Abertura da Coluna “Assédio Moral no Trabalho” por Ivanira Pancheri

Coluna Assédio Moral no Trabalho

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Foto: Pixabay

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O Assédio Moral no Trabalho

Honra-me em muito a possibilidade de escrever para tão prestigiado periódico. Com imensa felicidade, respondi ao convite para tornar-me articulista do jornal Estado de Direito, juntando-me a uma equipe de tão competentes colegas e pensadores do Direito.

Tanta satisfação faz-se maior à medida que poderei compartilhar com os leitores, tema que me apresenta muito caro, o Assédio Moral no Trabalho.  Espero, na verdade, que esta coluna se constitua num fórum de debates, num ambiente profícuo a tecer soluções e sensibilizar a sociedade para esta epidemia mundial.

E, vamos falar, ou melhor, ouvir sobre o Assédio Moral.

As dores das vítimas

Humilhar é reduzir você a pó. Reduzir! É tirar a dignidade da gente, e, se você perde isso, você perde tudo na vida. Você perde completamente, não tem mais amor à vida. Se a gente perde a dignidade, perde o trabalho… a gente vira pó, vira cinza, volta a terra. (H., pardo, LER, ind. plást.)

A humilhação, ela é tão… tão assim… baixa, que você não tem valor. É uma dor muito grande. Eu tenho muita revolta dentro de mim, porque você ser humilhada dói! Dói muito! A humilhação é sofrimento. Sofrimento! É tristeza. A humilhação, pra mim, significa dor. Dor maior! (M., branca, LER, ind. farmac.)

A humilhação é a gente servir de peteca. Ser jogada de um lado pra o outro, sem saber o que fazer. Um diz uma coisa, o outro diz outra. É ser desconsiderado, enganado! É isso: a gente parece que não é gente pras outras pessoas. É uma coisa… sem valor… um nada! Ser um ninguém… não ter valor! Um lixo! (M., parda, acid. trajeto, ind. quím.)

Indignação! Era isso que eu sentia. Indignada! Indignação! E, de repente, uma impotência muito grande. Raiva! Dá vontade de você se esconder… numa concha… não sair mais de casa… morrendo de vergonha! De todo mundo… Vontade de vingar, de reagir, e você fica ali, calada! A humilhação me dava depressão… E de repente eu sentia uma coisa física, assim, enjôo, um enjôo muito grande daquela situação… daquelas pessoas. (M., branca, LER, ind. plást.)

Quando eu era humilhada, eu queria a morte, pra ver se parava de ser humilhada! Já desejei bastante isso. Desejei morrer, porque a sensação que dá na gente quando tá sendo humilhada… é muito ruim. Nem sei comparar, só sei falar que é péssimo. Não tem nada igual à humilhação! Se a gente for fraca da mente, a gente faz bobagem. A gente se mata pra acabar com tudo! (M., preta, hérnia discal, ind. plást.)

Foto: Pixabay

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Humilha a gente ver pessoas falando de você. Colegas, né? A forma como falam… De repente parece que você não é nada. (…) Quando eu pensei em suicídio, eu estava numa fase assim, entregue. Estava com depressão. E isso me assustou. Eu tenho uma filha pra criar (…) Eu cheguei no fundo do poço. Sofria tanto, tanto! A gente pensa no suicídio, porque não vê saída. As pessoas próximas não te ajudam, o médico não te ajuda, a família não acredita. Então você vai procurar ajuda em quem? Então você chega mesmo no limite. (M., branca, LER, ind. plást.)

