Até que ponto é possível assediar uma pessoa? Filme: “El Patrón, Radiografia De Un Crimen”

Coluna Assédio Moral no Trabalho

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Obra de Elías Neuman.

Obra de Elías Neuman.

Mais um filme imperdível dentro da trajetória tão exitosa do cinema argentino, “El patrón: radiografía de un crimen” é um premiadíssimo longa-metragem produzido, montado e dirigido por Sebastian Schindel (2015). Foi baseado no livro homônimo do criminólogo Elías Neuman e trata-se de uma história real levada aos cinemas: um brutal crime que chocou a população portenha na década de 80. (1)
Hermógenes, jovem passivo e analfabeto, muda-se – juntamente com sua esposa Gladys – de Santiago del Estero para Buenos Aires na esperança de uma vida melhor.
Hermógenes encontra emprego em um açougue. Lá é ensinado por outro empregado Armando a como vender carne estragada, misturando-a a outras, lavando-a com água sanitária, retirando os vermes e fazendo linguiça de carne podre temperada com páprica para disfarçar o fedor. Assim, vê-se obrigado a comercializar a tal carne podre…
O dono da rede de açougues chama-se Latuada e após, ameaçar com arma de fogo um funcionário paraguaio, expulsa-o de um de seus açougues, colocando Hermógenes em seu lugar.
Latuada aluga a Hermógenes e Gladys um quartinho que ficava atrás do açougue, verdadeira espelunca. Seus documentos foram retidos. Os 30 kg mensais de carne que comiam eram descontados do miserável salário. Também, as prestações de um falso apartamento em construção eram cobradas do protagonista. Gladys foi “contratada” por Latuada para trabalhar na casa de sua família, nada recebendo.
As humilhações, saliente-se, iniciaram desde o primeiro momento: o patrão modifica o nome do rapaz para Santiago, retirando-lhe sua identidade.
Não apenas Hermógenes, mas também sua esposa eram incessantemente xingados, maltratados e ridicularizados. Continuamente eram insultados por adjetivos que variavam de “filhos da puta a pretos idiotas”, etc.
Os episódios agressivos se intensificavam. Gladys foi enxotada do imundo quartinho por Latuada. Em outro ocasião, uma cliente devolve a carne estragada na frente de Latuada que culpa Hermógenes, mais uma vez espezinhando-o.
Hermógenese  Gladys decidem então, voltar para o interior porém Latuada, muito persuasivo, os convence a ficar.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Um dia o pacífico Hermógenes desfere várias facadas em Latuada que morre em frente ao açougue.
Principia assim, um processo penal cujo desfecho poderá ser a prisão perpétua. (2)
Neste ínterim, ter-se-ão as maiores indagações: até que ponto é possível humilhar e assediar alguém? O que esperar de uma situação de violência diária contra uma pessoa? Até quando a necessidade por comida e emprego pode evitar a fúria contra ataques e agressões frequentes? A ética de um indivíduo pode ser violada impunemente? E a dignidade?
Elías Neuman dedicou doze anos de pesquisas sobre a escravidão moderna e o assédio moral na Argentina e em outros países da América Latina, com testemunhos, conversas com o advogado, visitas pelos açougues do país, viagens a Santiago del Estero até finalmente vir às telas o filme.
Cuida-se de uma obra densa que explora magistralmente nossas sombras…
Enfim, como se disse:

Não se trata, naturalmente, de um filme de fácil digestão, já que o prato principal do cardápio é “carne podre”. Carne podre e mesmo assim vendida à população em açougues portenhos. Carne podre de gente de alma estragada, cruel, capaz de explorar ao máximo um cidadão humilde, semi-analfabeto, rotulado desde pequeno de “inapto” pelo Estado Argentino. (3)

Aliás, fica aqui uma ótima definição para assediador: GENTE DE CARNE PODRE E ALMA ESTRAGADA.

REFERÊNCIAS:

(1) Advertência: contém spoiler.
(2) Disponível em: https://juorosco.blog/2017/09/28/resenha-filme-el-patron-radiografia-de-un-crimen-sebastian-schindel/ Acesso em: 07 set. 2018.
(3) Disponível em: http://www.lilialustosa.com/2015/10/05/el-patron-radiografia-de-un-crimen/ Acesso em: 07 set. 2018.

Ivanira
Ivanira Pancheri é Articulista do Estado de Direito, Pós-Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2015). Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (1993). Mestrado em Direito Processual Penal pela Universidade de São Paulo (2000). Pós-Graduação lato sensu em Direito Ambiental pela Faculdades Metropolitanas Unidas (2009). Doutorado em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente é advogada – Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. Esteve à frente do Sindicato dos Procuradores do Estado, das Autarquias, das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo. Participa em bancas examinadoras da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo como Professora Convidada. Autora de artigos e publicações em revistas especializadas na área do Direito. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Penal, Processual Penal, Ambiental e Biodireito.
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