Elementos para compreender um mundo complexo

Coluna Democracia e Política

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Um mundo louco ou um mundo complexo?

Faltam elementos para entender o mundo ou falta uma visão de mundo? Precisamos entender o mundo para intervir nele, mas o mundo, política, economia, arte, parece cada vez mais de cabeça para baixo. Na politica, onde devia-se ver a ética, vemos a corrupção. Na economia, que deveria estar a serviço da sociedade, vemos elites apoderarem-se da riqueza de todos. Na ideologia, onde deveriamos pautar pela razão da discussão de argumentos, vemos predominar os embates com base na emoção. Tá dificil? Não, tá complexo.

A complexidade é um conceito essencial para o filósofo Edgar Morin. O argumento central de Morin para criticar o paradigma cartesiano que dominou o ocidente desde o século XVI é o fato de que ele reduziu à mesma lógica da ordem e da racionalização os princípios de organização da ciência, da economia e da sociedade, excluindo o que se relaciona com o irracional. É a crítica a um paradigma, à razão reducionista que torna a idéia de complexidade tão fascinante aos educadores, porque nos mostra que perdemos a distinção de limites entre razão e desrazão.Para Morin, “a Complexidade está na base”.

Esta abordagem da ideia da Complexidade inspira todos aqueles que desejam inovar na política, na educação, na arte e na ciência porque oferece princípios básicos para rever nossas bases de conhecimento: o primeiro, o princípio dialógico, definido pela necessidade de agora em diante, observar-se-á a inter-relação simultânea e complementária entre os fenômenos; o segundo, principio recursivo, no qual não só há interação entre os fenômenos estudados, mas também retroação, uma retroalimentação que não havia sido indicada até então  e finalmente, o princípio hologramático: a ideia de que se em cada ponto de um holograma contém o objeto em sua totalidade, é a ideia de organização que permite conceber que o todo está na parte e a parte está no todo. Estes princípios de Morin respondem a crise de fundamentos da epistemologia ocidental do século XX e constituem ferramentas sobre as quais os educadores tem-se debruçado recentemente.

Complexidade X Niilismo irônico

Há entretanto, outras respostas a crise dos fundamentos da epistemologia que não passam pela obra de Morin ou pelo conceito de Complexidade e que merecem uma reflexão dos estudiosos. É a alternativa do niilismo irônico proposto por Jean Baudrillard cuja vantagem sobre o pensamento moriniano e seu conceito de Complexidade está no fato de recusar uma epistemologia de base que substitua o racionalismo cartesiano. Autor de clássicos como “O sistema de Objetos”, “A Sociedade de Consumo”, “ A Sedução” e “A Transparência do Mal”, Jean Baudrillard é um autor de difícil catalogação, e isto o torna fascinante. Seu texto é difícil de ser explicado porque seu sistema de pensamento nos aponta para o desaparecimento do sentido, do sexo, da verdade, do sonho, da política, da utopia, da infância, da morte e da realidade ao mesmo tempo em que narra a sua preservação como objeto de um museu. Numa comparação um tanto simplificada, ele está além do pensamento moriniano porque, enquanto este teoriza o método que pode transportar-nos para uma nova forma de pensar o mundo e a realidade, o pensamento baudrillardiano é isto em ato. O texto baudrillardiano é um passeio irreverente pelo mundo, pelas ciências humanas, repleto de metáforas de diversas especialidades utilizadas para que possamos ver o que não víamos e dar significado diferentes onde não enxergávamos.

A melhor síntese de seu pensamento pode ser encontrada em “Senhas”, lançada em 2001: “…o pensamento é, de fato, uma forma dual, não é a de um sujeito individual, ele se divide entre o mundo e nós; não podemos pensar o mundo, porque, em algum lugar, ele nos pensa. …Mas a partir de nossos dias, alguma coisa mudou: o mundo, as aparências, o objeto, fizeram sua irrupção. Aquele objeto, que se tentou manter em uma espécie de passividade, ora se vinga”. Ora, eis o ponto de partida de Baudrillard: enquanto nosso racionalismo nos orientava para entender o mundo, esquecíamos a possibilidade de um retorno, a incerteza causada por um mundo que retorna para colocarmo-nos em nosso devido lugar e recusa-se a deixar entender.