Nossa jornada de trabalho consistia em desenvolver nosso encargo em meio a contínuas recriminações em público, gritos e insultos, maus-tratos psicológicos e ridicularização continuada de qualquer coisa que lhe parecesse cômica em nosso trabalho, em nossa maneira de ser ou em nosso comportamento… (…) Esta maneira de proceder do chefe fazia com que as demais seções nos chamassem de ‘Auschwitz’, ou que, quando alguém tivesse que confiar algo a nosso departamento, se referia ao fato de que teria de dar uma volta pelo ‘Vietnã’. Ainda que a essa altura, em toda a organização ele já fosse chamado ‘o abominável’ ou ‘Doutor Jekyll’, nos corpos legislativos superiores ninguém fez nada para removê-lo de seu cargo nem para reduzir os danos que havia causado entre os funcionários… (A., 45 anos, funcionário público)

Durante vários anos, outros companheiros de trabalho, pesquisadores ou bolsistas (sempre os mais brilhantes), foram sendo eliminados por nossa chefe mediante táticas de manipulação sutil. De maneiras diversas, ela havia ajustado tudo para que ninguém lhe fizesse sombra. Tudo começou quando consegui publicar uma série de trabalhos de pesquisa em uma das revistas internacionais de maior prestígio em nossa especialidade, na qual minha chefe nunca havia conseguido publicar nada. A partir de então, começou para mim um inferno no trabalho. (S., 37 anos, pesquisadora)

Só me restam forças para evitar que outras pessoas possam passar pela mesma situação que me fizeram passar. Estou morta em vida, mas estou disposta a extrair energia de onde quer que seja para ajudar outros a saírem do inferno por que eu passei. (E., 56 anos, contadora)

Conclusão

Enfim, melhor conhecer tão devastador fenômeno é premissa para refletir sobre políticas públicas, para formar uma rede de apoio aos sobreviventes do Assédio Moral e, principalmente, para não ser mais uma vítima.

Eu os convido a isto!

 

Referências

[1] Transcrição das falas em entrevistas realizadas no Sindicato de Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Plásticas, Farmacêuticas, Cosmético e Similares de São Paulo, com 2.072 trabalhadores de 97 empresas de grande, médio e pequeno porte, iniciada em 1996, pela pesquisadora e médica do trabalho Doutora Margarida Barreto. (BARRETO, Margarida Maria Silveira. Violência, saúde e trabalho: uma jornada de humilhações. São Paulo: EDUC, 2013)
[2] Casos de vítimas de Assédio Moral. (ZABALA, Iñaki Piñuel y. Mobbing: como sobreviver ao assédio psicológico no trabalho. São Paulo: Edições Loyola, 2003)

 

Ivanira
Ivanira Pancheri é Articulista do Estado de Direito, Pós-Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2015). Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (1993). Mestrado em Direito Processual Penal pela Universidade de São Paulo (2000). Pós-Graduação lato sensu em Direito Ambiental pela Faculdades Metropolitanas Unidas (2009). Doutorado em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente é advogada – Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. Esteve à frente do Sindicato dos Procuradores do Estado, das Autarquias, das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo. Participa em bancas examinadoras da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo como Professora Convidada. Autora de artigos e publicações em revistas especializadas na área do Direito. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Penal, Processual Penal, Ambiental e Biodireito.

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  1. Ana Cristina

    Sofri assédio moral no trabalho. procurei informação com alguns advogados sobre minha intenção de mover uma ação contra a pessoa que me assediou, mas, o retorno que tive não foi positivo. Os advogados afirmaram que a jurisprudência não é de sucesso para os assediados.
    Ficou o sentimento de impotência e de injustiça.
    Estou afastada do trabalho (licença saúde) e sem coragem de retomar minha função por conta do contato profissional direto que tenho com a assediadora.

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    • Ivanira Pancheri

      Ana Cristina, lamento muito ouvir tua história. E, te entendo perfeitamente. Há uma dificuldade enorme em obter apoio. E, sem dúvida nenhuma, a demanda judicial reviverá o sofrimento e a humilhação. Penso porém, que faz parte do processo de cura denunciar inclusive via judicial. A conscientização deste grave fenômeno precisa alcançar toda a sociedade e, oxalá, os próprios advogados. Se me permite, não desista deste intento. Abs.

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