobrir, me identificar, me descobrir enquanto mulher negra. A Casa África, né? ele, eles foram muito importantes pra isso. Então, tudo se inicia aí (eu falo que culturalmente, né?) depois que eu escolhi a minha profissão. Então, A Casa África e o Ibrahima foram pessoas importantes e aí as pessoas que vieram com a Casa África. Né? E aí depois eu me encontrei com…conheci o Gibran que eu sou sócia da empresa dele agora, que é a Napele Produções (que trabalha com o Tizumba, que trabalha com o Pererê)…que é um cara de uma sensibilidade e de um olhar também coletivo, de um olhar em prol da cultura tradicional popular, periférica…de um olhar humanizado, né? como você falou. Encontrei com as meninas da Agentz: Jú, Fê e aí, lá, com várias pessoas, né? Então, Tiago Sgarbi, Fafá, Nath, Jeane, Simone, Guilherme, muitas outras pessoas que também me ensinaram muito e me ensinam. Que são parceiras. Que também tem esse olhar que se identifica com o meu. Que são, que foram e são importantíssimos pra minha trajetória. E depois a gente vai conhecendo pessoas assim, né? Então você conhece, aí eu conheço Ana Cecília, Cris Gil…e aí conheço Joyce, Catita, Vitão…e isso vai desdobrando em outras pessoas. E aí você vai se…a gente fala aquilombando, né? E artistas assim, eu tenho o Pererê, eu tenho o Tizumba, eu tenho Fabiana Cozza, eu tenho Da Favelinha (que é o Kadu dos Anjos), eu tenho…e muitos outros assim…tem Beth Coutinho também que é uma grande parceira…Então, assim, eu sou uma mulher muito privilegiada nesse sentido…tem Janine, tem Vivi, tem Vivi Coelho… tem Havayanas Usadas…e tem o Bloco Pele Preta e tem Bloco Magia Negra, tem Swing Safado, Elisa de Sena, Negras Autoras e assim são muitas pessoas, muitas pessoas, que se eu fosse falar eu ficaria por dias falando porque eu tenho muitas pessoas que me ensinam, me ensinaram, que trocam, que somam. Então, eu falo que a minha trajetória é um eterno aquilombamento. E é um quilombo lindo! Então,  e agora eu tô lembrando alguns, então eu tenho Aninha da Pop, eu tenho Mara Costa, eu tenho Dé Lucas, eu tenho Marcinha…eu tenho muitas pessoas que estão comigo, assim, nessa trajetória, sabe?

 

LN – É muito bonito te ouvir a partir de todos esses nomes, né? e que a sua trajetória é um aquilombamento, um quilombo lindo.  Te ouvi lembrando do privilégio de você ter me levado para alguns shows e para um dos maiores tesouros da vida que foi assistir à Festa do Candombe. Quer falar um pouquinho sobre a sua experiência no Candombe, da sua pesquisa acadêmica[iii] e do seu encontro de produtora com Fabiana Cozza?…porque a Fabiana Cozza nas canções tem essa coisa muito bonita do Sagrado, né? Se você quiser falar um pouquinho disso… Lembro também de fotografias suas, Karú, você foi Rainha de um Terno de Congado, né?

 