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Para Baudrillard, só pode ser assim, pois não se trata de reconhecer a complexidade do mundo, como pretende Morin, mas revelar que ele na verdade é paradoxal, daí a necessidade de pensá-lo em outros termos. Dito de outra forma: não é que o racionalismo não seja suficiente para o mundo e nem que o mundo é irracional, como pretende Morin: o mundo  é na realidade incerto, ambíguo, aleatório e reversível, exigindo um pensamento paradoxal para sua aproximação. O pensamento deve-lhe ser especular, ser a sua imagem. O mundo não é composto de razão e desrazão, como pretende Morin: há muito ele não é nada disso porque já é desestabilizado e incerto – em termos pretensamente morinianos, seria pura des-razão. Baudrillard nos coloca a tarefa essencial: “é preciso encontrar uma espécie de pensamento-evento, que venha a fazer da incerteza um princípio, e da Troca Impossível, uma regra do jogo, sabendo que ele não é intercambiável com a verdade nem com a realidade.”

Troca Impossível

Que é esta Troca Impossível de que Baudrillad fala?  Ele não oferece um método como Morin para tratar com esta nova realidade, mas conceitos ou categorias de análise. A Troca Impossível é uma destas categorias baudrilardianas na qual a universalização da troca, tal como o marxismo a definiu, chegou ao seu apogeu “A troca alicerça, de fato, a nossa moral, assim como a ideia de que tudo pode ser objeto de troca, de que não existe nada a que se não se possa atribuir um valor, e assim fazer passar de um para outro”. Baudrillard quer chegar assim a  explorar um conceito particular de troca, que é a “troca simbólica”: o que em dado momento, não pode ser trocado por nada? Para Baudrillard é o destino. Para o autor de “Senhas”, a troca é um engodo porquê fomos levados a acreditar que tudo é permutável, mas os antigos já sabiam que algo não o é: a morte, nosso destino mais temido. É o que Bataille chama de “A parte maldita”. Pior, para Baudrillard, a ilusão está na presença da troca por todo o lado quando nada é intercambiável.  Dito de outro modo ” o mundo não é intercambiável porque, em sua totalidade, ele não tem um equivalente em lugar algum. Como tudo faz parte do mundo, não há nada que lhe seja exterior, pelo qual ele possa ser avaliado, ou com o qual possa ser comparado, e assim ter seu valor estabelecido”. A estratégia do sistema é manter uma troca que não se alicerça em nada, mas que é eficaz. “Em algum ponto, nossa moral da troca não funciona mais”. É como o principio da incerteza, de certa forma também incorporado por Morin, houvesse  uma linha além de nosso sistema que o faz voltar-se contra si mesmo. Estranho? Isto é Baudrillard.

Mas há mais. Não é que Baudrillard abandone a teoria política, onde de fato se formou.  Seu propósito é saber como o valor de uso e o valor de troca, tal como foram definidos por Marx há mais de um século foram atualizados. Baudrillard não diz, mas seu segredo está em passar da Economia Política para a Antropologia Política, porque é esta disciplina que oferece exemplos de sociedades e culturas em que a noção de Valor, tal como a entendemos, é inexistente “as coisas não se trocam nunca diretamente umas pelas outras, mas sempre por mediação de uma transcendência, de uma abstração”. Para ele, o que tais culturas demonstraram é que existem outras formas  das coisas circularem, daí a necessidade de limpar os instrumentos de nossa percepção desses fenômenos. Nelas não há troca, há pacto “Há uma diferença profunda entre o contrato, que é uma convenção abstrata entre dois termos, dois indivíduos, e o pacto, que é uma relação dual e cúmplice”, diz Baudrillard. Para ele ocorre com relação aos objetos e aos indivíduos algo semelhante ao que se opera na linguagem poética, onde as palavras trocam entre si pelo simples prazer que proporcionam. Foi por isso que a certa altura de seu pensamento, propôs o “valor-signo”, que seria fugidio e movente que se esgota e dispersa na valorização que lhe é dada.  Diz a este respeito “Talvez estejamos ainda em uma dupla moral…Haveria uma esfera moral, a da troca mercantil, e uma esfera imoral, a do jogo, em que contam apenas o evento mesmo do jogo e o advento de uma regra compartilhada. Compartilhar uma regra é algo bem diferente de tomar como referencial um equivalente geral comum: é preciso estar totalmente implicado para poder entrar no jogo, o que cria entre os parceiros um tipo de relação bem mais dramática que a troca de mercado”.

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Quem é o verdadeiro objeto? 

