A morte das utopias e a cidade

Fim de tarde de um sábado de outubro (ou setembro, ou novembro). Vou ao lançamento de um livro no histórico edifício do Centro Universitário Maria Antônia da USP, localizado na rua que leva o mesmo nome no bairro da Vila Buarque, em São Paulo. O mesmo prédio que décadas atrás testemunhou a “Batalha da Rua Maria Antonia”, protagonizada por estudantes da USP e do Mackenzie, no meio da ditadura civil-militar brasileira.

Acompanhava um amigo que escreveu o posfácio da obra. Os convidados, todos amigos, colegas e ex. alunos da autora, estavam na faixa dos 60 e 70 anos, expressavam a alegria típica dos reencontros. Reencontros afetivos e, por isso mesmo, atemporais, já que muitos não se viam há muitos anos.

O lançamento cheirava a memória. Havia no ar a vibração daqueles dias quentes, agitados pelos ventos das ruas da Paris do maio de 68. O tempo é interrompido e a vibração da juventude toma conta do ambiente. De repente surge um violão, e o grupo se anima a recordar as canções que animaram corações e ideologias. O hino da Internacional Comunista, Guantanamera, músicas de Chico Buarque.

Ao fundo, uma guarita. Dois seguranças, um homem e uma mulher, igualmente negros, igualmente terceirizados, igualmente alheios àquela celebração. Olhar vago, mirando o horizonte. Volta e meia consultam o celular. WhatsApp, Facebook, ou apenas o relógio, esperando o final do expediente.

Manhã de sábado, mês de julho. Jornada da Moradia da Defensoria Pública, no campus da PUC-SP do bairro do Ipiranga. Fui convidado para falar sobre a criação de varas de conflitos fundiários no Tribunal de Justiça de São Paulo e, quando cheguei, percebi que seria acompanhado por um público composto por militantes de movimentos sociais.

As paredes do auditório estavam tomadas por bandeiras. Tive um deja-vù do que não vivi: luta pela efetivação do direito à moradia, regularização fundiária e demandas relacionadas a pautas correlatas, dos movimentos de bairro, de mulheres e contra a carestia.

Ao subir o tablado para chegar à mesa, a visão geral revelava uma turma grisalha. Poucos jovens. A energia das convicções pulsava intensamente, mas isso não era capaz de esconder o envelhecimento generalizado. Na lista de chamada, não estava presente o novo.

Não que as motivações da luta tenham se tornado ultrapassadas. Longe disso, por sinal. Mas por alguma razão elas não sensibilizavam os mais jovens. Ou então eles não foram convidados a participar da reflexão. Arriscaria que se tivessem comparecido, permaneceriam tão alheios e conectados aos smartphones quanto os seguranças terceirizados do episódio anterior.

Luis Alberto Warat, jurista argentino morto em 2010, escreveu, em 1988, durante uma viagem a Cuba, um texto chamado “Os sonhos aposentados: reflexões à margem de maio de 68”. Nele, expõe a melancolia de um passeio ao quartel de Moncada, numa visita guiada por uma jovem “burocraticamente apaixonada pela revolução cubana” (e nascida depois dela).

Warat refletiu sobre essa melancolia e concluiu que sonhos institucionalizados tornam-se incapazes de produzir o novo. Permanecem, sobretudo aos intelectuais que os enxergam fora da vida concreta da rua, como “ilusões retrô”, miragens que aquecem a alma e revivem “transgressões frustradas” e “convicções desgastadas”.

Diz ele: a morte de um sonho “mede-se por sua incapacidade de passagem, passa por sua medrosa indisposição para capturar as diferenças, para sentir os desejos na vertigem de sua pluralidade”. E esse fascismo faz o sonho perder o caráter de “lugar de transformações imprevisíveis”.

O passo seguinte é o sonho assumir um papel autoritário. Ou seja, “o sonho funcionando com um poder de polícia que etiqueta como imoral e contra-revolucionária toda a leitura inesperada do mundo”. Para superar isso, os sonhos devem se abrir para a dimensão feminina, que não está comprometida com os deveres e o poder, mas com o desejo de ser. E a vocação do “ser” só se concretiza na disposição de encarar a vida como uma “demanda de incertezas”.

São afirmações fortes, mas necessárias para propor a radicalização da experiência do novo. E haverá discernimento suficiente para apartá-las da guerra deflagrada pelo poder que acomete o Brasil. Porque se certas utopias estão a merecer uma revisão, o que dizer das vozes autoritárias que as confrontam ? Que sequer saíram do seu armário de sombras?

Quando leio um texto de David Harvey, festejado referencial teórico dos estudos urbanos, fico com a mesma sensação ambígua que tenho quando leio um texto de Leonardo Boff sobre a crise ambiental. São narrativas aparentemente novas, que se dispõem a ler o presente. Mas as soluções – o horizonte de utopia – que oferecem não escondem a crença em sonhos mortos. Ambos os autores foram capazes de renovar pautas de discussão após a queda do Muro de Berlim. Mas não deram o passo adiante, o de propor novas soluções.

As cidades, assim como o país, carecem de sonhar novos sonhos. As velhas explicações, embora vivas na força de diagnósticos que apontam ainda para problemas não solucionados, já são insuficientes para propor soluções. Não desaparecemos com as contingências estruturais de um capitalismo desregulado/mal regulado. Mas ao mesmo tempo, seus autores não parecem dispostos a se deixar levar por novas ideias, capazes de engajar novas gerações.

Wilson Levy é doutorando em Direito Urbanístico pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo. Graduate Student Fellow do Lincoln Institute of Land Policy. Membro do Núcleo de Estudos em Direito Urbanístico da Escola Paulista da Magistratura. Professor colaborador dos PPGs em Direito e Cidades Inteligentes e Sustentáveis da UNINOVE. E-mail: wilsonlevy@gmail.com.

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