Karú – Então, meu reencontro com Fabiana. Eu trabalhava na Casa África. Eu estava fazendo pós-graduação e o Cris, meu irmão, o Cris Cunha, passou o réveillon comigo aqui, na minha casa. E aí, a gente tarde da noite, na madrugada ele pegou o computador e falou “Karú, eu preciso te apresentar uma cantora”. A gente tinha o gosto musical muito parecido. Eu e o Cris. A gente conversava muito sobre música o que a gente gostava. E tal. E ele falou “eu preciso te apresentar uma cantora.” E aí foi no youtube e digitou Fabiana Cozza “Canto de Ossanha”. E aí quando eu vi aquele vídeo com a interpretação de Fabiana, eu falei “Putz! Que loucura, né? essa mulher, essa artista”. E aí fiquei com aquilo na cabeça e ela veio se apresentar num projeto aqui, em Beagá, que é um projeto chamado “Dois Tempos” que acontecia no Museu Abílio Barreto. E aí fazia dois shows assim, seguidos. Né? Eu lembro que um era às dezoito e outro ás vinte…uma coisa assim. E aí eu fui no segundo horário. Então, fui eu, o Cris e mais alguns amigos…fomos lá assistir ao show. E aí fiquei lá sentada, olhando assim…ela cantando… e assim…[eu]…muito atordoada e encantada com o que ela faz no palco, né? E aí acabou o show eu fui comprar o CD, entrei na fila pra autografar e tô eu na fila e aí quando eu me aproximei dela ela falou comigo assim: “você reparou que eu fiquei te olhando o show inteiro?” E aí eu falei com ela assim: “não, eu percebi que você estava olhando pro meu lado, agora achar que tava olhando pra mim era achar demais, né?” Ela falou: “olha, eu tava olhando pra você, você é minha prima.” Aí eu falei: “já que você tá falando quem sou eu pra falar que não, né?”.  Ela falou: “toma aqui meu telefone, meu e-mail pra gente continuar o contato”. Tá bom. Eu fui pra casa pensando naquilo que aconteceu, né? nesse reencontro. E a gente manteve esse contato, eu trouxe ela pra Beagá pra fazer o Fest Afro Brasil, que era um projeto da Casa África. Fomos pra São Paulo juntas, né? (eu e você, Polly pra gente assistir ao show dela) e aí a gente fomos criando vínculo de irmandade, né? E a nossa relação vai até hoje, assim…

 

O Candombe eu sempre tive um encanto muito antes da Casa África, muito antes de estudar sobre…muito antes de estar inserida, né? nessa minha pesquisa e nessa minha busca pela cultura…a coisa do tambor sempre me encantou e me fez pensar além…Então, a coisa dos tambus, né? dos três tambores era uma coisa que eu já lia um pouco e tal e tentava entender…e o Candombe por ser um quilombo também mexia muito comigo. E o Candombe por ter as três matriarcas, né? (Dona Geralda, Dona Mercês e Dona…deixa eu cantar uma parte da música pra lembrar  “A casa aberta é noite de festa dançam Geralda, Helena, Flor “…e Dona Helena, né?).. Isso me trazia um encanto e depois que eu comecei a pesquisar e ver…e  aí veio o Milton, veio Marina Machado, e aí veio o Tizumba com o Candombe…e eu fui vendo aquela coisa e lendo…e.. comprei o CD, né? fui tentando entender um pouco mais sobre essa manifestação, né? E aí eu lembro que nessa…nessa…esse inquietamento que…sobre o Candombe eu fui no lançamento de um livro, né? “O Som do Tambor” da Glaura Lucas, que depois eu vim a conhecer o irmão mais de perto que é o Bi Lucas que agora é um grande amigo, né? (casado com a Renata Coutinho)…E eu fui lá participar do lançamento e comprar o livro e tal…e aí eu fui lendo esse livro e…eu lembro quando eu quis fazer o meu TCC sobre o Candombe (assim, eu tinha o olhar só de falar dessa cultura muito rica, dessa cultura muito sagrada, dessa cultura muito ancestral, né?) e aí eu lembro que liguei pra Glaura e a convidei pra ser minha orientadora e aí ela falou “olha, Karú, se a gente for falar só sobre as coisas bonitas, das riquezas e da ancestralidade e das coisas boas eu não vou topar ser sua orientadora, não. Eu preciso te mostrar outras coisas que andam acontecendo mesmo, né? Dessa coisa da apropriação, dessa coisa um pouco da destruição em relação a esse patrimônio mesmo. Essa manifestação patrimonial assim, né?”  E aí que eu fui conversando com a Glaura e que fui entendendo e fui pesquisando nesse olhar o que eles estavam fazendo com aquele espaço sagrado, aquele quilombo com o Candombe assim, né? E foi onde eu me propus a fazer uma…ir até o local pra vivenciar aquilo, né? De perto. E foi quando a gente foi juntas, assim, né? e que a gente viu mesmo, né? Por mais sagrado, por mais bonito, por mais ancestral, né? como as pessoas que estavam lá, muitas delas, não tinham noção da importância daquele momento e do que elas estavam fazendo pra destruir aquele espaço e aquela manifestação, né? que a gente estava vivenciando, mas também que a gente viu lá…como Dona Geralda, Dona Mercês e Dona Helena, as irmãs, elas eram griôs, assim, né? elas eram matriarcas dessa cultura… Então, foi muito importante eu vivenciar aquilo, eu pesquisar e estudar mais sobre. Primeiro, porque eu pude valorizar muito mais, né? o Candombe e tentar entender com outro olhar os cuidados que a gente precisa ter com o Congado, com o Candombe com essa cultura, né?