Ora, não é que Baudrillard seja superior – e eu não creio de forma alguma – a Morin. O que ele nos propõe é uma reflexão da mesma natureza, porém com outras consequências e fundamentado noutras categorias. Ambos pensam o “objeto”, outro conceito chave em Baudrillard, horizonte das relações sujeito-objeto inexplorado. O autor de “O Sistema de Objetos” aponta que a produção e o consumo se fazem a partir de objetos, mas nunca nos perguntamos como eles operam no campo dos signos, como um remete ao outro. É isto que ele faz em seus estudos de semiologia, principalmente A Economia Política do Signo. “Parece-me que o objeto era como que dotado de paixão, ou que ele podia, pelo menos, ter vida própria, sair da passividade de seu uso para adquirir uma espécie de autonomia e talvez até uma capacidade de vingar-se de um sujeito demasiado seguro de domina-lo”. Por acreditar que as coisas tinham algo a nos dizer, embrenhou-se no mundo dos signos, mundo das coisas e de suas ausências, utilizando todas as disciplinas a sua roda: psicanálise análise marxista, lingüística, antropologia. Cada vez mais se impondo uma transdisciplinaridade, já eu cada objeto não podia ser referida a uma única disciplina, é natural que seus textos passaram a se tornar incompreensíveis, mas somente por aqueles que não acompanharam a evolução de seu pensamento.”

Não há como encerrar uma análise do pensamento de Baudrillard sem referir-se a suas ideias sobre a sedução. Pois é este o universo que se contrapõe à produção, afirma o autor de “Da Sedução” “Não se tratava mais e fazer surgir às coisas, de fabricá-las, de produzi-las para um mundo do valor, e sim de seduzi-las, isto é, de desvia-las desse valor, e, portanto, de sua identidade, de sua realidade, para destina-las ao jogo das aparências, a sua troca simbólica”. O tema é precioso porque de uma só vez fala do mundo econômico em que vivemos e remete a algo mais profundo que os bens, que é o potlatch – a troca das sociedades primitivas e que continua diante de nós – que se sucedeu com a troca simbólica com a morte, pergunta ao nos mostrar em  “A troca simbólica e a morte” como era percebida a morte nas culturas primitivas. Em “Da Sedução” Baudrillard parte da troca entre os sexos para demonstrar que a sedução é uma das formas do desafio em nossa cultura “A sedução é menos uma especulação que um jogo com o desejo. Ela não o nega, ela não é também o seu contrário, porém ela o põe em jogo”. No mundo marcado pelas aparências, como a nossa sociedade de consumo – outro tema de um livro de Baudrillad – a sedução está em todo o lugar, espécie de deontologia, e se a mulher tem o domínio de sedução – uma das suas afirmativas que causou furor as feministas – é porque ela tem o domínio do universo simbólico,  é disto que se trata o tempo inteiro.”O crime original é a sedução” diz Baudrillard.

O que dá titulo a este artigo, é justamente isto: que não é somente  o método moriniano de Complexidade que tem a chave para explicar o mundo. Se queremos saber o que as Ciências Sociais tem a dizer aos políticos, educadores, artistas, aos protagonistas dos movimentos sociais sobre o mundo, é preciso também ir a Baudrillard, que enunciou muito bem a defesa do entendimento do simbólico como lugar de organização social, de ordem das coisas e da aparência. É por isso que somente um pensamento que opere no sentido da identificação das coisas (Complexidade), mas no sentido da sua Sedução (desvio) é que pode dar conta do simbólico e das ilusões em que vivemos. Baudrillard sabe o limite de suas afirmações paradoxais e nos alerta “Não pretendo que tal tipo de pensamento se aplique a toda e qualquer situação. Talvez devamos aceitar dois níveis de pensamento: um pensamento causal, racional, correspondente ao mundo newtoniano no qual vivemos, e um outro nível de pensamento, muito mais radical, que fará parte daquela destinação secreta do mundo do qual seria uma espécie de estratégia fatal”. E um pouco antes: “Se os conceitos morrem, eu ousaria dizer que eles têm uma bela morte, passando de uma forma a outra – o que é ainda a melhor maneira de pensar”.

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Jorge Barcellos é Articulista do Estado de Direito, responsável pela coluna Democracia e Política – historiador, Mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. É autor de “Educação e Poder Legislativo” (Aedos Editora, 2014), coautor de “Brasil: Crise de um projeto de nação” (Evangraf,2015). Menção Honrosa do Prêmio José Reis de Divulgação Científica do CNPQ. Escreve para Estado de Direito semanalmente.

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