Ainda sobre bullying na política

Coluna Assédio Moral no Trabalho

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Bullying e direitos humanos

O bullying na política como qualquer outra forma de assédio moral merece ser enfrentado e combatido à medida que igualmente perfaz-se em violência psicológica a humilhar, constranger, hostilizar, ofender etc.
Ademais, representa seguramente uma ameaça à democracia em razão das decisões políticas tomadas não terem o condão de beneficiar o povo mas sim, de imporem o medo e o ódio como instrumento de governo.
Instituições democráticas, liberdades individuais, conquistas ambientais etc. sentem o peso de um discurso populista e caminham para seu absoluto desmantelamento.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O respeito aos direitos humanos é interpretado como um transtorno ao ato de governar, traduzindo-se como um desserviço ao país.
O marco civilizatório rompe-se.
Pensamentos ignóbeis são verbalizados e pratica-se a violência especialmente contra LGBTs, mulheres, afrodescendentes e aqueles com visões políticas diferentes.
Aliás, aqueles que não pactuam com as convicções ordenadas não somente estão errados como são maus, perigosos e merecem ser destruídos. O antagonismo é explicitado numa guerra de uns contra outros, literalmente!
Há portanto, um encorajamento generalizado à intolerância, reflexo da liderança tirânica.
Ainda que, a crise e a insegurança vivenciadas pelo mundo e, particularmente pelo Brasil estimulem o aparecimento de um autoritarismo travestido em lideranças “fortes” e únicas e autênticas – os outsiders -, que rejeita estranhos ao grupo e fortalece rigidez normativa, nada justifica esta sanha política que menospreza e aniquila o outro.
Uma verdadeira ode à crueldade e ao atavismo.

O bullie

O político valentão demoniza coletividades, desconsidera fatos, ignora verdades históricas, mente, recusa-se ao debate, buscando infantilmente a vitória, mas esquecendo-se da gigantesca responsabilidade a ela atrelada. Obscenidades, palavrões, zombarias compõem o respeitoso vernáculo que dedica à arte da política.
Os bullies submetem a todos a constantes ataques e desmandos num comportamento errático completamente inconciliável com a excelência na Administração Pública.
Por óbvio este comportamento fascista o aproxima de líderes estrangeiros nefastos e parcerias recrimináveis. Entretanto, ele é o maior inimigo.
Em que pese o repulsivo comportamento do político valentão, não se pode desconsiderar que este tipo encontra-se alijado de qualquer discussão política. Assim, facilmente seduzido, em sua ambição pelo cargo, a submeter-se às pautas do mercado.
E, neste ínterim, recordando-se que “pesquisas mostram que 68% da população brasileira são contra as privatizações; 71%, contra reformas nas leis trabalhistas e 85% contra reformas na previdência”, nada melhor que uma aberração autoritária para as transformações que o mercado pretende enfiar goela abaixo da população. (1)
Assim, os gritos do valentão mudam o foco, esvaziando discussões políticas e obstando ações engendradas para bem-estar social, para justiça social.
E, para arremate seu ultraconservadorismo beneficia a agenda do mercado ao destilar ódio aos esquerdistas.
Neste sentido:
‘A extrema direita tem uma função útil para o mercado e para o governo golpista: usar os seus seguidores para “criminalizar” e estigmatizar toda a esquerda e transformar, por conseguinte, a luta por liberdade e justiça social em uma falácia. É lógico que se aproveitam das condições sócio-históricas da democracia atual, onde uma massa de cidadãos desencantados, desorientados e descontentes, não sabem a quem ser leais. Mas é pela retórica que essa direita cresce.’ (2)
Importante não é somente percebermos a existência de políticos deste jaez mas sim, compreender quão podem ser usados no jogo político a nos neutralizar e aniquilar.
Não podemos permitir que, como cidadãos e como nação, sejamos solapados de nossa civilidade, de nossa humanidade e de nossa dignidade pública.
Enfim, que nossa jovem democracia não tenha por epitáfio:
“Enterramos o cadáver pútrido da liberdade.” (Mussolini)

Referências:

(1) Disponível em: https://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/safatle-desconstroi-a-pauta-ultraconservadora/ Acesso em: 13 out. 2018.
(2) Disponível em: https://diplomatique.org.br/entre-o-medo-o-desdem-e-a-colera-o-avanco-da-extrema-direita-no-brasil/ Acesso em: 13 out. 2018.

Ivanira
Ivanira Pancheri é Articulista do Estado de Direito, Pós-Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2015). Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (1993). Mestrado em Direito Processual Penal pela Universidade de São Paulo (2000). Pós-Graduação lato sensu em Direito Ambiental pela Faculdades Metropolitanas Unidas (2009). Doutorado em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente é advogada – Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. Esteve à frente do Sindicato dos Procuradores do Estado, das Autarquias, das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo. Participa em bancas examinadoras da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo como Professora Convidada. Autora de artigos e publicações em revistas especializadas na área do Direito. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Penal, Processual Penal, Ambiental e Biodireito.
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