 

Eu já fui Rainha Festeira da Guarda Feminina de Congo do Bairro Aparecida –  Nossa Senhora do Rosário à convite de Maria (da Capitã Maria da Zilda). Foi um dos momentos mais bonitos que eu já vivi. Um dos momentos mais fortes que eu já participei e… quem me trouxe essa oportunidade foi o Festejo do Tambor Mineiro (que é um evento do Tizumba da Napele [Produções], né? por eu fazer a produção e estar mais perto dessas guardas, né? eles acharam importante eu estar nas festividades deles e foi um momento muito especial.

 

LN – Você gostaria de continuar algum apontamento nesse sentido do papel das mulheres pretas no chão do Congado e nessa valorização da Minas Gerais Negra e sobre a contribuição dessa herança do Congado para as criações artísticas ou para a produção cultural? Queria te ouvir sobre o papel das mulheres nesse pulsar de Minas Negra que produz arte e cultura de uma forma tão potente e que ainda está num lugar de um silêncio…

 

Karú – Então, eu acho um tanto complexo essa pergunta, porque eu acho que o papel da mulher, ele é essencial e fundamental em todos os lugares, assim, né? independente de ser na produção, no Congado, eu acho que a força feminina vem tomando conta de todos os espaços. Mas, eu não sou uma grande estudiosa do Congado… lógico que lá, nas Guardas que eu conheço, o papel das mulheres são de extrema importância com o cuidado com as fardas, com o cuidado com as bandeiras, o cuidado com o preparo da comida no dia dos festejos, o cuidado de manter a tradição viva…essa é a maneira que eu enxergo, né? Outro dia eu escutei do Pererê uma história, dentro disso que você está falando dessa potência artística que Minas Gerais tem e que a gente não tá nos holofotes, né?…apesar que eu acho que isso já mudou um pouco, já melhorou bastante, em relação há 10 anos. Eu acho que Minas tá num patamar melhor do que anos atrás assim, desses holofotes, né?…. Então, a gente tem alguns grupos e alguns artistas de renome nacional e internacional como Grupo Corpo, Grupo Galpão, Milton Nascimento, e aí vai, né? entre outros. E tem artistas que, assim, não tem renome tão conhecido, mas, por exemplo, Pererê vai muito pra fora do país levar o trabalho dele…o Tizumba também…e aí tem outros artistas aqui, né? Nath Rodrigues e outras/outros, muitos artistas que fazem isso, né? Mas o Pererê outro dia falou uma coisa que eu fiquei pensando, assim, ele falou que às vezes ele acha que essa história da gente, sei lá, não estourar tanto assim, né? é porque a gente ainda não se deu conta do nosso DNA, porque o dia que a gente se der conta do nosso DNA, da força do nosso DNA, aí a coisa vai, assim, sabe? Então, eu acho que é um pouco isso, assim… E também fico pensando, às vezes, velho, se seria interessante essa nossa cultura tão rica, tão potente, tão forte cair nas mãos de pessoas erradas, assim, dessa grande mídia. Sabe? Se isso, realmente, valeria a pena. Sabe? Fico aqui me questionando…

 

LN – …É forte isso que você falou e é importante. Me faz pensar muito… Dias atrás você mencionou sobre o silenciamento dos produtores pretos e das produtoras pretas e isso é uma ferida na Constituição Federal de 1988 e nos direitos culturais. Você gostaria de falar sobre esse silenciamento, em Belo Horizonte, principalmente das produtoras e gestoras culturais pretas?

