Do sagrado ao profano

Coluna Assédio Moral no Trabalho

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

NÃO à cultura do estupro

O estupro da menina
Nos convida a pensar:
Será essa a nossa sina?
Temos que nos conformar?
Ou temos que ir pra cima?
Já que a luta nos ensina
Que tudo pode mudar?

A cada onze minutos
Um estupro acontece
E não é um bicho bruto
Que da floresta aparece
Com seu “instinto insano”
E viola um ser humano
Conforme lhe apetece

É “gente civilizada”
Que estuda ou labora
Que cumpre sua jornada
Que vai à missa e chora
Mas estupra uma mulher
Onde e quando bem quer
Pois vê que ninguém dá bola

E pratica a violência
Achando que está certo
Pois compartilha da crença
De que o homem esperto
Não perde a oportunidade
De mostrar virilidade
Pois sempre estará coberto

Afinal nossa cultura
Acha normal explorar
O corpo de uma mulher
Em tudo quanto é lugar
Basta ver as propagandas
E as letras d’algumas bandas
Para ver como se dá

A cultura do estupro
Está em todo ambiente
Desde a casinha mais simples
Ao palacete imponente
Passando pela imprensa
Religião e ciência
E no discurso eloquente

A ob-je-ti-fi-ca-ção
Da imagem da mulher
A hiperssexualização
Que o povo aplaude de pé
É uma autorização
Para a violação
E quase ninguém dá fé

Estuprar uma mulher
Significa poder
E nossa sociedade
Ensina como fazer
Quando educa diferente
Ou mesmo quando consente
Um homem nos ofender

De onde vem a ideia
Que a gente não tem valor?
Quem criou essa epopeia
Do macho devorador?
Que pode nos estuprar
Bater e até matar
E divulgar com furor?

Limpemos nossa retina
Para enxergar a história
E ver como essa cretina
Ainda nos ignora
Pois narra os grandes feitos
Dos machos e seus direitos
Deixando a mulher de fora

Miremos as nossas casas
Escolas e outros espaços
Meninas são educadas
A ter direitos escassos
Meninos tem liberdade
E andam pela cidade
Sem ninguém seguir seus passos

Escutemos as conversas
Sobre os corpos femininos
Atentemos para aquilo
Que dizem nossos meninos
Pra ver se não é igual
Ao discurso social
Machista e assassino

Olhemos bem para as ruas
E o assédio cotidiano
Sob o sol ou sob a lua
É só “fiu fiu” imperando
E piadas de mal gosto
Ditas bem perto do rosto
Daquela que vai passando

Olhemos para a política
E os modos de governar
Será que alguém acredita
Que sexismo não há
No comando do país
Que hoje está por um triz
Sem mulher para opinar

Quem tem controle de tudo?
Quem manda, quem determina?
Quem acha que pode tudo?
Quem explora e domina?
Quem é “criado pra isto”?
Quem acha que tem um visto
Pra violar as meninas?

Tudo é naturalizado
Visto como algo banal
Mas as práticas revelam
O machismo estrutural
Que ainda culpa a mulher
Dizendo: “ela é quem quer
Ser estuprada, afinal”

O velho patriarcado
Ainda está em vigor
E o machismo é ofertado
Como o melhor professor
Nos planos de educação
Por toda essa nação
Sem ter o menor pudor

Mas isso tem que mudar
Pois é preciso ter fim
O povo tem que acordar
E o Estado enfim
Precisa assumir a culpa
E acabar com a desculpa
De que as coisas são assim

Pois se cada estuprador
Responde pelo seu ato
Conforme manda a lei
E assim deve ser, de fato
O machismo opressor
Que tanta dor já causou
Também pagará o pato

Precisa ser extirpado
Do convívio social
Não pode ser tolerado
Ou perdoado, afinal
Tem que ser eliminado
Morto e erradicado
Via educação geral

Pois se a cultura machista
Ensina a maltratar
E estuprar as mulheres
Ou até mesmo matar
Educar para a igualdade
E para a diversidade
É o que pode transformar

Sobre isto o feminismo
Tem muito a nos ensinar
Já que fala de respeito
De direitos, de lutar
Fala de democracia
Liberdade, autonomia
E d’outras formas de amar

Não à cultura do estupro
Não à dor e à violência
Não à exclusão de tudo
Não à tanta conivência
Não ao machismo perverso!
E assim termino meu verso
Pedindo mais consciência!
(Salete Maria)

Do sagrado ao profano

Em que pese o sagrado princípio da presunção da inocência, nas últimas horas nossas crenças foram profanadas a partir de uma triste situação: um curandeiro cristão – João Teixeira de Faria – é acusado de abusar sexualmente de mais de 300 mulheres.
Em momentos de absoluta fragilidade, ao buscarem a cura para suas dores físicas e mentais ou orientação espiritual para suas aflições, teriam sido estupradas pelo mencionado médium em seu centro na cidade de Abadiânia, Goiás (1976) no que já se intitula o mais grave caso de crimes sexuais em série da história do país.
O que iniciou com uma fotógrafa holandesa, Zahira Leeneke Maus, afirmando a uma rede de televisão brasileira que o curandeiro a assediara e depois a estuprara, agora alcança centenas de denúncias semelhantes de mulheres brasileiras, americanas, alemãs, suícas etc., inclusive com relatos de sua própria filha, Dalva Teixeira.
Reconhecidamente uma celebridade, “João de Deus” recebera em 2012, Oprah Winfrey para filmar um episódio da série de entrevistas Oprah’s Next Chapter, cujo vídeo aliás, foi retirado da página da apresentadora no YouTube e substituído por uma empática declaração às vítimas com pedido de Justiça.
Independente da decisão final, e novamente, invocando o sacrossanto princípio da não culpabilidade, o debate sobre a cultura da violência faz-se em voga.
E assim, restam-nos apenas algumas pregações:
– imaginemos o dia em que as mulheres poderão viver em um mundo que sacralize a igualdade, o respeito entre todos os seres e o pacifismo;
– imaginemos o dia em que seja inimaginável religar fé e violência;
– imaginemos o dia em que o profano seja superado pela ética.

Referências

(1) Salete Maria é uma cordelista feminista brasileira. Atualmente trabalha como professora do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia-UFBA. Suas temáticas são múltiplas, mas com ênfase nas questões de gênero, feminismo, direitos humanos e outros assuntos marginais e periféricos. Salete Maria – que aprendeu a fazer cordel com uma avó cega e analfabeta – fez uma grande revolução na literatura de cordel, sendo a maior referência feminina neste campo, ao qual se dedica de corpo e alma. Disponível em: http://cordelirando.blogspot.com/search?updated-max=2018-01-15T14:46:00-08:00&max-results=7 Acesso em: 15 dez. 2018.
(2) #chegadeabuso #metoo #mexeucomumamexeucomtodas

 

 

Ivanira
Ivanira Pancheri é Articulista do Estado de Direito, Pós-Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2015). Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (1993). Mestrado em Direito Processual Penal pela Universidade de São Paulo (2000). Pós-Graduação lato sensu em Direito Ambiental pela Faculdades Metropolitanas Unidas (2009). Doutorado em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente é advogada – Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. Esteve à frente do Sindicato dos Procuradores do Estado, das Autarquias, das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo. Participa em bancas examinadoras da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo como Professora Convidada. Autora de artigos e publicações em revistas especializadas na área do Direito. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Penal, Processual Penal, Ambiental e Biodireito.

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