Qual a cor da polarização?

Coluna Latinitudes, por Olivia Ricarte*

 

 

 

       

Título original: A herança ideológica da “primavera vermelha” na América Latina nos anos 2000: qual a cor da polarização?

 A América Latina, ao contrário de outras regiões setorizadas ao redor do mundo, apresenta quase sempre movimentações históricas bastante sincronizadas, quando não simultâneas.

        Episódios colonizadores, exploratórios e relação com a coroa conquistadora à parte, se considerarmos apenas a história recente, desde a metade do século passado até os dias atuais, de plano é possível vislumbrar que juntos assistimos as ditaduras inspiradas nos movimentos à época ascendentes nazifascistas dos anos 30 e 40 tomarem o poder, bem como a influência crescente das ideias socialistas e comunistas, cujo símbolo maior Latino Americano fora sem dúvida Che Guevara.

        Juntos, porém divididos, com a vênia ao paradoxo, passamos também pela intensa polarização ideológica entre direita e esquerda no período pós- revolução Cubana, culminando na vitória quase que sem exceção da então autoproclamada frente anticomunismo, que mais tarde se revelaria em versões mais ou menos totalitárias de Estado, sufocando democracias e liberdades, desenhando um capítulo sombrio da história da América Latina, cujas consequências impactam as relações de governo até hoje, e que nos abstemos de abordar nesta edição da coluna em consideração à especificidade do tema.

        O tolhimento de liberdades, porquanto não o único, certamente foi um dos principais motivos que fizeram com que, num câmbio de rumo, as posições políticas e ideológicas se invertessem e, como se numa busca há muito sufocada pelo justo, pela igualdade social, pelo direito de participar ativamente das tomadas de decisões do Estado e, enfim, de ser o protagonista do cenário político, o povo acabou retomando o poder para si, em alguns momentos com muito sangue, frise-se, e  reaprendemos  – juntos – a conviver com a democracia novamente.

        Todavia, assim como no legado da terceira lei de Newton, todo movimento  político (ação) causa efeitos ao longo da história (reação) e, na luta pela democracia ou, como mais tarde alguns grupos ativistas confessaram, pela implantação da “ditadura do proletariado”, ou seja, de um estado socialista ou comunista, se quedaram como herança, por exemplo, guerrilhas que ao longo do anos se fundiram com o tráfico de drogas e perderam quase que por completo o ideário revolucionário que as germinou (o “quase” se refere ao recrutamento, que continua tendo como base a luta de classes, ao menos na teoria).

        Outra herança da redemocratização Latino Americana foi a denominada “primavera vermelha” que se alastrou pela região desde o fim dos anos 80, incluindo o Brasil, com a vitória, após o traumático impeachment do primeiro presidente eleito democraticamente após 20 anos, de figuras de centro esquerda como Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio “Lula” da Silva e Dilma Roussef, oriundos respectivamente do movimento estudantil, movimento sindicalista e guerrilha urbana armada, três importante forças de combate ao regime militar.

        Estaria claro que a sociedade optaria, após a redemocratização, por um caminho inverso àquele tomado quando da polarização entre comunismo e regimes conservadores?

        No Brasil, tanto a promulgação da Constituição Federal de 1988, a constituição “cidadã”, quanto o resultado das eleições que a sucederam, demonstram que o pleito do povo estava mesmo mais voltado à manutenção das liberdades outrora suprimidas, além de uma agenda mais direcionada ao social, nossos irmãos Latinos pareciam comungar do mesmo sentimento, e a tendência da centro esquerda no poder se fincou definitivamente nos anos 2000, quando o operário Lula se tornou presidente do país, sendo contemporâneo do indígena Evo Morales na Bolívia, dos revolucionários Néstor Kirchner na Argentina e Pepe Mujica no Uruguai, do remanescente do movimento estudantil Rafael Correa no Equador, do militar dissidente Hugo Chavez na Venezuela e da filha de revolucionários, Michele Bachelet no Chile, por exemplo.

        Foi um período de intensas e relevantes reformas sociais; que tiveram impacto na sociedade na mesma proporção dos escândalos de corrupção e, em alguns países, como na Venezuela e em Cuba, um fenômeno para muitos previsível, para outros uma imensa decepção, aconteceu no interstício da “primavera vermelha”: o tolhimento das liberdades, as mesmas que forjaram a guinada à esquerda, num infeliz círculo vicioso.

        A operação “lava jato”, que desmantelou um dos maiores esquemas de corrupção já descobertos, com braços em toda a América Latina, teve seu início embrionário em 2009, quando um cheque emitido por um doleiro em nome de um dos diretor da Petrobrás mudou os rumos de uma investigação que, a priori, seria mais uma dentre as tantas que tratam de lavagem de dinheiro.

        Os resultados da “lava jato”, retratados no nível de confiança da sociedade em relação às instituições, irrefutavelmente espelhou a insatisfação para com a agenda centro esquerda que, em mais ou menos 30 anos no poder, fez ruir os sonhos de representatividade imaculada do povo, que colocou suas esperanças e se viu, em toda a América Latina, em meio à corrupção, às falhas no enfrentamento ao crime organizado e, em casos mais sérios, aos regimes tão totalitários quanto os que outrora foram os conservadores dos chamados “anos de chumbo”.