 

Karú – Esse assunto é um assunto que nos incomoda muito assim, sabe? Chega a doer, assim, muitas vezes, porque em pleno século XXI, né? a gente precisa ainda fazer eventos com a temática relacionada à cultura negra, né? ou à cultura tradicional ou à cultura popular para que nós produtores negros, produtoras, produtores…nós mulheres, homens, trans que trabalham com produção, né?…negras que trabalham com produção…pra que a gente consiga atuar, né? nos projetos, nos debates, nos bate-papos, nos workshops, em todos os lugares…assim…E tem…assim…são muitos produtores pretos bons de serviço, sabe? que trabalham, muitas vezes, melhor do que os produtores brancos, mas eles não nos chamam…Então, isso é uma realidade que nos agride, assim, sabe? porque…por que a gente não pode estar, né? Por que eles não nos convidam? Por que eles não nos…né? …por que mais uma vez eles nos tiram as oportunidades, né? Eles nos silenciam. Mas a gente continua fazendo as coisas. Né? E agora a gente vem questionando muito…assim, sabe? essas posturas. Uma vai incentivando a outra que vai incentivando que vai incentivando…a gente vai fazendo barulho, assim…porque a gente cansou, cansou mesmo…de ser silenciada assim. E é isso…

E aí vamos falar um pouco de representatividade e do que aconteceu recentemente, né? Então, cada dia mais os projetos que eu faço…faço assim, que eu trabalho…as pessoas que estão comigo, né? trabalhando juntas, a gente tem o mesmo pensamento e olhar da história da representatividade…(mulheres, negros, LGBTQI+)…de pensar um espaço acessível para todos, todas, todes, né? Então, nosso olhar é muito nesse aspecto de atender…não de atender, mas de pensar nessa minoria social (porque nós somos minorias sociais, né?) Então…é de fazer um projeto de que muitas mulheres pretas trabalham…(trans, a galera da LGBTQI+)…que esses espaços…pessoas maiores de sessenta anos…que esses espaços sejam acessíveis para deficientes físicos…que tenham acessibilidade, né? para mudos, cegos… que a gente consiga contemplar todas essas minorais sociais. Né? E aí, há um tempo agora, há pouco tempo atrás a AMEE (que é uma Associação do Entretenimento)[iv] fez uma live[v] conversando sobre o futuro das mulheres na produção e sobre outras questões das mulheres na produção e convidou seis mulheres e não tinha nenhuma mulher negra pra falar sobre isso. E aí nós começamos a questionar essa associação sobre a diversidade, sobre representatividade e…as medidas que eles tomaram (as providências que eles tomaram) foram bloquear algumas pessoas pra não poderem participar da live e, também, não deixaram os comentários abertos. E aí eu questiono não só à Associação, mas também às meninas, às mulheres, que foram chamadas para falar sobre….porque elas poderiam, sim (elas conhecem a gente, conhecem muitas mulheres pretas na produção), elas poderiam, sim, falar “Olha, tem alguma coisa errada aí. Vocês não chamaram nenhuma mulher negra. Eu não vou participar! Eu vou colocar uma mulher negra produtora pra falar sobre ou então vocês chamem também.” E, assim, não…não movimentaram. Então, assim… É isso, assim, elas deram “ok” ao racismo institucional que rolou. E a gente e não vai ficar mais calada, não vamos silenciar mais…Então, a gente vai falar, cada vez que isso acontecer a gente vai questionar, a gente vai colocar público… E é isso.

 

LN –… você sabe que conheci Fabiana Cozza por meio de você…assisti Nei Lopes, no Palácio das Artes (2008), porque você me levou, inclusive ao camarim, era um trabalho que você fazia… Vamos falar da Karú, das produtoras pretas e artistas que nos trazem vida, essa vida artística e cultural? Que tal mencionar as produtoras e as gestoras pretas de Belo Horizonte que a branquitude precisa (re)conhecer e abrir esse espaço jurídico (ainda tão em branquitude) pra essa força (que são vocês que estão ali fazendo)? Gostaria de te ouvir sobre essa produção, essa potência, que você mesma diz: “são muitos produtores pretos bons de serviços que trabalham muitas vezes melhores que os brancos, mas eles não nos chamam”.

 

Karú – Então, Eliene…são muitos nomes, né? que eu posso até cometer um grande erro de deixar de citar algumas pessoas…Eu vou falar o nome de algumas, assim…mas que tem muitas, muitas, muitas, muitas…A gente tem Karla Danitza, Ana Cecília, Joyce Cordeiro, Catita, Vitão, Rômulo Silva, Amazonita, Sulamita, Cris Gil, Fatine, NegaThé, Felipe Mariano, Negona…e assim…aí vai…assim, tem muita gente…e, assim, fora que a gente vem fazendo cursos, né? de formação pra esses produtores que trabalham já na tora, né? (que eu nem falei nomes aqui), tem muitos produtores que trabalham há muito tempo na tora fazendo eventos na periferia, porque não tiveram condições de fazer cursos, de se especializar. E a gente vem dando formaççoes pra esses produtores, né? ensinando os caminhos que a gente percorre, né? facilitando um pouco pra eles assim, né? ensinando as burocracias, né? ensinando como fazer um licenciamento, como escrever projetos, como formatar um clip, escrever um release, como pensar numa logística de eventos e aí vai, né? Então, tem muitos produtores pretos….

O FAN (Festival de Arte Negra) que eu coordeno há alguns anos a gente contrata 80% dos produtores pretos, né? E, assim…é de uma alegria, né? pra gente, porque tem muita gente boa de serviço e cada dia mais. Né? Eu, Karú…assim…eu tô aí há quase 15 anos e eu posso me dizer uma mulher preta privilegiada como produtora, porque eu trabalho com várias coisas, né? mas eu sei da dificuldade dessas pessoas pra arrumar um trampo, sabe? desses meus irmãos de cor, assim… Então, o que eu posso fazer, eu faço. Eu sempre trago pra perto, eu sempre trago pra junto, eu sempre tenho um olhar de coletivo, tô sempre dando oportunidades, tô sempre abrindo portas, porque eu acho importante isso, né? E eu fui uma pessoa que tive muitas portas abertas, então, isso é muito importante pra minha trajetória e aí eu acho que eu tenho que fazer o mesmo, sempre. Então, eu venho fazendo esses eventos, né? produzindo esses eventos da nossa cultura. E eu não sei se eu me vejo fazendo outra coisa, sabe? trabalhando nesses eventos gourmetizados e elitizados. Não é o que eu busco, mas eu acho, o meu questionamento, é porque eles não nos chamam… porque quando você olha pra equipe deles só tem gente branca, quando você olha um debate falando de produção só convidam gente branca. Quando você vê um workshop com a temática “produção”, só tem pessoas brancas. Então, o meu questionamento é isso: não é que eu queira trabalhar nesses eventos gourmetizados e elitizados, até porque eu acho que não tem nada a ver comigo. Né? Mas a minha briga não é por mim, eu não brigo por mim.  Né? Não tô brigando num olhar só pra mim…assim, né? pra mim…pra eu poder trabalhar. Não, pelo contrário! Eu sou muito de escolher os eventos que eu trabalho. Eu preciso ver uma verdade. Eu preciso ter uma sintonia. Eu preciso estar inserida. Os meus precisam estar inseridos pra que eu tope trabalhar. Né? Porque se não for assim, eu não topo. E aí eu venho fazendo muitas coisas, assim, dentro da área de produção, dentro da cultura que tem a ver comigo. Né? Então, é Festeja, Palco Hip-Hop, é… Noite do Griot (que é esse do Nei Lopes que você falou) Fest’Afro Brasil, FAN, FIT,…é…Solo Negro, Tambor na Praça, Mostra Benjamim de Oliveira e várias outras coisas, assim….E a gente vai, vai fazendo, vai fazendo, porque é importante fazer…