        O círculo vicioso parece então mais uma vez mostrar a sua força e, mais uma vez juntos, temos nos movimentado numa outra guinada, desta vez à centro direita e direita, felizmente sob o jugo da democracia, o que é uma vantagem, sem dúvida, e demonstra um amadurecimento do debate politico e talvez o início de um processo de desapego à ideologias.

        Bem, deveria o ser, pelo menos. O que se vê atualmente é uma guinada bem mais tímida e temerosa do que a que representou a “primavera vermelha”, marcada por intensa polarização. Nos pleitos eleitorais mais recentes, verifica-se de plano esta polarização.

        No Uruguai, por exemplo, após um empate técnico e uma revisão de votos, o candidato de centro-direita Luís Lacalle Pou venceu com 48,71% (Agência Brasil, 2019); no Brasil, o atual presidente, Jair Bolsonaro, alcançou a margem de pouco mais de 55,13% dos votos válidos, ao passo que seu principal adversário em 2018, Fernando Haddad, obteve quase 44.87% ( G1, 2018).

        Este fenômeno se repete por toda a América Latina, a exemplo da Guatemala, que elegeu em 2019 o conservador Alejandro Giammattei, com 58% dos votos (El País, 2019).

        Qual a razão dessa polarização? De um lado, o trauma com o sonho que se transformou em ilusão, de governos vindos do povo e feito para o povo, promessa de uma esquerda de lutou para restaurar a democracia e parecia imaculada e blindada contra corrupção; de outro lado, as feridas deixadas pelos “anos de chumbo” ainda estão abertas e o crescimento de movimento ultraconservadores – incluindo neonazistas – assusta uma sociedade que quer equilíbrio entre agenda social, desenvolvimento econômico e independência politica.

        E este “outro lado” pode ser constatado pela tímida, também polarizada, porém crescente onda contrária ao conservadorismo, isto num intervalo de tempo bem menor do que a média de 30 anos desde as redemocratizações e a guinada à direita na região. É o caso de Lopez Obrador no México que, com uma agenda social, à la “anos 2000”, obtém 72% de aprovação em seu país (Brasil 247, 2020), ao passo que, na Argentina, Alberto Fernandez e a remanescente da “primavera vermelha”, Cristina Kirchner, agora voltando ao poder como vice-presidente, venceram o último pleito com 48, 02%.

        Seja qual for a direção dos ventos, se à direita ou à esquerda, o  que nos une é, certamente, o sentimento de que, num futuro próximo, a polarização ceda para a união de ideias convergentes, frutos do debate de um povo que nasceu e se desenvolveu em meio à adversidade, mas que sempre passou por todos os momentos relevante histórico-políticos juntos.

        Que não tenhamos a mesma cor, seja vermelha ou qualquer outra, mas que tenhamos a maturidade do debate político fora do círculo vicioso que nos acompanha na história recente da América Latina; que tenhamos, se caso for, a cor branca da paz.

         Amicus autem protinus te videre*.

        *Nos vemos em breve, amigos. (latim).

 

REFERÊNCIAS

BRASIL, Agência. Luis Lacalle Pou será o novo presidente do Uruguai. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2019-11/luis-lacalle-pou-sera-o-novo-presidente-do-uruguai.

BRASIL 247, Agência. Aprovação de Obrador no México chega a 72% após primeiro ano de mandato. Disponível em: https://www.brasil247.com/mundo/aprovacao-de-obrador-no-mexico-chega-a-72-apos-primeiro-ano-de-mandato

El País, jornal. Eleições na Guatemala: O conservador Giammattei ganha as eleições na Guatemala com minúscula participação. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/12/internacional/1565582757_094968.html

G1, Portal de Notícias. Alberto Fernandéz vence Mauricio Macri  e é eleito presidente da Argentina no 1º turno. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/10/27/albertofernandezeeleitopresidente-da-argentina.ghtml

G1, Portal de Notícias. TSE conclui votação: Jair Bolsonaro teve pouco mais de 55% dos votos. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/10/29/tseconcluivotacaojairbolsonarotevepoucomaisde55-dos-votos.ghtml.

foto da coluna
*Olivia Ricarte é  Articulista do Estado de Direito. Servidora pública em Boa Vista-RR. Bacharel em Direito pela UNIFENAS/MG, foi bolsista do CNPQ em programa de iniciação científica. Foi advogada, é ex membro da comissão da mulher da OAB/RR. É especialista em Direito Constitucional pela Escola Superior de Direito Constitucional e em Filosofia e Direitos Humanos pela PUC. Integrou a Câmara de mediação e arbitragem Sensatus/DF. É graduanda em ciências sociais pela UFRR, é presidente regional da Rede Internacional de Excelência Jurídica. É coautora da obra “juristas do mundo”, lançada em 2017 em Sevilha, Espanha. Foi condecorada com as medalhas de mérito pela contribuição a ciência pelas universidades de Bari, na Itália e Porto, de Portugal.

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