 

LN – Essas falas são muito importantes: por todos e para todos. E pensar que a profissão de gestão cultural ainda é nova (em termos de organização do conhecimento), além da sua trajetória de produção você está nesse lugar de uma profissão ainda em formação. Se fosse pra você fazer uma reflexão sobre sua carreira de gestora e produtora cultural quais são os avanços e as dificuldades?

 

Karú – Então, Eliene. Eu acho que é sempre um desafio trabalhar com cultura, né? seja ela qual for. Cultura é uma…é uma…pra muitos é uma coisa supérflua. Né?… Então, é sempre muito desafiador a gente viver e fazer…e o fazer cultural…Né? E…assim, muito mais pra área que eu escolhi que é a cultura popular, tradicional, cultura preta, periférica. Né? Então, assim, é isso…os desafios são grandes. Mas os benefícios, também, são…assim…fazer o que a gente ama e levar cultura pras periferias, pros nossos, descentralizar a cultura, fazer as pessoas da periferia entrarem nos teatros, assistirem shows…pela primeira vez irem ao cinema, né? é sempre uma recompensa gigante.

 

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[i] Produtora editorial, especialista em Gestão Cultural pelo Centro Universitário UNA-Belo Horizonte, desenvolveu pesquisa “O Candombe do Açudes duas riquezas e transformações: de patrimônio cultural à cultura do entretenimento”, em 2006. Com trajetória de 15 anos como gestora e produtora cultural com foco na cultura negra e popular.

 

[ii] Ibrahima Gaye, senegalês. Idealizador do Centro Cultural Casa África em Belo Horizonte MG.

 

[iii] Pesquisa bibliográfica e de campo que resultou no artigo monográfico “O Candombe do Açudes duas riquezas e transformações: de Patrimônio Cultural à Cultura de Entretenimento”, sob orientação de Glaura Lucas junto ao de curso de pós-graduação em Gestão Cultural do Centro Universitário UNA-BH.

 

[iv] AMEE – Associação Mineira de Eventos e Entretenimento.

 

[v] Faz referência à live de 22 de setembro de 2020, conforme publicação em rede social de e-flyer que anunciava eixos temáticos com os títulos “A consolidação da força de trabalho feminino na produção de eventos” e “O futuro das mulheres na produção de eventos.” Nota da publicação:  “E HOJE, dia 22/09 (terça-feira) a partir das 18 hs, teremos uma live com essas mulheres que fazem acontecer no setor de eventos de Belo Horizonte. O debate será sobre a consolidação da força de trabalho feminino na produção de eventos e o futuro delas neste setor. A transmissão será pelo Instagram da @amee_oficial, não percam e participem, esperamos todos vocês lá!”. Disponível em <https://www.instagram.com/p/CFcRU5tAxPh/> Acesso em 11 de novembro de 2020.

 

 

 *Eliene Rodrigues de Oliveira – Mineira. Advogada-pesquisadora. Gestora Cultural. Mestra em Artes, especialista em Interpretação Teatral e em Direito Constitucional pela Universidade Federal de Uberlândia, com pesquisas sobre Direito e Arte (desde 2005). Atua na área de consultoria, planejamento de projetos culturais e gestão cultural desde 2006. Atuou por 9 anos como parecerista de projetos incentivados pelo Ministério da Cultura junto à Secretaria de Audiovisual – SAV. Atualmente tem voltado o olhar para Direito e Arte enquanto organismo vivo.

 

 

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